Criminosos aproveitam facilidade do Pix para cometer roubosCrédito: Shutterstock
O sistema de pagamentos instantâneos via Pix, do Banco Central, facilitou a vida dos brasileiros, mas à medida que se tornou popular, criminosos passaram a se aproveitar dessa facilidade para realizarem sequestros-relâmpagos e, com as vítimas dentro do carro, as obrigam a realizarem transferências bancárias. Somente no Espírito Santo, pelo menos nove casos foram registrados nos últimos dois meses na Grande Vitória. Na maioria das situações, o alvo dos bandidos são mulheres.
Os nove casos ocorreram no período de 18 de outubro até o dia 13 de dezembro,conforme levantamento de A Gazeta, mas a quantidade de crimes como esse pode ser maior, considerando que a reportagem utilizou informações somente das situações noticiadas pela imprensa. Procurada, a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) informou que não possui dados específicos sobre sequestros em que as vítimas foram obrigadas a fazer essas transferências via Pix para os criminosos, mas passou dados de roubos envolvendo sequestros.
Roubos envolvendo sequestro no ES, segundo a Sesp
- 2021 (janeiro a dezembro): 162
- 2022 (janeiro a novembro): 154
* Consiste na rendição da vítima por parte do infrator, cerceando a sua liberdade até que o seu objetivo seja alcançado, neste caso, o roubo, podendo ser do veículo, dinheiro, pertences, etc. Após a conclusão desse crime, a vítima é liberada.
Cinco, entre os nove casos noticiados recentemente, foram registrados em Jardim da Penha, Vitória, e, em todos eles, as vítimas são mulheres. O modo de agir dos criminosos é parecido em todas as situações: quatro bandidos participaram do crime, as vítimas são abordadas dentro ou próximo ao veículo delas, são ordenadas a rodarem com os suspeitos dentro do carro e, no trajeto, obrigadas a realizarem transferências via Pix. Há situações em que o automóvel da vítima é roubado.
No total, a mulher transferiu R$ 3 mil para três pessoas diferentes. Segundo reportagem da TV Gazeta, o criminoso ficou cerca de 20 minutos com a vítima e teria dito que se ela não estivesse grávida seria pior. Ela ainda disse que ele a ameaçava o tempo todo, mas não chegou a agredi-la. O homem mandou que a vítima o deixasse na rua Hugo Viola, ainda em Jardim da Penha, perto da Ponte da Passagem, e fugiu.
Após isso, eles levaram ele até uma casa, onde ele ficou por cerca de 36 horas, sem água e sem comida. Nesse período, os criminosos obrigaram ele a fazer transferências via Pix e a sacar dinheiro. Após um dia e meio à mercê dos criminosos, eles o levaram até o bairro Jardim Limoeiro, onde foi abandonado.
A vítima atua como executivo na diretoria do empreendimento da família. Ele foi localizado no dia seguinte em um cativeiro, em Viana. Uma pessoa foi presa. Além disso, foram apreendidos um carro usado no crime, uma arma falsa, uma faca e uma garrucha.
De acordo com o delegado Maurício Gonçalves, da Delegacia Especializada de Antissequestro (DAS), a vítima saiu de casa e foi praticar exercícios físicos. Em seguida, retornaria para casa, onde a esposa o aguardava.
"Quando ele se dirige ao veículo dele que está no estacionamento, é abordado e rendido através de arma de fogo na traseira do veículo. Eles saem e vão na direção da Praia de Camburi", revelou o delegado. De lá, seguiram para a Rodovia das Paneleiras.
Já dentro do veículo, o empresário foi ameaçado. No banco de trás, os criminosos mandaram ele fazer transferências bancárias. A polícia não quis revelar o valor exigido pelos sequestradores e nem as transferências realizadas pela vítima.
De acordo com o boletim de ocorrência da Polícia Militar, a mulher contou que um veículo branco com quatro criminosos fechou o carro dela e a rendeu. Em seguida, três homens entraram no veículo da mulher e passaram a fazer tortura psicológica, como ameaças de morte. Ela disse que foi obrigada pelos suspeitos a desbloquear o celular e fazer transações bancárias via Pix. Ela foi abandonada, sem ferimentos, ainda durante a noite, no bairro Jardim Limoeiro, mesmo município.
O homem ainda foi obrigado a fazer transações bancárias via Pix para contas indicadas, além de transferência por meio de máquina de cartão de crédito. Os suspeitos fugiram sem machucar a vítima e, até a última atualização desta reportagem, ninguém havia sido detido.
"Essas abordagens, pelo que a gente percebe quando faz a análise das imagens e encontra as vítimas, normalmente acontecem em momentos de maior vulnerabilidade do condutor: quando vai estacionar ou sair com o carro, quando vai abrir ou fechar o portão", disse o delegado.
Por isso, é importante redobrar a atenção nesses momentos: os criminosos costumam escolher as vítimas mais distraídas. "O ideal é tentar fazer essas transições para a garagem e para o carro o mais rápido possível. Se a vítima redobra a atenção e tenta aumentar as condições de segurança, a probabilidade de acontecer é menor", pontuou.
Em casos em que as táticas de prevenção não foram suficientes e a pessoa acabou abordada por criminosos, sendo obrigada a fazer transferências bancárias, a recomendação é não reagir, e assim evitar uma ação mais violenta do suspeito.
No entanto, para o prejuízo em relação às transferências via Pix ser menor, a principal ferramenta está na manutenção do limite máximo diário que o próprio usuário pode deixar configurado.