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Política nacional

Casagrande vira "porta-voz" de governadores no embate com Bolsonaro

Governador do Espírito Santo tem se colocado à frente de pautas nacionais e falado pelos demais governadores sobre temas como a defesa do meio ambiente

Publicado em 22 de Abril de 2021 às 18:18

Ana Clara Morais

Publicado em 

22 abr 2021 às 18:18
Casagrande em reunião com o embaixador dos EUA e demais governadores
Casagrande em reunião com o embaixador dos EUA e demais governadores Crédito: HELIO FILHO
O governador do Espírito SantoRenato Casagrande (PSB), tem aparecido como protagonista no embate entre governadores e o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Mantendo críticas ao mandatário, em alinhamento ao discurso de outros governadores, o chefe do Executivo estadual capixaba tem encabeçado ações que envolvem pautas nacionais, como a defesa do meio ambiente, e assumiu o papel de "porta-voz", se posicionando pelos governadores em eventos do governo federal e em veículos de imprensa.
Nos últimos dias, Casagrande articulou com 24 governadores a entrega ao embaixador dos Estados Unidos, Todd Chapman, de uma carta dos "Governadores pelo Clima", destinada ao presidente norte-americano, Joe Biden, antecipando-se ao governo federal e colocando os governadores na outra ponta do diálogo entre os dois países sobre as pautas ambientais. O encontro virtual entre os líderes ocorreu na véspera da Cúpula do Clima, que reuniu 40 líderes mundiais – entre eles Bolsonaro.
A tensão entre governadores e o presidente tem crescido desde o início da pandemia e Casagrande é um dos que criticam duramente a gestão do governo federal na crise sanitária. Ainda assim, cientistas políticos avaliam que a escolha do socialista como "porta-voz" dos chefes dos Executivos estaduais pode estar ligada à imagem cultivada por Casagrande, de uma liderança moderada que faz críticas "menos agressivas" que outros gestores e não se desgastou no cenário nacional.
"Casagrande é diplomático e moderado, não é alguém que 'apareceu demais' na briga entre os governadores e o presidente, diferentemente de João Doria (PSDB-SP), por exemplo. Sem ter projeção e exposição, Casagrande se torna até mesmo uma opção que atrai menos a ira dos militantes bolsonaristas", analisa o cientista político e professor da Mackenzie Rodrigo Prando.
Além disso, soma para o socialista conquistar a confiança e o apoio dos colegas o fato de que a candidatura de Casagrande à reeleição para o Palácio Anchieta em 2022 é dada como certa. Mesmo com o convite do diretório nacional do partido para que ele seja candidato à Presidência da República, as chances de essa candidatura se concretizar são consideradas remotas por atores e analistas políticos.
"Justamente por ter baixíssimas chances de concorrer que ele se torna um bom porta-voz. Ele não representaria, em tese, uma ameaça às pretensões de diversos governadores por voos nacionais. João Doria, Eduardo Leite (PSDB-RS), Flávio Dino (PCdoB-MA), por exemplo. Renato não representa uma ameaça a esse grupo", pontua o cientista político Humberto Dantas.
Ter Casagrande à frente dessas pautas poupa que os governadores que almejam concorrer à Presidência "queimem a largada" e se desgastem no embate com o presidente faltando mais de um ano para a corrida eleitoral. "Como ele está fora das apostas para concorrer, ele não se desgasta", completa Prando.
Essa não é a primeira vez que o socialista lidera iniciativas que unem os chefes de Executivos estaduais. O cientista político Antônio Lucena ressalta que o governador capixaba também encabeça pautas econômicas, como o consórcio entre governadores do Sul e Sudeste. "É comum que ele assuma posições de destaque mesmo tendo o nome um pouco fora do meio político nacional", assinala.

CAPITAL POLÍTICO

Mesmo sem ter pretensão real de concorrer ao Planalto, colocar-se no centro das discussões de pautas nacionais pode render bons frutos para o governador. Buscando a reeleição em um momento crítico, em meio à pandemia de Covid-19, posicionar-se como um líder no mapa político nacional pode gerar capital político importante para ser usado em "momentos mais oportunos", aponta o cientista político João Gualberto Vasconcellos.
"Ele tem tudo a ganhar com isso. Ele adquire prestígio nacional, a possibilidade de ocupar cargos no futuro, se consolida como um interlocutor partidário e coloca o partido próximo aos atores políticos que se mobilizam para uma candidatura no ano que vem", aponta.
Casagrande já foi senador, deputado federal e vice-governador do Estado, antes de assumir a governadoria. Nome de peso no PSB,  é secretário da Executiva nacional  da sigla e visto como "um homem partidário" no cenário político. Quando se movimenta, pontua João Gualberto, o faz também em nome do partido.
"Mesmo que ele queira se reeleger, jogando o jogo nacional ele consegue aproximar o partido dos grupos que se mobilizam para formar uma candidatura competitiva. Com o capital político, ele pode tentar emplacar um vice, indicar ministros, preencher outros cargos e, principalmente, buscar recursos para o segundo mandato, caso seja reeleito", completa.
Para o presidente estadual da sigla, Alberto Gavini, a exposição é boa, também, para o Estado e para o país. "Para o Estado pode trazer atenção, investimentos. Apesar dos pesares, a gente precisa de equilíbrio e o governador é centro-esquerda, mas é equilibrado, menos agressivo que os próprios governadores que estavam com Bolsonaro na direita", afirma. 

"MILITO NA ÁREA AMBIENTAL HÁ MUITO TEMPO"

Na tarde desta quinta-feira (22), em entrevista para A Gazeta, Casagrande afirmou que a escolha dele como porta-voz neste momento de discussões sobre o clima se baseia, principalmente, na formação técnica dele sobre o tema. O movimento, de acordo com o socialista, está acima de disputas partidárias ou interesses eleitorais.
"A carta é assinada por 24 governadores, alguns mais críticos e outros mais próximos ao governo federal, de todos os partidos. Está acima de disputas partidárias e ideológicas. Fui porta-voz porque sou engenheiro florestal, milito nessa área há muito tempo. Tenho relação com as entidades que nos ajudam a organizar como SOS Mata Atlântica, Centro Brasil para o Clima. Então, já tenho militância política e técnica nesta área", diz.
O governador é engenheiro florestal, graduado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), e teve a pauta ambiental como uma bandeira durante os mandatos no Legislativo. Durante o período em que foi vice-governador, no mandato de Vitor Buaiz (1995-1998), foi secretário estadual de Agricultura.
Com colaboração da repórter Natalia Bourguignon. 

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