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Publicado em 12 de março de 2026 às 16:48
Durante o julgamento do juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira, acusado de ser um dos mandantes do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, o relator do processo, desembargador Fábio Brasil Nery, sustentou, em sessão nesta quinta-feira (12) no Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), que há prova contundente da participação do réu em estrutura criminosa. >
"A meu sentir, há elementos probatórios consistentes do envolvimento de Antônio Leopoldo com o (coronel da PM Walter) Ferreira, sargento (Heber) Valencio, Calu, e outros que mencionarei", afirmou o desembargador, no início da análise desta acusação, citando alguns nomes de denunciados por envolvimento no assassinato de Alexandre Martins. Desses, apenas o ex-policial civil Cláudio Luiz Andrade Batista, o Calu, foi absolvido do crime. >
Para reforçar seu entendimento, Fábio Nery descreveu a atuação de Antônio Leopoldo à frente da 5ª Vara Criminal de Vitória, de Execuções Penais, função que havia assumido em setembro de 1995, e o que sucedeu após a designação de Alexandre Martins, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos e Rubens José da Cruz como juízes adjuntos cinco anos mais tarde.>
Em seu relatório, o desembargador reproduzir trechos de depoimentos que estabeleciam a relação de Antônio Leopoldo com outros acusados do crime antes do assassinato e que a conduta do juiz aposentado daria a sustentação jurídica para o crime organizado no Espírito Santo que, na época, buscava respaldo das instituições para atuar.>
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O marco inicial da apuração das irregularidades, segundo ressalta Fábio Nery, foi no ano 2000, quando o Tribunal de Justiça designou os novos juízes para atuar na Vara de Execuções Penais. Como adjuntos, Alexandre Martins, Carlos Eduardo e Rubens passaram a coletar dados e sistematizar informações para detectar as causas dos problemas que afetavam o sistema carcerário do Estado, visando elaborar propostas de soluções e adequação de rotinas. >
Durante esse trabalho, conforme o desembargador extraiu de depoimento de Carlos Eduardo, os juízes perceberam movimentações irregulares, mas, inicialmente, cogitaram se tratar de desorganização e falhas administrativas que levaram à facilitação de saída de presos e práticas de crimes. Naquele momento, os adjuntos tentaram resolver a situação nos próprios processos e com novas sentenças. No entanto, eles foram surpreendidos com a informação de que Antônio Leopoldo havia rasgado e inutilizado 32 decisões de Carlos Eduardo que visavam reparar o problema. Depois, ainda segundo o depoimento, o juiz aposentado teria tentado a adesão dos três colegas para integrar o esquema. >
"Com o aprofundamento do diagnóstico do sistema prisional, a vítima (Alexandre Martins) e os demais perceberam que a saída irregular dos presos não era fato episódico, mas dinâmica compatível com a de grupos organizados. Aclarou-se uma espécie de simbiose do poder constituído e da criminalidade atuante nesse contexto, com a cooptação do juiz, responsável pela rede de assistência jurídica e proteção às organizações criminosas", descreveu Fábio Nery. >
Naquela época, lembrou o desembargador, cogitou-se a intervenção federal no Espírito Santo, mas, por fim, decidiu-se estabelecer uma força tarefa, com representantes de diversas instituições e da sociedade civil. Vários de seus integrantes foram ameaçados. Em outubro de 2001, Alexandre Martins e Carlos Eduardo enviaram um relatório para o Tribunal de Justiça detalhando as irrregularidades e atribuindo responsabilidade a Antônio Leopoldo. "Foi um marco decisivo de desmonte do esquema de favorecimentos ilícitos.">
Além do depoimento de Carlos Eduardo, o relator fez referência a outras declarações colhidas ao longo do processo, que demonstravam a relação de Antônio Leopoldo e trocas de favores com alguns dos que, hoje, já são condenados por participação no assassinato de Alexandre Martins. >
"O vínculo do denunciado (Antônio Leopoldo) não se apresenta como mera relação social ou de conhecimento superficial. A prova demonstra aproximação incompatível de quem tem o exercício da magistratura com pessoas envolvidas com a criminalidade. O réu conferiu suporte jurídico institucional ao grupo", ressalta o desembargador. >
O julgamento de Antônio Leopoldo Teixeira, pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), ocorre nesta quinta-feira (12), quase 23 anos após o assassinato do juiz Alexandre Martins. A medida marca o encerramento do processo criminal contra o último réu, suspeito de ser um dos mentores da execução que expôs as entranhas do crime organizado no Estado.>
Entre a tese de crime de mando e a negação de autoria por falta de provas, Leopoldo é apontado pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) como uma das peça-chave no consórcio criminoso que era investigado por Alexandre. O juiz aposentado nega todas as acusações.>
O julgamento é realizado pelo Tribunal do Pleno e não em um júri popular. Isso significa que o caso será debatido no órgão máximo de julgamento do Estado, por desembargadores da Corte. O réu será condenado se a maioria votar a favor da punição.
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ENTENDA A MORTE DE ALEXANDRE MARTINS
Alexandre Martins era um juiz de Direito de 32 anos, integrante da Vara de Execuções Penais e um dos magistrados mais atuantes no combate ao crime organizado no Espírito Santo no início dos anos 2000. Era conhecido por sua coragem, ética e pelo perfil técnico e rigoroso. Além de juiz, era professor universitário e fazia parte de uma missão especial que investigava a atuação de grupos de extermínio e a corrupção no sistema penitenciário capixaba.>
O juiz tornou-se um alvo porque suas decisões atingiam diretamente o coração do crime organizado do Estado. Ao assumir a Vara de Execuções Penais, ele passou a fiscalizar presídios e a combater esquemas de corrupção que envolviam a venda de benefícios para detentos e transferências irregulares de presos de alta periculosidade. Suas investigações e sentenças ameaçavam o poder de ex-policiais, contraventores e até membros do Judiciário que mantinham negócios ilícitos dentro do sistema prisional.>
Alexandre Martins foi assassinado na manhã de 24 de março de 2003, com três tiros, quando chegava a uma academia de ginástica em Itapoã, Vila Velha. Ele estava sozinho e não utilizava escolta no momento do ataque, apesar das ameaças que recebia. O crime foi uma execução planejada: dois pistoleiros em uma motocicleta o aguardavam e efetuaram os disparos à queima-roupa. Embora a defesa dos acusados tenha tentado sustentar a tese de latrocínio (roubo seguido de morte), as investigações provaram que se tratou de um crime de mando, articulado por uma rede que envolvia intermediários e mandantes ligados ao crime organizado.>
Antônio Leopoldo é um juiz aposentado que, na época do crime (2003), era colega da vítima na Vara de Execuções Penais de Vitória. Ele é apontado pelas investigações como um dos mandantes do assassinato. Diferente dos executores e intermediários, que já foram julgados e condenados em anos anteriores, Leopoldo é o último réu de grande relevância a enfrentar o julgamento devido a uma série de recursos que prolongaram o processo por mais de duas décadas. O caso será analisado pelo Tribunal do Pleno do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).>
O Ministério Público sustenta que Antônio Leopoldo participou do planejamento da morte de Alexandre Martins por motivos de vingança e queima de arquivo.>
Segundo a acusação, a motivação seria porque Alexandre Martins teria descoberto e passado a combater um esquema de venda de alvarás de soltura e benefícios a presos, do qual Leopoldo supostamente fazia parte.>
A defesa de Antônio Leopoldo nega veementemente qualquer participação no crime e baseia sua estratégia nos seguintes pilares: >
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