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Entenda as acusações contra Lucas Tristão, braço direito de Witzel

Advogado capixaba foi preso nesta sexta-feira (28). Ele é suspeito de fazer parte de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro liderado pelo governador Wilson Witzel

Publicado em 28/08/2020 às 17h02
Atualizado em 28/08/2020 às 21h57
20.05.2020 - Lucas Tristão, secretário de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais, faz apresentação sobre pacto social pela saúde e pela economia do Estado do Rio de Janeiro.

Foto: Eliane Carvalho
Lucas Tristão foi secretário de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais do governo Witzel. Ele era o braço direito do governador. Crédito: Eliane Carvalho/Governo RJ/Flickr

Preso na Operação Tris in Idem, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta sexta-feira (28), o ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico do Rio de Janeiro, Lucas Tristão, é apontado como um dos principais operadores de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro liderado por Wilson Witzel (PSC).

O advogado capixaba tinha papel fundamental para manter a relação entre o governador, de quem era o braço direito, e o empresário Mário Peixoto, um dos pilares de sustentação da organização criminosa, segundo as investigações.

Além de Tristão, o presidente do PSC, pastor Everaldo, também foi preso. No total, foram expedidos 17 mandados de prisão, sendo seis preventivas e 11 temporárias, e 72 de busca e apreensão. Witzel foi afastado do cargo por decisão do ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por 180 dias.

A operação, batizada de Tris in Idem, é desdobramento da Operação Placebo, deflagrada em maio para apurar fraudes e desvios nos gastos emergenciais na área da saúde na administração estadual. Na época, Tristão também foi um dos alvos da ação e teve o celular apreendido. 

Durante as investigações, procuradores descobriram o recebimento de transferências no montante de R$ 225 mil da conta do escritório de Tristão, vindas das empresas de Mário Peixoto, denunciado por chefiar um esquema de corrupção na saúde do Rio e preso na operação Favorito. Peixoto e Tristão tinham uma relação de amizade e trabalho. O capixaba, contudo, negou ter favorecido o ex-cliente com contratos enquanto secretário do Rio de Janeiro.

O ESQUEMA

O esquema foi revelado com ajuda das delações do ex-secretário de Saúde Edmar Santos. De acordo com ele, após a eleição de Wilson Witzel, foi estruturada no governo uma organização criminosa que cobrava propina para o direcionamento de licitações de organizações sociais (OSs) que prestam serviços ao governo. Essas empresas e seus fornecedores abasteciam uma "caixinha" para os envolvidos no esquema de corrupção no governo, ainda de acordo com o delator.

A organização era encabeçada por três grupos de empresários, de acordo com o Ministério Público Federal (MPF): um pelo presidente nacional do PSC, pastor Everaldo; outro por José Carlos de Melo, pró-reitor administrativo da Universidade Iguaçu, e o terceiro pelo empresário Mário Peixoto. Este último é identificado na investigação como um dos pilares da organização criminosa capitaneada por Witzel e que detinha "mais poder no Estado". 

TRISTÃO ERA "PESSOA DE CONFIANÇA"

A interlocução de Witzel com Peixoto, segundo a delação, dava-se por meio de Lucas Tristão, "que era pessoa de confiança de ambos", cita a denúncia do MPF. O empresário era quem recebia a maior parte de vantagens ilícitas.

Para receber o dinheiro, o governador usou o escritório de advocacia da mulher, Helena Witzel. Por lá, foram firmados contratos com empresários que estariam envolvidos no esquema de corrupção no governo do Estado.

Segundo o MPF, a primeira-dama recebeu R$ 554,2 mil entre 13 de agosto de 2019 e 19 de maio deste ano de quatro entidades de saúde "ligadas a membros da organização criminosa". Quatro empresas que realizaram o pagamento de serviços que não foram prestados foram identificadas, três delas ligadas ao empresário Mário Peixoto.

AUXILIAR DE WITZEL

Tristão é apontado como um dos responsáveis por repassar pagamentos ilícitos. De acordo com a denúncia do MPF, em ao menos 21 oportunidades distintas, Witzel, com o auxílio da esposa e do advogado capixaba, recebeu vantagem indevida no valor de R$ 274 mil pagas pelo empresário Mário Peixoto. Os pagamentos foram feitos para obter facilidades e proteção em relação aos contratos do empresário com o governo entre agosto de 2019 e abril de 2020.

A denúncia ainda aponta que a ajuda do advogado capixaba era oferecida de modo consciente e voluntário e que ele, inclusive, teria tentando ocultar a origem e a localização do dinheiro. O Ministério Público denunciou Tristão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelas 21 vezes citadas.

HOMEM DE PRESTÍGIO

Tristão é descrito como uma das pessoas com maior prestígio e intimidade com o governador e que, por isso, teria sido um personagem fundamental no esquema de corrupção, de acordo com o MPF.

DE ALUNO PARA SECRETÁRIO DE ESTADO

Tristão era o homem forte do governador do Rio de Janeiro. Eles tinham uma relação de longa data, que começou no Espírito Santo, quando Witzel dava aulas de Direito na Universidade de Vila Velha (UVV). Tristão foi aluno dele. Nas eleições de 2018, o capixaba foi um dos coordenadores e advogados de campanha do governador do Rio de Janeiro. 

Com Witzel eleito, Lucas Tristão foi convidado para ser secretário estadual de Desenvolvimento Econômico. No início de 2020, contudo, ele se tornou pivô da maior crise do governo com a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Os deputados acusaram Lucas Tristão de ser o responsável pela produção de dossiês contra os próprios parlamentares. Um grupo chegou a protocolar um pedido de impeachment contra Witzel por causa das suspeitas. Em meio ao tiroteio, o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), declarou que Tristão teria dito, para quem quisesse ouvir, que possui documentos contra os 70 políticos da Casa. O capixaba sempre negou essas acusações.

Após atritos com os parlamentares e suspeitas do relacionamento com Mário Peixoto, alvo de investigações, Tristão foi exonerado por Witzel.  A exoneração foi publicada em junho deste ano. 

OUTRO LADO

A reportagem tentou contato com Lucas Tristão na manhã desta sexta-feira (28), antes de ele se entregar na sede da Polícia Federal, no Rio de Janeiro. O celular do advogado estava desligado. 

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