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Alianças nacionais entre partidos podem "bagunçar" tabuleiro eleitoral no ES

Faltando mais de um ano para a eleição, PT se aproxima de PSB e diretórios nacionais de PDT, DEM e PSDB se articulam para candidatura única à Presidência da República em 2022

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 19/04/2021 às 02h00
Palácio do Planalto e Palácio Anchieta, sedes dos Poderes Executivos
Palácio do Planalto e Palácio Anchieta, sedes dos Poderes Executivos. Crédito: Montagem

A frente ampla que pode resultar das articulações dos diretórios nacionais de partidos de diferentes matizes – como DEM, PSDB e PDT – pode "bagunçar" o tabuleiro eleitoral e colocar em risco alianças construídas pelas legendas no Espírito Santo. Até o momento, as três siglas se encontram na base do governador Renato Casagrande (PSB), mas faltando mais de um ano para o próximo pleito, fatores como uma aproximação entre diretórios nacionais do PT e do PSB podem colocar o cenário político de harmonia em xeque.

embate travado entre o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e governadores durante o combate à pandemia de Covid-19 e a anulação das condenações do ex-presidente Lula, que o coloca de volta no cenário eleitoral do ano que vem, intensificaram as conversas entre lideranças partidárias de centro e centro-esquerda para tentar construir uma "terceira via", lançando uma candidatura única que reúna siglas que não necessariamente caminham juntas. 

A dificuldade, no entanto, é que em poucos Estados PSDB, DEM e PDT se encontram no mesmo espectro político. No Espírito Santo, as três legendas dialogam bem e apoiam o governo de Casagrande, mas com tantas mudanças à vista a maioria das lideranças partidárias admite que não dá para garantir que o cenário se mantenha até 2022. Dos três, apenas o PDT reafirma sua fidelidade irrestrita ao chefe do Executivo estadual.

"O PDT nacional tem dialogado sobre forças para uma unidade no pleito eleitoral do ano que vem, e nós estamos em sintonia, mas no que tange a eleição do Palácio Anchieta a sigla já se posicionou, nosso candidato é Casagrande e vamos continuar com a aliança", sustenta o secretário da legenda, Weverson Meireles. O direcionamento foi expresso pelo presidente do diretório estadual, Sergio Vidigal, ainda no ano passado.

Já os demistas no Estado procuram manter mais uma posição de independência do que de situação. Deputado estadual e nome de peso da legenda, Theodorico Ferraço vota a favor de pautas do governo, mas não poupa críticas quando acha necessário. Sua esposa, a deputada federal Norma Ayub (DEM), mantém uma postura mais conservadora nas votações do Congresso, acompanhando a linha historicamente à direita do partido, e membros do partido mais alinhados à ala bolsonarista buscam viabilizar uma candidatura de oposição, se possível o ex-senador Ricardo Ferraço, que saiu do PSDB para liderar os democratas no Estado.

O esperado era que com a chegada do ex-senador a sigla se aproximasse de Casagrande, mas as atores políticos confirmam uma movimentação por parte do ex-parlamentar para viabilizar a própria candidatura. Ricardo foi procurado pela reportagem para se manifestar, mas não houve retorno.

"Ferraço pai" nega que exista qualquer articulação no partido visando 2022, mesmo em âmbito nacional. "O partido aqui no Estado está se reestruturando para aumentar o potencial político para futuras eleições. No momento não estamos discutindo valores individuais de candidaturas. Eu não acredito que as forças políticas que têm respeito a vida, respeito ao país coloque em primeiro plano as candidaturas tirando o foco principal que é a Covid-19", afirma.

O presidente nacional da sigla, ACM Neto, no entanto, tem endurecido as críticas ao governo Bolsonaro para se afastar da imagem do mandatário e concorrer como uma "terceira via" contra o governador da Bahia, Rui Costa (PT), conforme informou a Folha de São Paulo.

Também em âmbito nacional, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) assinou uma carta em defesa da democracia no último dia 31, juntamente com outros presidenciáveis, como Ciro Gomes (PDT-CE), João Amoêdo (NOVO-SP), Luciano Huck (sem partido) e João Dória (PSDB-SP) e Eduardo Leite (PSDB-RS).

No Estado, o ninho tucano hesita em se posicionar. O presidente estadual da sigla e deputado estadual Vandinho Leite foi oposição ao governo de Casagrande no início do mandato, mas se aproximou do socialista com o tempo. Durante a campanha para a prefeitura da Serra, em 2020, abraçou a causa bolsonarista posando para fotos com Carlos Manato (sem partido) e a bandeira do Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro tentou criar.

Para alguns analistas do cenário político capixaba, no entanto, tratou-se mais de um apelo à base evangélica do que uma identificação real entre o político e o presidente. Com o fim do pleito, Vandinho voltou a se posicionar de forma mais amigável com o governo Casagrande na Assembleia. A simpatia, no entanto, não significa necessariamente lealdade. Em âmbito nacional e estadual as forças políticas tucanas priorizam a frente ampla e apontam o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), como principal nome.

"O PSDB apoiou Casagrande em 2018, tem prestado apoio ao seu mandato através do posicionamento de seus deputados estaduais, mas isso não significa um alinhamento mecânico automático de uma coisa que vai acontecer lá na frente. Podemos nos qualificar no sentido de ser uma base para um palanque nacional que aponte para uma terceira via", assinala o ex-prefeito de Vila Velha Max Filho. 

Nesse movimento estaria a tentativa de trazer para a sigla os deputados federais Felipe Rigoni (sem partido) e Josias Da Vitória (Cidadania). Rigoni fala abertamente sobre o convite que recebeu do partido, mas pontua que ainda vai discutir com outras siglas antes de se decidir. Já Da Vitória, que é considerado um candidato declarado ao Senado pelos atores políticos, é do Cidadania e não atendeu as ligações para se posicionar sobre o assunto.

ALIANÇA ENTRE PT E PSB PODE SER DECISIVA

O governador Renato Casagrande enfrenta pouca oposição partidária no Estado. Dentre os 30 deputados estaduais, apenas os mais bolsonaristas atuam de forma mais oposicionista. Além das três siglas citadas anteriormente, o chefe do Executivo estadual tem se aproximado cada vez mais de partidos de centro e direita como Republicanos e Podemos.

Os dois partidos formam um grupo político que têm crescido exponencialmente no Estado e cultivado importantes lideranças políticas, como o presidente e o vice-presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos) e Marcelo Santos (Podemos), o prefeito da Capital, Lorenzo Pazolini (Republicanos) e outros onze prefeitos capixabas – 10 republicanos e dois do Podemos.

As boas relações, no entanto, correm risco quando é considerada a possibilidade de que PT e PSB se unam em âmbito nacional, levando Casagrande a dividir palanque com o ex-presidente Lula. Ao ter de volta seus direitos políticos, Lula faz o partido ganhar fôlego para negociar alianças

Nesse caso, dificilmente Republicanos e Podemos continuariam ao lado do socialista na disputa, conforme admite um dos membros influentes do partido no Estado. "Se efetivar (a aliança entre PT e PSB) iria nos afastar muito. O Republicanos se movimenta como um partido de centro-direita. Estaria no palanque nacional de um candidato de centro ou de direita. Não sei se teríamos essa liberdade de continuar com a aliança aqui e te garanto que o DEM também não", aponta.

Historicamente, o DEM é um partido mais à direita, com um posicionamento conservador. Membros do partido no Estado têm feito críticas ao governo de Casagrande e defendido uma candidatura própria do partido ao governo. A junção do PT e PSB, portanto, poderia afastar a sigla do palanque do socialista, uma vez que, nacionalmente, o partido se movimenta por uma terceira via.

SEPARADOS DESDE 2010

PT e PSB andam separados no Estado desde 2010, quando faziam parte de um mesmo bloco que reunia outras forças de centro-esquerda como PDT e MDB. Após o rompimento entre Paulo Hartung e Renato Casagrande, no entanto, houve um racha que separou o caminho das siglas. 

"Nas últimas duas eleições para o governo o PT precisou lançar candidatura própria para dar espaço e palanque para a então candidata, presidenta Dilma, nosso projeto não cabia nos outros palanques. O direcionamento de Lula é o exercício de entender que esse momento é diferente de todos aqueles que a gente viveu, a gente tem um governo federal que, na nossa visão política, sabota governadores, prefeitos, e sabotou o combate à pandemia. Aqui vai ser: o que nós, lideranças políticas, vamos fazer para vencer esse momento que está sendo difícil para todo mundo?", assinala Jackeline Rocha, presidente do PT no Estado.

A legenda tem nomes para concorrer ao Congresso e busca atrair lideranças estratégicas, como o senador Fabiano Contarato (Rede), para dar peso às negociações. O senador já deixou em aberto a possibilidade de concorrer ao governo "se for necessário" para que o Estado tenha uma "opção progressista". 

Jackeline ainda não descarta um candidato próprio petista, mas sinaliza a possibilidade de "juntar projetos" com Casagrande. "Dentro do nosso programa, podemos apresentar para diferentes campos políticos, apresentar para o atual governador, ou mesmo tentar construir com outras legendas que tenham a visão próxima do que a gente acredita que seja o caminho", afirma.

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