Em meio a suspeitas de corrupção na negociação de vacinas contra a Covid-19, e com o nome envolvido em um suposto esquema de rachadinha enquanto era deputado federal, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vive o pior momento à frente do Palácio do Planalto.
Levantamento divulgado pelo Datafolha nesta quinta-feira (8) mostra que a reprovação ao governo chegou a 51%, maior índice registrado desde o início do mandato, em janeiro de 2019. A mais de um ano da eleição, porém, especialistas apontam que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas.
Na avaliação de cientistas políticos consultados por A Gazeta, o cenário nas urnas não está desenhado. O principal fator para essa indefinição é a falta de uma liderança que agregue a simpatia de todos os eleitores, que estão insatisfeitos com o atual presidente, mas também rejeitam outros nomes postos até o momento.
Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, é inegável que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o principal beneficiário da insatisfação com o governo de Jair Bolsonaro e, por isso, apareça com certo favoritismo na disputa de 2022.
Na última pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha nesta sexta-feira (9), Lula aparece com uma vantagem ainda maior sobre Bolsonaro em 2022 em relação a levantamentos anteriores. No segundo turno, o ex-presidente venceria com 58% dos votos válidos, contra 31% do atual mandatário. Na pesquisa anterior, Lula tinha 55% e Bolsonaro, 32%.
Embora o ex-presidente apareça como favorito na disputa, Consentino pontua que o petista ainda carrega rejeição considerável e não se apresenta como solução para boa parte do eleitorado, que também rejeita o atual chefe do Executivo. Na pesquisa da Datafolha, Lula aparece com 37% de rejeição.
Nesse contexto, há espaço para candidaturas alternativas, mas que o cientista político avalia terem dificuldades para vencer o pleito se forem para a disputa isoladas. O sucesso eleitoral, contudo, não é inviável, o que aumenta a imprevisibilidade.
“Muitas pessoas não aprovam Bolsonaro nem Lula, mas o centro não consegue definir um único nome e, muito provavelmente, vai pulverizado para a próxima eleição”, afirmou.
BOLSONARO PODE RECUPERAR POPULARIDADE ATÉ A ELEIÇÃO
No mesmo levantamento divulgado pela Datafolha, 59% dos entrevistados disseram que não votariam no chefe do Planalto, o que demonstra um índice de rejeição alto e que cresceu em relação à última pesquisa, quando ele marcava 54%. Os números, contudo, traduzem uma percepção atual e podem cair até as eleições de 2022.
Esse é, inclusive, um outro fator apontado por especialistas para destacar a indefinição para as próximas eleições presidenciais. Segundo o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriano Oliveira, algumas situações podem fazer com que Bolsonaro recupere a popularidade e parte do apoio perdido.
A primeira delas é o avanço da vacinação contra a Covid-19 e a diminuição nos índices da pandemia. Outra situação seria uma possível recuperação econômica. Nesta semana, analistas do mercado financeiro sinalizaram um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,18% neste ano. As previsões constam no boletim "Focus", divulgado na última segunda-feira (5) pelo Banco Central (BC).
Por fim, uma recuperação de popularidade do presidente, principalmente entre eleitores mais pobres, pode vir com a ampliação do auxílio emergencial e de benefícios sociais.
“Olhando para o futuro, uma recuperação de Bolsonaro é possível. Ele tem alguns trunfos que podem garantir isso, mas ainda é muito imprevisível apontar para uma retomada”, afirmou Oliveira.
A análise também é compartilhada por Leandro Consentino. O cientista político avalia que o atual presidente pode retomar parte do apoio, mas também corre risco de ver o inverso acontecer, com o possível agravamento de escândalos, o surgimento de novas denúncias e um lento crescimento econômico.
Em qualquer um dos cenários, os especialistas veem o atual presidente com uma candidatura competitiva em 2022, já que além de ter a máquina nas mãos, Bolsonaro ainda conta com uma base fiel de eleitores, que apresentam um perfil mais ideológico.
PRESIDENTE PRESSIONADO COM ESCÂNDALOS
Nas últimas semanas, Jair Bolsonaro viu a pressão aumentar em torno do mandato. O presidente ficou acuado pelo avanço da CPI da Covid no Senado e virou alvo de um inquérito na Procuradoria-Geral da República (PGR), que investiga se o chefe do Planalto cometeu crime de prevaricação em supostas irregularidades na negociação da vacina Covaxin.
Junto a isso, denúncias de pedido de propina para a aquisição de doses da AstraZeneca e prática de rachadinha quando era deputado federal atingem Bolsonaro, eleito com um discurso de combate à corrupção, e manifestações nas ruas agravam a situação do presidente. Um 'superpedido' de impeachment, listando 23 crimes que o chefe do Planalto teria cometido, foi apresentado à Câmara dos Deputados na última semana.
Acuado, Bolsonaro tem voltado as atenções para um outro assunto: o sistema de votação na urna eletrônica. Sem apresentar provas, o presidente afirma que as eleições de 2018 foram fraudadas e ameaça a realização do pleito de 2022, caso o voto não seja "auditável". No entanto, o voto já é auditável hoje em dia.
Nas últimas semanas, Bolsonaro intensificou a defesa à implementação do voto impresso na urna e, nesta sexta-feira (9), e chamou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, de imbecil. Barroso defende a permanência do voto eletrônico e diz que há mais chance de fraudes com a mudança.
O cientista político Adriano Oliveira pontua que o questionamento do sistema de votação aparece com mais força quando o mandatário observa queda nos índices de popularidade.
“O presidente vem dando claros sinais de que as discussões em torno das urnas eletrônicas serão utilizadas como uma possível justificativa caso seja derrotado no voto em sua tentativa de reeleição. Se as instituições não reagirem a ele, isso pode ser um ponto de preocupação grande, afirmou o especialista”.