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Publicado em 24 de fevereiro de 2021 às 02:00
- Atualizado há 5 anos
A intervenção do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), na Petrobras, ao indicar um general de sua confiança para o comando da estatal e dizer que fará "mudanças" na empresa – gerando queda de 20% nas ações da Petrobras, na segunda-feira (22) – reforça, segundo especialistas, a ruptura dele com o perfil liberal que construiu durante as eleições de 2018. Se por um lado o presidente atende a um clamor popular para a redução do preço dos combustíveis, por outro, faz isso de maneira artificial, gerando consequências que podem trazer prejuízos a longo prazo. >
Em ano pré-eleitoral e já mirando o pleito de 2022, o presidente ignora o que defendeu na eleição passada, quando dizia que "partiria para o liberalismo" e que seguiria o que o "posto ipiranga", o agora ministro da Economia, Paulo Guedes, lhe sugerisse na pauta econômica. Dois anos depois da eleição, Guedes está cada vez mais isolado no governo. Os homens de sua confiança – o ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida, do ex-presidente do BNDES Joaquim Levy e do ex-presidente da Eletrobras Salim Mattar – foram substituídos por nomes mais próximos de Bolsonaro.>
Na Petrobras, o presidente indicou o general Joaquim Silva e Luna para assumir o cargo da presidência da estatal, hoje ocupado por Roberto Castello Branco. A intervenção de Bolsonaro foi comemorada por apoiadores, que veem na ação do presidente um prenúncio para a redução do preço dos combustíveis, que tiveram uma alta devido à maior procura por derivados do petróleo nos Estados Unidos, por conta do inverno, além do aumento do dólar.>
"O que se especula é que o presidente, basicamente, quer comprar petróleo mais caro lá fora e vender mais barato no mercado interno, com o governo assumindo o prejuízo que a empresa terá. A curto prazo, o preço dos combustíveis vai cair no país, mas vai gerar um efeito dominó que vai enfraquecer a Petrobras, por conta do lucro menor, a médio e longo prazo. Ele, como presidente, pode fazer isso, já que o governo é o acionista majoritário, mas os outros acionistas não vão querer bancar esse prejuízo, por isso a queda nas ações”, explica o economista e professor da Fucape Felipe Storch.>
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Além do enfraquecimento da empresa, pela Lei das Estatais, se a Petrobras tiver prejuízo devido a medidas tomadas pelo governo, o Tesouro Nacional, bancado pelos contribuintes, é que terá que repor as perdas. Ou seja, na prática, o impacto continuará no bolso dos brasileiros.>
Felipe Storch
Economista e professor da FucapeA medida surpreende aqueles que votaram em Bolsonaro em 2018 acreditando em seu discurso liberal, naquela época, mas reforça o perfil construído por ele enquanto parlamentar. Com histórico estatizante, entre 1991 e 2018, quando foi deputado federal, Bolsonaro foi crítico das privatizações do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), entre 1995 e 2002, e chegou até a elogiar, em 1999, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, eleito naquele ano com um discurso nacionalista, ao promover estatizações. >
"É um estelionato eleitoral, comparando com o que ele prometeu na campanha. A visão liberal que ele sustentou está sendo traída e ele retorna ao discurso geiseano (do ex-presidente Ernesto Geisel, defensor do monopólio estatal do petróleo). Eu considero que seja um populismo econômico, ou mesmo político, uma vez que ele passa a decidir pensando no termômetro da eleição e agir preocupado em ter maioria eleitoral, abandonando uma visão de longo prazo, mais sistêmica da economia. Essas atitudes aproximam Bolsonaro de líderes como Nicolás Maduro e Hugo Chávez, que fizeram o mesmo na Venezuela", analisa o cientista político Fernando Pignaton.>
Com o aumento das críticas sobre os atrasos na vacinação contra a Covid-19 e o Brasil ainda atrás de muitos países com menos recursos, além de o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ter largado na frente ao coordenar a vacinação da primeira pessoa no país, Bolsonaro tem vivido, nos últimos meses, uma fragilização de sua popularidade. >
O fim do pagamento dos auxílios emergenciais – que devem voltar, mas com maior restrição –, tem levado o presidente a perder sua base de apoio, que teve um pico durante a concessão do benefício. Dos 37% que avaliavam o governo como bom ou ótimo em dezembro, segundo o Datafolha, esse índice caiu para 31% em janeiro. Por outro lado, quem o classificava como ruim ou péssimo subiu de 32%, em dezembro, para 40% em janeiro.>
Leandro Consentino
Cientista político e professor do InsperUma intervenção na economia mais forte em períodos próximos de uma eleição presidencial fez com que muitos analistas comparassem o gesto de Bolsonaro ao de Dilma Rousseff (PT), em 2013. Naquela época, enquanto era presidente, a petista reduziu o preço da tarifa de energia "na marra", por meio de uma medida provisória que provocou, no médio prazo, aumento na conta de luz.>
Para o economista Felipe Storch, sempre que há tensão na economia, quando as pessoas começam a pagar um pouco mais caro por bens de consumo, há um aumento na tensão política. Assim, muitos líderes, com a necessidade de gerar crescimento econômico para tirar as pessoas da pobreza e aumentar os empregos, apelam para medidas que trazem alívio imediato, mas que podem trazer consequências mais sérias a médio prazo.>
"Estamos há seis anos em recessão, salvo por alguns anos de crescimento muito pequeno. A retomada se faz arrumando a casa, equilibrando as contas. Por outro lado, quando um político adota soluções fáceis para questões complexas e joga a culpa para o mercado, muitas pessoas, insatisfeitas, compram essa ideia e podem, sim, partir para aventuras antidemocráticas. Quando ficam desamparadas, qualquer um pode se tornar um salvador da pátria, ainda mais em um mundo onde a desinformação torna ainda mais fácil enganar as pessoas", alerta.>
Consentino acredita que os brasileiros deixaram de aprender uma lição, em 2014, mas avalia que as dificuldades educacionais do país e uma cultura centralizadora do poder acabam por fazer com que os eleitores acreditem em “salvadores da pátria”.>
"As pessoas ainda acreditam que é possível resolver os problemas com uma canetada, que uma liderança forte é capaz de acabar com tudo. É um pensamento imediatista, não se preocupam com as gerações futuras. É claro que há de se compreender quando esse imediatismo é uma questão de sobrevivência, entre aqueles que vivem em miséria extrema, mas não podemos permitir que uma elite também embarque nessas necessidades emergenciais", aponta.>
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