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Defesa de Leopoldo afirma que morte de Alexandre Martins foi latrocínio

Defesa de Leopoldo afirma que morte de Alexandre Martins foi latrocínio

Advogado Fabrício Campos reforçou a inocência do réu e afirmou que processo foi manipulado para confirmar um viés de crime de mando, mas que não há provas que sustentem essa tese

Publicado em 12 de março de 2026 às 14:49

Advogado Fabrício Campos apresenta a defesa de Antônio Leopoldo.
Advogado Fabrício Campos apresenta a defesa de Antônio Leopoldo Crédito: Reprodução / A Gazeta

Durante o julgamento de Antônio Leopoldo Texeira, acusado de ser um dos mandantes do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, o advogado de defesa, Fabrício Campos, negou o envolvimento do réu no caso e sustentou a que a morte foi motivada por latrocínio (roubo seguido de morte). O julgamento ocorre nesta quinta-feira (12),  no Pleno do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), 23 anos após o crime.

Executores e intermediários do crime já foram julgados e condenados em anos anteriores. Leopoldo é o último réu a enfrentar o julgamento devido a uma série de recursos que prolongaram o processo por mais de duas décadas. Na época do assassinato, Leopoldo era colega da vítima na Vara de Execuções Penais de Vitória  e foi apontado pelas investigações como mandante da execução. 

Fabrício Campos, no entanto, afirmou que há evidências de manipulação do processo: “Onde está o delineamento que responda a questões sobre como e quando o acusado se reuniu com os mandantes? Se o acusado prometeu alguma vantagem? Se participou do planejamento? Se tomou conhecimento? Qual o interesse no homicídio?”

O advogado argumenta que as evidências foram selecionadas para tentar confirmar um viés de crime de mando e que todos os caminhos alternativos na investigação foram descartados. “A necessidade de punição de um crime tão grave, complexo, passa pela necessidade de se realizar a concretude do comportamento que teria sido atribuído a Leopoldo. Essa concretude não existe."

Nas palavras de Campos, "a metodologia utilizada desde o início das investigações permite direcionar a atribuição do crime a qualquer pessoa". Reforça ainda que não há nenhuma prova de ligação de Leopoldo com a morte do juiz Alexandre Martins.

Ele defende que Alexandre foi assassinado durante um assalto e refuta a tese de morte encomendada, apresentada pelo promotor do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) Sócrates de Souza. "Hoje será o dia em que será colocada uma pá de cal na tese de latrocínio", afirmou Sócrates durante o julgamento. 

Segundo o advogado, a velocidade com que as investigações correram, ainda em 2003, buscou de todas as formas apontar para um crime de mando, mesmo que o tempo e as provas não sustentassem essa versão. Ele acrescenta que, na época, autoridades envolvidas afirmaram que a motivação da morte de Alexandre por encomenda estava descartada.

Fabrício afirma que há divergência entre o laudo cadavérico e a tese da promotoria. Enquanto a acusação afirma que a vítima recebeu na cabeça um "tiro de misericórdia", o laudo cadavérico sugere que o atirador teria aplicado um último tiro a queima-roupa, devido à presença de pólvora na ferida do braço de Alexandre, indicando que houve uma disputa pela arma que estava em posse do juiz. O que reforçaria, segundo a defesa, a motivação do crime como latrocínio.

Ponto a ponto

ENTENDA A MORTE DE ALEXANDRE MARTINS

Quem era Alexandre Martins?

Alexandre Martins era um juiz de Direito de 32 anos, integrante da Vara de Execuções Penais e um dos magistrados mais atuantes no combate ao crime organizado no Espírito Santo no início dos anos 2000. Era conhecido por sua coragem, ética e pelo perfil técnico e rigoroso. Além de juiz, era professor universitário e fazia parte de uma missão especial que investigava a atuação de grupos de extermínio e a corrupção no sistema penitenciário capixaba.

Por que ele incomodou o crime organizado?

O juiz tornou-se um alvo porque suas decisões atingiam diretamente o coração do crime organizado do Estado. Ao assumir a Vara de Execuções Penais, ele passou a fiscalizar presídios e a combater esquemas de corrupção que envolviam a venda de benefícios para detentos e transferências irregulares de presos de alta periculosidade. Suas investigações e sentenças ameaçavam o poder de ex-policiais, contraventores e até membros do Judiciário que mantinham negócios ilícitos dentro do sistema prisional.

Como ele foi morto?

Alexandre Martins foi assassinado na manhã de 24 de março de 2003, com três tiros, quando chegava a uma academia de ginástica em Itapoã, Vila Velha. Ele estava sozinho e não utilizava escolta no momento do ataque, apesar das ameaças que recebia. O crime foi uma execução planejada: dois pistoleiros em uma motocicleta o aguardavam e efetuaram os disparos à queima-roupa. Embora a defesa dos acusados tenha tentado sustentar a tese de latrocínio (roubo seguido de morte), as investigações provaram que se tratou de um crime de mando, articulado por uma rede que envolvia intermediários e mandantes ligados ao crime organizado.

Quem é o juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira?

Antônio Leopoldo é um juiz aposentado que, na época do crime (2003), era colega da vítima na Vara de Execuções Penais de Vitória. Ele é apontado pelas investigações como um dos mandantes do assassinato. Diferente dos executores e intermediários, que já foram julgados e condenados em anos anteriores, Leopoldo é o último réu de grande relevância a enfrentar o julgamento devido a uma série de recursos que prolongaram o processo por mais de duas décadas. O caso será analisado pelo Tribunal do Pleno do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).

As acusações contra Leopoldo

O Ministério Público sustenta que Antônio Leopoldo participou do planejamento da morte de Alexandre Martins por motivos de vingança e queima de arquivo.

Segundo a acusação, a motivação seria porque Alexandre Martins teria descoberto e passado a combater um esquema de venda de alvarás de soltura e benefícios a presos, do qual Leopoldo supostamente fazia parte.

  • Articulação: ele é acusado de ter se unido a outros mandantes (como ex-policiais e contraventores) para eliminar o colega, que estava "atrapalhando" os negócios ilícitos do grupo ligado ao crime organizado no Espírito Santo.
  • Qualificadoras: responde por homicídio qualificado por motivo torpe e mediante pagamento ou promessa de recompensa.

O que diz a defesa

A defesa de Antônio Leopoldo nega veementemente qualquer participação no crime e baseia sua estratégia nos seguintes pilares:

  • Negativa de autoria: afirma que não existem provas materiais ou testemunhais sólidas que liguem o juiz aposentado aos executores ou ao planejamento do atentado.

  • Fragilidade do inquérito: os advogados argumentam que a investigação foi conduzida sob forte pressão política e midiática na época, o que teria levado a conclusões precipitadas e erros processuais.

  • Questionamento de testemunhas: a defesa frequentemente aponta contradições nos depoimentos de criminosos que teriam delatado Leopoldo em troca de benefícios judiciais, alegando que tais relatos são mentirosos e sem lastro em fatos reais.
Antônio Leopoldo Teixeira e a mulher Rosilene Emerich gravaram vídeo para falar sobre a inocência do ex-juiz no homicídio de Alexandre Martins

Confira os três episódios da websérie sobre o assassinato do juiz Alexandre Martins

Primeiro episódio da websérie sobre o assassinato de Alexandre Martins conta como o magistrado assassinado acabou atuando em força-tarefa para investigar autoridades envolvidas com o mundo da criminalidade
Segundo episódio da websérie documental de A Gazeta traz detalhes sobre o dia 24 de março de 2003, quando o magistrado foi morto, em Vila Velha, e as investigações que levaram aos assassinos e os demais envolvidos; assista
O episódio final da websérie documental de A Gazeta detalha a situação de todos os réus do caso, traz depoimentos do pai da juiz assassinado e do único acusado do crime que ainda não foi a julgamento, 20 anos depois

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