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Um Casagrande, dois mandatos: o governador e as mudanças na maneira de governar

Atos da primeira gestão de Renato Casagrande, de 2011 a 2014, e da gestão atual demonstram alterações na estratégia e na forma de agir à frente do governo do Estado

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 28/02/2021 às 02h01
Renato Casagrande em 2011 e em 2019: governador mudou posturas na gestão estadual
Renato Casagrande em 2011 e em 2019: governador mudou posturas na gestão estadual nos dois mandatos. Crédito: Divulgação/Secom

Após amargar uma derrota em 2014, quando não conseguiu se reeleger, o governador Renato Casagrande (PSB) voltou a comandar o Palácio Anchieta em 2019. E não foi só o ano no calendário que mudou. O socialista deu uma repaginada nas estratégias e na forma de governar, ainda que tenha perdido a reeleição, mesmo com bom índice de aprovação na época.

Tentando imprimir um ritmo de entregas maior do que adotado no mandato passado, que foi de 2011 a 2014, mais atento a reforçar a imagem de responsabilidade fiscal, mas dando menos ênfase a uma de suas marcas, o programa Estado Presente, Casagrande dá sinais de que desta vez tenta capitalizar melhor os resultados de seu governo, para provar aos capixabas o que essa gestão realmente traz de "novo", principalmente em comparação consigo mesmo.

No primeiro governo, Casagrande ficou lembrado por lançar uma quantidade considerável de projetos milionários, ambiciosos e complexos para a área de mobilidade urbana na Grande Vitória. Entre eles, o BRT – corredor exclusivo de ônibus –, a Quarta Ponte – que ligaria Vitória a Cariacica –, o Portal do Príncipe e o Aquaviário. Nenhum deles chegou a sair do papel.

Ao encerrar o governo em 2014, afirmou que deixava os projetos das obras do BRT, da Quarta Ponte e do Aquaviário prontos, com licenças ambientais e recursos para todas elas em caixa. No entanto, no governo seguinte, Paulo Hartung (então no MDB) engavetou todos eles, por avaliar que não havia possibilidade de executar.  

Casagrande foi criticado, inclusive, como "governo de Power Point", devido às várias apresentações com projeções dos projetos para tais obras, com o então secretário de Transportes e Obras Públicas, Fábio Damasceno, mas que depois acabaram não se concretizando.

O secretário de Obras e Transportes, Fábio Damasceno, junto com o governador Renato Casagrande, em seu segundo mandato
O secretário de Obras e Transportes, Fábio Damasceno, junto com o governador Renato Casagrande, em seu segundo mandato. Crédito: Divulgação/Hélio Filho/SECOM

Quatro anos depois, ao retornar ao governo, foi a vez de Casagrande acusar Hartung de ter deixado um número expressivo de obras inacabadas: entre elas, a Leitão da Silva, as rodovias Leste Oeste e José Sette e o Terminal de Itaparica. Para a pasta, escalou o mesmo Fábio Damasceno, apesar das críticas anteriores.  

Com dois anos do segundo governo, o que se vê são alguns daqueles grandes projetos sendo destravados. Enquanto a Quarta Ponte e o BRT parecem de fato engavetados, houve a assinatura da ordem de serviço para a ampliação da Terceira Ponte, que já deve ter as obras iniciadas nos próximos meses. O Portal do Príncipe já teve uma fase inaugurada, e tem a promessa de ficar pronto ainda em 2021.

Outra via que será revitalizada é a ES 010, na Serra, que terá um trecho duplicado. O Aquaviário, promessa que já atravessou a década, também teve edital publicado neste ano. Além disso, o governador tem mantido um ritmo acelerado de entregas no interior do Estado.  

De acordo com fontes palacianas, nesta segunda metade do mandato o objetivo é realmente entregar muitas obras, principalmente as da Grande Vitória, ou pelo menos deixá-las encaminhadas, para que não sejam somente "anúncios". "Além disso, o ano terá tudo para ser o ano com investimento recorde no interior", disse um auxiliar do governador.

Governador e autoridades visitam obras da Avenida Leitão da Silva, em Vitória, em 2019
Governador e autoridades visitam obras da Avenida Leitão da Silva, em Vitória, em 2019. Crédito: Divulgação/Waldson Menezes/DER Ademir Ribeiro/Secom

Outra aposta é no Plano Espírito Santo, que prevê R$ 32 bilhões em investimentos, lançado no final do ano passado, com medidas para injetar ânimo na economia incluindo linhas de crédito, programas de incentivo à tecnologia e inovação, redução da burocracia e obras de infraestrutura.

FÔLEGO NAS OBRAS

Pós-doutor em Ciência Política, Antônio Carlos de Medeiros avalia que Casagrande precisa demonstrar ousadia e pulso nesta agenda de obras e, ao mesmo tempo, que não colocou em risco a continuidade de projetos importantes para o Estado.

"No primeiro governo, a circunstância econômica e política também era diferente. O Brasil não estava nessa trajetória de recessão, o que permitiu a ele fazer um programa de obras. O que começou a complicá-lo foram as manifestações de 2013, que foram um divisor de águas. Naquele ano, também houve as grandes enchentes de dezembro. Ele ainda tinha um ano e meio para trabalhar, mas, daí para a frente, o quadro se modificou", pontua. 

O cientista político João Gualberto Vasconcellos pondera que no primeiro mandato, em geral, os políticos esperam se reeleger, e trazem promessas não para quatro, mas para oito anos. "Talvez ele tenha se excedido nessas promessas, que a realidade dissolveu, e agora pode estar mais precavido sobre o que pode anunciar. E para as obras longas, tem tomado o cuidado de mostrar que não vai esperar o cenário perfeito e já está dando um pontapé", analisa.

Presidente do PSB e aliado do governador, Alberto Gavini considera que Casagrande manteve o seu perfil de governabilidade nos dois mandatos, mas trouxe um amadurecimento do período em que ficou na planície – sem mandato. "Ele motiva a equipe e faz manter o ritmo. Naquele primeiro mandato, aprendeu e viu como a burocracia pública enterra muitas coisas, mesmo quando se tem muita vontade de fazer. Aprendeu que projetos tem que ter uma boa sistematização, e isso agiliza a concretizar ideias."

CRITÉRIOS

A conjuntura política local nos dois mandatos também é uma questão relevante na comparação entre a primeira e a segunda temporada do governador do PSB. Eleito no primeiro mandato com o apoio de Hartung, Casagrande manteve muitos dos quadros do ex-governador no primeiro escalão.

O compartilhamento do governo com emissários de seu antecessor na equipe não foi benéfico para o socialista, que precisou descolar a imagem de governo de continuidade e criar uma marca própria. Isso também o prejudicou em 2014, no momento da ruptura com Hartung, em que alguns desses nomes se voltaram contra ele.

Casagrande durante a inauguração da Avenida Fernando Ferrari, em Vitória, em seu primeiro mandato
Casagrande durante a inauguração da Avenida Fernando Ferrari, em Vitória, em 2013, em seu primeiro mandato. Crédito: Divulgação/Secom

No segundo mandato, a base de apoio partidária de Casagrande se manteve ampla, mas ele utilizou outros critérios para ocupar os postos-chave.

"O governo começou com uma cara de continuidade, mas houve a ruptura política. Essa aliança desconstruída acabou o marcando muito. Depois, houve o enfrentamento. O segundo mandato vem com uma característica diferente. Ele montou sua estratégia eleitoral desvinculada de Hartung. Montou um governo a partir dele mesmo, do PSB. Construiu o mandato com mais autonomia, focado em seu grupo político", comenta João Gualberto.

Um dos aspectos do enfrentamento com Hartung que também fez Casagrande mudar de postura foi a temática da responsabilidade fiscal, que foi colocada em xeque pelo adversário nas eleições de 2014. 

Mesmo o Estado tendo obtido em 2012, no governo do socialista, pela primeira vez a nota A da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) quanto à capacidade de pagamento – a qual se mantém até hoje –,  ele foi atacado sobre sua gestão das contas públicas, e correu o risco de ter as contas desaprovadas pela Assembleia Legislativa em 2014, em um movimento político, mesmo com parecer favorável do Tribunal de Contas do Estado (TCES).

Depois disso, o assunto foi incorporado de vez em seu discurso, desde a campanha eleitoral de 2018, e se mantém muito forte até hoje. 

"Chama a atenção a forma como ele lidou com o orçamento na mudança de governo. Foi muito mais cuidadoso na questão de gestão fiscal e fez questão de divulgar muito isso. Também promoveu uma série de cortes logo que assumiu. Essa experiência da derrota, com as críticas por parte do Paulo, fez com que ele ficasse mais atento", afirma Antônio Carlos Medeiros.

CIRCUNSTÂNCIAS BOAS E RUINS

Renato Casagrande também foi afetado nesta segunda gestão por dois importantes fatores que foram alheios à sua escolha, mas trouxeram muitas consequências para a administração, inclusive para entregas, obras e equilíbrio fiscal. Primeiramente, após cerca de cinco anos de negociações, ele conseguiu colher os frutos do acordo de unificação do Parque das Baleias, firmado em abril de 2019 entre o Estado, a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP). 

Isso fez com que, somente naquele ano, a arrecadação do governo do Espírito Santo com o dinheiro do petróleo crescesse quase 40%. Também trouxe mais recursos para possibilitar ao governo a criação do Fundo Soberano e do Fundo de Infraestrutura.

No entanto, em 2020 Casagrande foi surpreendido pela pandemia da Covid-19, que conforme aliados, exigiu toda uma reorganização de planos e metas, desafiou sua capacidade de gerir uma crise, mas lhe deu a oportunidade de ser testado e agir. 

Secretário de Estado e aliado do governador há décadas, Paulo Foletto (PSB) considera que, sem perspectiva de quando se verá livre da pandemia, a gestão de Renato Casagrande mantém o foco no enfrentamento direto ao novo coronavírus, ao mesmo tempo em que planeja a recomposição do ambiente econômico.

"Após a vacinação iniciada em 2021, o Espírito Santo ainda terá que lidar com antigos desafios, como os gargalos logísticos e o efeito cascata da crise sanitária, entre eles o problema da queda na arrecadação e a maior demanda por serviços públicos, devido ao empobrecimento da população. Tivemos que tomar decisões que não agradaram, mas que hoje se mostram acertadas. O governador está se destacando na gestão da pandemia da Covid-19", opina.

SEGURANÇA PÚBLICA

Analistas identificam que outra mudança de postura entre o primeiro e o segundo governo Casagrande ocorreu no campo da Segurança Pública. Enquanto na primeira gestão um de seus carros chefes foi o programa "Estado Presente", que possibilitou a redução de homicídios e virou exemplo para o país, no segundo mandato essa política foi retomada, mas com o passar do tempo, o governador passou a colocar o tema de forma menos incisiva.

Casagrande assumiu em 2019 ainda sob alguns efeitos da greve da PM, de 2017, inicialmente com uma postura mais pró-corporativista. Naquele momento, a proposta de que "as forças de segurança passam a atuar novamente de forma integrada, sob a coordenação direta do governador".

Em meio a toda essa tensão, nesse segundo mandato se estabeleceu uma relação diferente com as forças policiais, pois além da greve, a existência do bolsonarismo passou a exercer mais pressão em relação ao governo.

Nos dois primeiros anos do governo também houve a aprovação de projetos importantes envolvendo a categoria: primeiro, a anistia para os punidos na greve; depois, as normas sobre as promoções dos militares e ainda o Código de Ética para militares.

Mas os resultados ainda não são para comemorar. No ano passado, o crescimento dos assassinatos no primeiro trimestre provocou a mudança da cúpula da Segurança Pública estadual e 2020 se encerrou com 1.101 homicídios, número que representa uma alta de 11,55% em relação a 2019. Isso faz com que os números de 2021 venham em cima de um parâmetro já considerado elevado.

O professor da Ufes e especialista em Políticas Públicas Roberto Simões observa que agora, com índices da Segurança Pública não tão positivos, o governador tem dado menos destaque às ações dessa área.

"A grande bandeira do primeiro mandato agora está em questão, que é o crescimento da insegurança pública. Não temos visto com tanta ênfase o programa Estado Presente, que antes era a tônica geral. Os homicídios estão voltando a crescer, o nível de feminicídio é muito alto, pode estar ocorrendo uma intensificação do tráfico de drogas. Em meio a essa pandemia, o desafio da segurança pública voltou a ser um dos principais calos para o governador", avalia.

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