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"Um de nós não vai voltar", disse Camata à esposa um dia antes de ser morto

A ex-deputada Rita Camata prestou depoimento no primeiro dia do júri de Marcos Venicio Andrade, assassino confesso do ex-governador Gerson Camata

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 03/08/2021 às 15h59
Rita Camata chega ao Fórum Criminal de Vitória para julgamento do assassino de Gerson Camata
Rita Camata chega ao Fórum Criminal de Vitória para julgamento do assassino de Gerson Camata. Crédito: Carlos Alberto Silva

Um dia antes de ser assassinado pelo ex-assessor Marcos Venicio Moreira Andrade, o ex-governador Gerson Camata disse à esposa, a ex-deputada federal Rita Camata, que pressentia que algo ruim iria acontecer. Na época, segundo ela, Gerson estava abatido por conta da relação conflituosa que tinha com o ex-funcionário.

Marcos Venicio, assassino confesso, disparou um tiro contra o ex-governador no dia 26 de dezembro de 2018 e agora está no banco dos réus. Ojúri que deve definir o destino dele começou nesta terça-feira (3).

Camata, de acordo com Rita, estava envergonhado após denúncias de caixa dois e rachid, não comprovadas em âmbito judicial, terem ganhado repercussão nacional. Isso ocorreu anos antes, por meio de uma entrevista concedida por Marcos Venicio ao jornal "O Globo".  Mais recentemente, amigos em comum de Gerson Camata e do ex-assessor relataram ao ex-governador que Marcos Venicio dizia que iria matá-lo.

"INDO PARA A BOCA DO FURACÃO"

"Amigos nos disseram para ter cuidado, que o Marcos estava dizendo que ia fazer algo contra ele. O Gerson começou a deixar de sair, a ficar mais em casa. Meus filhos queriam que nós passássemos o final de ano em Búzios, mas eu disse a eles que Gerson estava muito triste. Me lembro que na noite de Natal, véspera do crime, ele pressentiu algo e me disse 'Rita, sinto que estamos indo para a boca do furacão e um de nós não vai voltar de lá'", revelou Rita Camata, em depoimento durante o julgamento, nesta terça.

A viúva do ex-governador se emocionou ao falar dos impactos que a família sofre com a morte de Gerson, à época, com 77 anos. Um dos momentos mais delicados do depoimento, em que Rita e familiares de Camata choraram, foi quando quando ela falou de como o filho mais novo, Bruno David Paste Camata, que tinha 18 anos na época do crime e acompanhava o depoimento da mãe no tribunal, lidou com a morte do pai.

"Ele era um pai muito generoso para os filhos. Eu vejo que meu filho era o mais apegado ao pai naquele momento e depois se tornou uma pessoa mais fechada e até hoje faz terapia para lidar com isso. Na hora do crime, Gerson iria levar ele para cortar o cabelo. Mas é um menino de ouro, que está fazendo Economia para seguir o pai, que também era economista", contou.

Rita Camata em entrevista coletiva no primeiro dia do julgamento do assassino de Gerson Camata

Para a ex-senadora, as denúncias feitas por Marcos Venício "mataram Gerson aos poucos", no sentido de que deixaram o ex-governador deprimido e sem vontade de manter a carreira política.

"MORRENDO AOS POUCOS"

"O Gerson foi morrendo aos poucos. A política, que sempre foi uma paixão para ele, era algo que trazia bastante vergonha, por conta dessas falsas denúncias que deixavam ele bastante triste. Me lembro que esse conflito entre os dois foi no final do último mandato do Gerson, que não queria tentar a reeleição. Eu via o Gerson definhando, de revolta, de angústia e de ressentimento. Ainda mais por ser uma falsa acusação de alguém próximo que ele confiava bastante e frequentava nossa casa. Gerson foi quem o indicou a Hartung ao Banestes Seguros. Quando Marcos foi exonerado, ele queria que Gerson arrumasse outro cargo para ele, mas Gerson explicou que o governo tinha mudado e que ele não tinha mais influência. Ele tentou arrumar emprego, queria deixar ele bem antes de se aposentar, mas não conseguiu. Esse período final foi uma época em que Gerson envelheceu muito", complementou.

Ao fim do depoimento Rita, os filhos, o cunhado e o genro se acomodaram na plateia e passaram a acompanhar o depoimento das outras testemunhas.

Marcos Venicio confessou em Juízo ter assassinado Gerson Camata
Marcos Venicio confessou em Juízo ter assassinado Gerson Camata. Crédito: Divulgação/Polícia Civil

RELEMBRE O CASO

O crime ocorreu no dia seguinte ao Natal, em 26 de dezembro de 2018. Gerson Camata havia acabado de comprar um livro e cumprimentava conhecidos em uma calçada na Praia do Canto, em Vitória, quando foi abordado por Marcos Venicio, ex-assessor dele. Aos 77 anos, o ex-governador foi morto com um tiro, um crime que chocou o Espírito Santo.

O réu, que está preso desde o dia do assassinato, teve a prisão preventiva mantida pela juíza substituta Lívia Regina Savergnini Bissoli Lage, da 1ª Vara Criminal da Capital, na decisão em que determinou a inclusão do caso na pauta para julgamento do Plenário do Júri, de janeiro.

Marcos Venicio foi detido em flagrante horas depois do assassinato e, no dia seguinte, a prisão foi convertida em preventiva. Ele é mantido no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Viana II. Em 2019, o ex-assessor confessou o crime em interrogatório prestado ao juiz Felipe Bertrand Sardenberg Moulin, da 1ª Vara Criminal de Vitória.

Na ocasião, afirmou que não premeditou o crime e que saber que tirou a vida do ex-chefe é uma “tortura diária”. "O presídio é muito duro, mas mais duro ainda é saber que tirei a vida dele", disse Marcos Venicio, de acordo com a transcrição das declarações prestadas por ele em juízo.

Assessor de Camata por 20 anos, Marquinhos, como é conhecido, foi denunciado pelo Ministério Público Estadual (MPES) pelo crime de homicídio qualificado por motivo torpe e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. Marcos Venicio relatou ao juiz que abordou a vítima para questionar sobre um processo judicial por danos morais movido por Camata, em que o ex-assessor teve cerca de R$ 60 mil na conta bancária bloqueados pela Justiça.

O QUE DIZ A DEFESA

Procurada, a advogada Junia Karla Passos Rutowistsch Rodrigues, umas das responsáveis pela defesa de Marcos Venicio, informou que aguarda um julgamento tranquilo e esclarecedor. "Marcos é réu confesso e desde o fatídico dia, quando se apresentou espontaneamente e confessou o fato, contribui com a Justiça. Não esperamos pela absolvição, até mesmo porque ele já foi condenado há muito tempo, mas que os jurados e toda a sociedade possam conhecer a cronologia dos fatos desde 1986, quando o senador e ele se conheceram, e todos os eventos que se sucederam a partir de então", iniciou.

"A acusação pretende descaracterizar, desconstruir toda a sequência de fatos que ocorreram ao longo desses anos. A acusação qualificou o homicídio pelo pior desvalor humano, a torpeza, a ganância, tão repugnante que no rol das qualificadoras é a primeira, o que não é verdade. A defesa pretende, desde o início, esclarecer e permitir que Marcos tenha um julgamento justo e não um justiçamento a qualquer custo. Todos sofreram e ainda sofrem, e o Marcos não menos. Ele, como a pessoa justa e correta que foi ao longo de toda a vida, hoje sofre pelo seu ato que tirou a vida de um ser humano, sofre pelo seu ato que matou a pessoa que mais amava e, por fim, sofre na pele as consequências da prisão. Não pedimos clemência, mas sim Justiça", afirmou.

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