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Capixaba braço direito de Witzel também foi alvo de operação no Rio

Lucas Tristão foi advogado e é próximo do empresário Mário Peixoto, preso pela Lava Jato no dia 14 de maio. O capixaba teve o celular apreendido

Publicado em 26/05/2020 às 21h15
Atualizado em 27/05/2020 às 16h51
Lucas Tristão, secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado do Rio de Janeiro, e o governador Wilson Witzel (PSC)
Lucas Tristão e Wilson Witzel: policiais federais foram ao gabinete do secretário em busca de provas que possam contribuir com as investigações. Crédito: Governo RJ/ Divulgação Assessoria

O advogado capixaba Lucas Tristão, que é secretário de Desenvolvimento Econômico do governo do Rio de Janeiro, foi um dos alvos da Operação Placebo, deflagrada nesta terça-feira (26) para apurar fraudes e desvios nos gastos emergenciais na área da saúde na administração estadual. Os contratos emergenciais para o combate ao coronavírus envolvem cerca de R$ 1 bilhão. Lucas Tristão é considerado braço-direito do governador Wilson Witzel (PSC). 

Ele foi aluno de Witzel no Espírito Santo e hoje decide inclusive sobre quem deve ocupar cargos em diversos escalões.

Tristão não estava na lista de alvos de busca e apreensão da Operação Placebo, mas policiais federais estiveram em seu gabinete à procura de provas que possam contribuir com as investigações, de acordo com informações do site da revista "Veja". Ele também teve o celular apreendido pela Polícia Federal. 

Além disso,  a decisão do STJ que deflagrou a operação menciona a relação entre Lucas Tristão com o empresário Mário Peixoto, preso em um desdobramento da Lava Jato no Rio. A investigação aponta que o elo entre Tristão e a suposta "organização criminosa chefiada por Mario Peixoto" teria como base uma interceptação telefônica e a transferência de R$ 225 mil na conta do escritório de Tristão, oriundos das empresas de Peixoto. O empresário possui diversos contratos com o governo desde a gestão de Sérgio Cabral. 

A operação foi solicitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). A decisão do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, determinou o cumprimento de 12 mandados de busca e apreensão em residências e escritórios de membros do governo Witzel.

Peixoto é suspeito de desvio de dinheiro público envolvendo Organizações Sociais (OS) e nas ações de enfrentamento à Covid-19. Tristão já reconheceu publicamente a amizade com Mário Peixoto, de quem foi advogado, mas negou ter favorecido o ex-cliente com contratos no Estado.

O OUTRO LADO

Por meio de nota, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico informou que a "quantia mencionada foi recebida em 2018 por serviços prestados pelo escritório de Lucas Tristão". Segundo a pasta, Tristão não exerce a advocacia desde janeiro do ano passado, quando se afastou das atividades profissionais ao ser nomeado secretário de Estado.

"Agora trabalho em favor do interesse social da política e economia do Rio. O vínculo profissional virou de amizade, mas nunca tratei a coisa pública com improbidade. A minha idoneidade nunca foi posta em dúvida. Não sou investigado nem suspeito", declarou Tristão, em coletiva na última quarta-feira (20).

Nesta terça, o secretário afirmou que se colocou a disposição da Justiça para prestar esclarecimentos e apresentar documentos.

O governador Wilson Witzel falou sobre a relação com o capixaba, em entrevista à CNN. "Eu nunca fui sócio do Lucas Tristão. O único escritório de advocacia que fui sócio foi o Medina Osório Advogados, que foi ministro da AGU. Lucas foi meu aluno. Em várias oportunidades ele veio conversar comigo sobre processos, que não estavam sob a minha jurisdição, mas que ele iria atuar, para trocar uma ideia. Quando ele me consultou, sempre manifestei minha opinião para ele, para que pudesse trabalhar junto aos clientes".

"Lucas Tristão tem uma relação pessoal com o empresário Mário Peixoto, como ele mesmo já disse, que foi construída por serviços prestados à advocacia", acrescentou.

RELAÇÃO COM WITZEL

Tristão prestou serviços advocatícios para a campanha eleitoral de Wilson Witzel, em 2018, quando tornou-se um dos principais coordenadores. Os dois se conheceram no curso de Direito da Universidade de Vila Velha. Witzel, que trabalhou como juiz federal no Espírito Santo, foi professor de Tristão. Hoje, ele é tido como homem de confiança do governador.

No início do ano, o secretário foi pivô da maior crise do governo com a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os deputados o acusaram de ser o responsável pela produção de dossiês contra os próprios parlamentares. Um grupo chegou a protocolar um pedido de impeachment contra Witzel por causa das suspeitas. Em meio ao tiroteio, o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), declarou que Tristão teria dito, para quem quisesse ouvir, que possui documentos contra os 70 políticos da Casa. Tristão sempre negou essas acusações.

Segundo a "Veja",  ele também é tido como "todo-poderoso" no Palácio Guanabara, pois decide quem deve ocupar cargos no governo.

O episódio mais emblemático foi a fracassada tentativa de emplacar um amigo, o engenheiro Bernardo Sarreta, que é formado no Espírito Santo, para comandar a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico (Agenersa). Sem experiência no ramo, o aliado foi rejeitado por uma comissão da Alerj para assumir o cargo. Foi a primeira vez, em 15 anos, que isso ocorreu. O órgão regula os serviços de energia, gás e saneamento no Rio, um filão político e financeiro.

No início do mês, Tristão havia sido nomeado para compor o Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), mas no dia 7 de maio o governo revogou as portarias. A sua nomeação havia provocado estranheza, por ser tão próximo de Witzel, que por sua vez, é adversário político de Jair Bolsonaro. A informação do Ministério da Economia é a de que o nome do secretário do Rio foi barrado na corregedoria do ministério por ter omitido dados durante o processo seletivo.

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