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Publicado em 13 de julho de 2021 às 16:50
A indicação do advogado-geral da União, André Mendonça, por Jair Bolsonaro (sem partido) ao Supremo Tribunal Federal (STF), publicada nesta terça-feira (13), é vista com preocupação por quem acompanha a Corte. Especialistas na área temem que o escolhido pelo presidente interprete os processos e tome decisões no Tribunal seguindo convicções religiosas e não de forma técnica. Mendonça ainda terá de passar pelo Senado para que seja confirmado no posto. >
O nome de André Mendonça foi publicado na edição do Diário Oficial da União e cumpriu uma antiga promessa do presidente. Em 2019, Bolsonaro afirmou que indicaria um ministro “terrivelmente evangélico” para ocupar uma vaga no STF. Mendonça é pastor na Igreja Presbiteriana Esperança, em Brasília. >
Na noite desta segunda-feira (12), ao encerrar uma visita ao presidente do STF, Luiz Fux, Bolsonaro confirmou que indicaria Mendonça e disse que só fez um pedido ao candidato: que ao menos uma vez por semana inicie uma sessão do STF com uma oração.>
“Ele é sim extremamente evangélico, é pastor evangélico. Já falei que só faço um pedido para ele que uma vez por semana ele comece a sessão com oração. Isso está fechado. Independentemente do meu pedido, tenho certeza que os demais dez ministros do Supremo, caso ele seja aprovado no Senado, não vão se opor a isso. Muitos, pelo contrário, vão sentir a alma bem mais leve para fazer seu julgamento”, afirmou o presidente. >
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Nos bastidores, a indicação do presidente é tratada como um aceno de Bolsonaro ao eleitorado evangélico, no momento em que ele vê parte desse grupo migrar para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação é que o movimento pode fortalecer a ligação do presidente com grupos religiosos, importantes no tabuleiro eleitoral de 2022.>
A indicação de um ministro com esse perfil desperta preocupação no meio jurídico. A possibilidade de Mendonça se pautar por suas convicções religiosas é levantada por especialistas na área. >
Doutor em Direito e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), David Francisco Lopes Gomes questionou as características que levaram o presidente a indicar Mendonça para o posto. Na avaliação do especialista em Direito Constitucional, um ministro do STF deve ser indicado estritamente pela trajetória e pelas características técnicas. >
O jurista avaliou que Mendonça possui um bom currículo na área, mas considera que Bolsonaro não observou esse quesito ao optar pelo AGU. “O grande problema é que o presidente parece ter usado características pessoais ou religiosas na escolha. Isso pode ser um problema, já que numa democracia plural a Constituição deve ser interpretada de maneira laica", afirmou Gomes. >
A opinião é compartilhada por José Eduardo Faria, um dos precursores da Sociologia do Direito no Brasil e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Ele avalia que, se aceito no STF, Mendonça pode ser fiel ao presidente e às pautas religiosas, em detrimento das questões técnicas e da Constituição. >
Faria considera como preocupante o perfil de Mendonça e destacou que frequentemente ele mistura questões jurídicas com a religião e já chegou a usar trechos da Bíblia em processos judiciais. O especialista ainda afirmou que teme que o debate na Corte fique empobrecido com o aumento de questões religiosas. “A escolha de Bolsonaro não é boa. Não acredito que ele é um ministro que está a altura do STF”, afirmou o jurista. >
Além das questões religiosas, Faria reforçou um temor de que Mendonca seja um defensor dos interesses do governo Bolsonaro no Congresso. O professor lembrou que quando Mendonça estava no comando do Ministério da Justiça se envolveu em polêmicas ao utilizar a Polícia Federal para perseguir opositores do governo, por meio da abertura de inquéritos com base na Lei de Segurança Nacional. Até o momento, todas as investigações abertas pela PF a pedido de Mendonça contra críticos do presidente foram arquivadas.>
Na primeira manifestação pública após a confirmação de seu nome, André Mendonça publicou nas redes sociais uma mensagem em que agradece a Deus e aos líderes evangélicos. “Com a submissão de meu nome ao Senado Federal, agradeço a Deus pela vida e por essa possibilidade de servir meu país; à minha família, pelo amor recíproco; ao presidente Jair Bolsonaro, pela confiança; aos líderes evangélicos, parlamentares, amigos e todos que têm me apoiado”, disse. >
Na publicação, Mendonça reafirmou a defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito. "Coloco-me à disposição do Senado Federal. De forma respeitosa, buscarei contato com todos os membros, que têm a elevada missão de avaliar meu nome. Por fim, ao povo brasileiro, reafirmo meu compromisso com a Constituição e o Estado Democrático de Direito. Deus abençoe nosso país!", escreveu o indicado.>
Pós-graduado em direito pela Universidade de Brasília (UnB) e pastor na Igreja Presbiteriana Esperança, na capital federal, Mendonça é doutor em Estado de Direito e Governança Global e mestre em Estratégias Anticorrupção e Políticas de Integridade pela Universidade de Salamanca, na Espanha. Ele integra a AGU desde 2000, quando encerrou sua atividade como advogado concursado da Petrobras (1997-2000). >
Chegou ao governo pelas mãos do hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jorge de Oliveira, amigo da família Bolsonaro, e do ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, com o apoio da bancada evangélica. No governo Bolsonaro desde o primeiro dia, foi o responsável por indicar o atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, também pastor presbiteriano. >
Mendonça deixou o comando da Advocacia-Geral da União em abril de 2020 para assumir a vaga deixada pelo ex-juiz Sergio Moro no Ministério da Justiça. >
"Temos aqui um gigante do Vale do Ribeira. Esse pequeno grande homem, de um cérebro, de uma mente invejável. Muito obrigado por existir, meu prezado, depois da Damares [Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos], terrivelmente evangélico", disse Bolsonaro na posse de Mendonça como ministro da Justiça, em 29 de abril do ano passado. >
André Mendonça ficou no posto até março deste ano, quando foi substituído por Anderson Torres e voltou ao cargo de AGU. >
Para assumir o cargo no STF, Mendonça ainda vai ter que se submeter a uma sabatina no Senado Federal e sua indicação vai ser votada no plenário. Ele precisará da maioria (41) dos votos dos 81 senadores para se tornar apto a ocupar a cadeira de ministro da Suprema Corte. Desde a Constituição de 1988, nenhum nome indicado pela Presidência da República chegou a ser reprovado pelo Senado. >
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