ASSINE

Suspeito de embolsar salários de fantasmas da Santa Casa reformou sítio no ES

Ex-gerente desviou dinheiro em espécie, deu gratificações a colegas de setor no hospital e contratou funcionários fantasmas entre janeiro de 2019 e setembro de 2020, segundo a polícia. Ele foi preso e um suspeito ainda está foragido

Vitória
Publicado em 27/09/2021 às 13h56
Santa Casa de Misericórdia de Vitória: instituição foi fundada em 1545, por Vasco Fernandes Coutinho
Santa Casa de Misericórdia de Vitória: instituição foi fundada em 1545. Crédito: Reprodução/Facebook

A partir do esquema que desviou cerca de R$ 1 milhão dos cofres da hospital filantrópico da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, um ex-gerente da instituição gastou mais de R$ 90 mil em materiais de construção para a reforma de um sítio de alto padrão, segundo a Polícia Civil. O imóvel fica em Marechal Floriano, onde o suspeito foi preso.

O sítio contava, segundo o delegado Janderson Lube, da Diretoria Estadual de Combate à Corrupção (Decor), com piscina, área de churrasco, área verde e uma casa com três quartos, um bem considerado incompatível com a renda mensal do ex-gerente na Santa Casa, que variava entre R$ 3 mil e R$ 5 mil.

De acordo com as investigações, a soma dos salários dos funcionários fantasmas e gratificações variava entre R$ 25 mil e R$ 80 mil por mês. A maior parte ficaria com Jasiel Souza Câmara, apontado como líder do esquema. Ele era gerente de RH da Santa Casa. Segundo a polícia, existiam dois tipos de fraudes. 

Na primeira, empregados da instituição recebiam gratificações sem trabalhar a mais por isso. Os benefícios iam desde insalubridade a horas extras não realizadas. Foram seis funcionários que estavam envolvidos no esquema, em sua maioria, colegas do mesmo setor do gerente de RH. Eles são investigados e ainda serão ouvidos pela Polícia Civil.

"Esses funcionários repassavam entre 80% a 90% do que recebiam dessa gratificação para o ex-gerente, que liderava o esquema. A outra parte do dinheiro ficava com eles. Essa fraude começou em setembro de 2019 e durou até setembro de 2020, quando a direção da Santa Casa identificou a irregularidade e demitiu o ex-gerente. Parte desses funcionários, que receberam indevidamente as gratificações, foi demitida também, mas uma parte ainda atua na instituição", revelou o delegado.

Janderson Lube

Delegado da Decor

"Identificamos que em um material de construção de Marechal Floriano, o ex-gerente consumiu cerca de R$ 90 mil em produtos que foram utilizados em uma reforma no sítio que ele tinha no distrito de Soído de Baixo. Era um imóvel de alto padrão"

COMPARSA QUE ARRANJOU LARANJAS ESTÁ FORAGIDO

Com a pandemia de Covid-19, a partir de março de 2020, o então gerente de RH teria dado início a um novo esquema. Aproveitando que parte dos funcionários atuava de forma remota, o que dificulta o controle dos diretores para saber quem está trabalhando ou não, foram contratados sete pessoas que nunca prestaram serviços para a Santa Casa.

Um construtor de Marechal Floriano foi o responsável por encontrar os sete laranjas dispostos a fazer parte do esquema. Ele selecionava pessoas interessadas a serem "contratadas", que ficavam com uma renda que representava de 10% a 20% dos salários, enquanto repassava o restante para os mentores do esquema.

Na sexta-feira, quando foi deflagrada a Operação RH, a Polícia Civil esteve na casa desse suspeito mas não o encontrou. Ele tem mandado de prisão temporária e é acusado de estelionato e falsificação ideológica. Ele ainda está foragido.

Delegado Janderson Lube (à esquerda), da Diretoria Estadual de Combate à Corrupção, e delegado João Calmon (à direita), da Superintendência de Inteligência e Ações Estratégicas da PC
Delegado Janderson Lube (à esquerda), da Diretoria Estadual de Combate à Corrupção, e delegado João Calmon (à direita), da Superintendência de Inteligência e Ações Estratégicas da PC. Crédito: Rafael Silva

"Por conta do trabalho remoto, esse gerente conseguiu incluir no sistema de custos da Santa Casa essas sete pessoas que recebiam salários altos, entre R$ 19 mil e R$ 25 mil. Parte desses valores ficava com o líder do esquema e um percentual ficava com essas pessoas. Foram criadas contas bancárias para estes fantasmas. Parte destes recursos nós pedimos o bloqueio  judicial das contas para conseguir recuperá-los para a instituição", disse Janderson.

ACUSADO DESVIOU R$ 673 MIL EM DINHEIRO EM ESPÉCIE DA SANTA CASA

Além das nomeações de fantasmas e distribuição de gratificações a colegas de setor, o ex-gerente também teria desviado R$ 673 mil em dinheiro em espécie do caixa da Santa Casa. De acordo com o delegado, o funcionário ocupava cargo de confiança na instituição e trabalhava desde 2015 nos Recursos Humanos da irmandade. Por conta disso, ele tinha acesso ao dinheiro que era recebido pela instituição.

"Essa foi a primeira irregularidade que nós identificamos, que começou em janeiro de 2019. Só deste desvio, foram subtraídos R$ 673 mil. O ex-gerente responderá pelos crimes de estelionato e falsidade ideológica. Ele foi preso na sexta-feira, após uma longa investigação, em que buscamos rastrear para onde esse dinheiro ia e de onde ele vinha. O esquema foi descoberto pela própria instituição, em setembro de 2020, que o demitiu e denunciou o caso à Polícia Civil. Ele era funcionário desde 2015 e já tinha atuado em outros hospitais, como o Jayme dos Santos Neves e o Hospital Evangélico. Por enquanto, não há indícios de irregularidades nesses outros locais", conta o delegado.

De acordo com Janderson Lube, não há, por enquanto, indícios do uso direto de verbas públicas - que a Santa Casa de Misericórdia de Vitória recebe para o atendimento ao SUS -, pelo esquema desenvolvido pelo ex-gerente. A irmandade é uma das instituições mais antigas do Espírito Santo, fundada em 1545, pelo então donatário da capitania capixaba, Vasco Fernandes Coutinho.

Jasiel Câmara, ex-gerente de RH da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, preso pela Polícia por suspeita de estelionato e falsidade ideológica
Jasiel Câmara, ex-gerente de RH da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, preso pela Polícia por suspeita de estelionato e falsidade ideológica. Crédito: Reprodução/Youtube

O QUE DIZ A DEFESA DE JASIEL

O advogado de Jasiel Souza Câmara no caso, Daniel Alves, disse que o ex-gerente prestou depoimento na sexta-feira (24), quando foi preso e que a defesa vai mostrar durante o decorrer do processo que os fatos não são como o que foram divulgados pela Polícia Civil.

"O que podemos dizer, é que ele prestou um depoimento importante e esclarecedor para a Polícia Civil na sexta-feira. Não posso passar mais detalhes porque a investigação ainda está sob segredo de Justiça", afirmou.

A Gazeta integra o

Saiba mais
Corrupção Polícia Civil Vitória (ES) Santa Casa de Vitória

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.