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Alta da Selic: o que muda em investimentos, empréstimos e na economia

Copom anunciou nesta quarta (17) o primeiro aumento dos juros em quase seis anos. Reflexos vão desde a elevação das taxas nos bancos, como as do financiamento imobiliário, até a rentabilidade de aplicações como a poupança

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 17/03/2021 às 20h30
Atualizado em 17/03/2021 às 20h30
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Copom elevou taxa básica de juros da economia para 2,75% ao ano. Crédito: Pexels

Em um movimento já antecipado pelo mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil reajustou nesta quarta-feira (17) a taxa Selic, que passou para 2,75% ao ano. É o primeiro aumento desde 2015, quando a taxa chegou a alcançar 14,25%. Desde então vinha sofrendo cortes sucessivos até alcançar a mínima histórica de 2% ao ano há sete meses.

A Selic é a taxa de juros básica do Brasil, ou seja, é a usada para o pagamento da dívida pública pelo governo. Ela também é usada como ferramenta para controlar a inflação, que vem em alta no país diante da escalada do dólar e os impactos nos preços de combustíveis e alimentos.

A taxa básica também influencia as demais taxas de juros dos bancos, como as aplicadas em empréstimos, financiamentos imobiliários e cartões de crédito, além de alterar a rentabilidade de algumas aplicações financeiras como a poupança e outros investimentos mais conservadores, chamados de renda fixa.

Entenda os impactos da alta da Selic na economia:

CONSUMO

A Selic é usada pelo Banco Central como ferramenta de controle da inflação. Em linhas gerais, quando a inflação está baixa, os juros caem para estimular o consumo. Quando está alta, os juros servem para reduzir o consumo e forçar uma queda nos preços.

Com a alta da taxa, os juros de crédito, parcelamento e cheque especial ficam mais altos, o que faz com que as famílias comprem ainda menos.

O consumo no país, aliás, já anda em baixa. Com o recrudescimento da pandemia, o fim do auxílio emergencial e o aumento do preço de produtos diversos, as vendas no varejo no país, por exemplo, registraram queda de 0,2% em janeiro, na comparação com dezembro. No Espírito Santo, queda foi de 2,4 %, segundo dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE.

Uma nova rodada do auxílio deve começar a ser paga até abril, mas atenderá um público menor e terá parcelas com valores mais baixos, de modo que não será capaz de mitigar todos os efeitos da elevação da taxa de juros.

FINANCIAMENTO IMOBILIÁRIO

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Setor imobiliário teve um "boom" com Selic a 2%. Crédito: Pexels

Os financiamentos imobiliários são uma das linhas de crédito mais rapidamente afetadas pela alta da Selic. Apesar da pandemia, o setor teve crescimento no ano passado, motivado justamente pela queda das taxas de juros e pelo maior incentivo para a aquisição de imóveis para moradia ou investimentos.

Os financiamentos imobiliários com recursos das cadernetas de poupança atingiram R$ 123,97 bilhões no ano passado, alta de 57,5% em relação a 2019, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Acebip). Não obstante, no Espírito Santo, a construção civil foi o setor que mais gerou empregos em 2020 diante do boom de lançamentos imobiliários.

A alta dos juros torna o crédito mais caro e dificulta o acesso aos financiamentos, o que tende reduzir a demanda e desacelerar as atividades do setor imobiliário, principalmente no médio prazo, uma vez que são esperados novos reajustes da Selic.

CRÉDITO PARA EMPRESAS

O aumento dos custos de financiamento também tem impacto negativo sobre as empresas, uma vez que, com a Selic mais alta, os bancos reajustam taxas em geral e o crédito fica mais caro. A mudança tende a dificultar a vida dos empresários que, em meio à crise, muitas vezes recorrem a financiamentos para salvar seus negócios.

Para se ter ideia, em meio à pandemia do novo coronavírus, a procura por microcrédito, por exemplo, quase dobrou no último ano. Em 2020, 13.460 empreendedores do Espírito Santo tiveram acesso aos recursos, enquanto que, em 2019, foram 7.246 atendimentos. Os empresários tiveram liberados um total de R$ 109,4 milhões no ano passado, segundo dados da Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes).

A Selic a 2,75% não deve representar um prejuízo tão grande, se comparada a anos anteriores, mas o cenário tende a piorar na medida em que novos reajustes forem aplicados pelo Copom ao longo do ano. As empresas, afinal, já enfrentam dificuldades em função da pandemia, que tem se agravado em todo país desde janeiro, levando ao colapso do sistema de saúde e ao aumento das restrições.

DÍVIDA PÚBLICA

Atualmente, a dívida da União já ultrapassa os R$ 5 trilhões, segundo o Tesouro Nacional, sendo que, deste total, R$ 761 bilhões foram contraídos no ano passado - o maior montante anual da série histórica, que começou em 2004. O país já deve uma soma equivalente a quase 90% de seu Produto Interno Bruto (PIB).

Como agravante, boa parte da dívida pública -- que é emitida pelo Tesouro para pagar despesas que ficam acima da arrecadação com impostos e tributos - é indexada à Selic.

Assim, com a alta da taxa, é mais difícil que o governo central se financie e pouco resta para despesas não obrigatórias, como investimentos em infraestrutura, que influenciam na qualidade de vida e na atração de investimentos.

RENTABILIDADE DE INVESTIMENTOS

Poupança

A alta da Selic não significa que guardar dinheiro na poupança já vale a pena. Quando a taxa é maior ou igual a 8,5% ao ano, a poupança tem rendimento de 0,5% ao mês mais a TR (taxa referencial). Quando a Selic está abaixo de 8,5% ao ano, a poupança rende o equivalente a 70% da taxa.

Ou seja, o rendimento que estava em 1,4% ao ano com a Selic em 2%, passou a cerca de 1,92% ao ano com a elevação dos juros. E mesmo que a Selic chegasse, eventualmente, a 5%, o rendimento - que, nesse caso, seria de 3,5% ao ano - , ainda ficaria abaixo da inflação projetada para 2021, que é de 4,6% segundo o Boletim Focus.

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Investimentos em renda fixa passam a ter rendimentos maiores. Crédito: Pexels

Outras opções de renda fixa

Com o aumento da Selic, os títulos da dívida pública (Tesouro Direto), que são mais seguros, devem apresentar uma rentabilidade maior que a atual. O mesmo ocorre com os rendimentos da categoria renda fixa e pós-fixadas, que acompanham as taxas de juros.

Conforme mostrou A Gazeta, corretoras passaram a oferecer opções de títulos de renda fixa pós-fixados que pagam até 165% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que é um título que serve como lastro de empréstimos entre os bancos, hoje fixado em 1,9%. Quando a Selic sobe, essa taxa também tem alta e vice-versa.

A elevação da Selic nesta quarta (17) ainda não tem impacto tão grande sobre outros rendimentos, mas na medida em que novos aumentos forem implementados, os investimentos vão se tornando mais vantajosos.

É o caso, por exemplo, do CDB (Certificado de Depósito Bancário), que é um título emitido pelos bancos para captar recursos de investidores e emprestar a pessoas ou empresas, com juros mais altos.

Outro exemplo é a Letra de Câmbio, um título de renda fixa da mesma família do CDB e das LCIs/LCAs (Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio). Contudo, em vez de ser um título emitido por bancos, é utilizado por financeiras para captar recursos no mercado e emprestar aos clientes e frequentemente paga mais que os CDBs.

Renda variável

No ano passado, a redução da Selic à mínima histórica de 2% causou uma migração de investidores para a Bolsa de Valores em busca de investimentos em renda variável, que embora sejam mais arriscados, também são mais rentáveis. Apesar da elevação da Selic, a avaliação de especialistas é que o patamar atual é insuficiente para reverter esse movimento.

Por outro lado, o controle da inflação torna o cenário mais equilibrado, o que deve tornar vida do investidor um pouco mais tranquila no curto prazo após as crises envolvendo a intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras e a anulação das condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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