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Crise da Petrobras e endividamento devem afetar de renda fixa a empréstimos

Medidas intervencionistas do governo, em meio a um cenário econômico já fragilizado, impactam também outros indicadores, como os juros e a inflação, que tendem a pesar no bolso da população

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 24/02/2021 às 02h01
Atualizado em 24/02/2021 às 10h27
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
Petrobras em Vitória: interferência de Bolsonaro provocou crise na estatal provocou onda de incertezas. Crédito: Vitor Jubini

A elevação do risco-país, evidenciada pela crise que veio à tona com as medidas intervencionistas na Petrobras e com ameaças de que o mesmo ocorra no setor de energia elétrica, abalaram o mercado neste início de semana e podem ter reflexo também no bolso do consumidor no decorrer do tempo.

Na noite de sexta-feira (19), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) decidiu indicar como presidente da Petrobras o general da reserva Joaquim Silva e Luna. A decisão ainda depende de uma confirmação do conselho da empresa, mas a turbulência foi precificada rapidamente pelo mercado. Na segunda (22), ações da companhia derreteram, com perdas superiores a 20%.

Parte do prejuízo foi minimizado nesta terça (23), quando algumas ações chegaram a recuperar cerca de 12% das baixas, mas o estrago já foi feito, vez que há receio de interferência do governo sobre o comando de outras estatais. A possibilidade já havia sido exposta pelo próprio presidente, que, em discurso a apoiadores no sábado (20), insinuou que decisões semelhantes estariam por vir, citando o setor elétrico especificamente.

A atitude certamente abala a relação com o mercado, afastando potenciais investidores, mas o movimento também pode contribuir para novas flutuações do câmbio, aumento da inflação, elevação das taxas de juros e o consequente encarecimento do crédito no país.

Agravando a situação, o governo prevê ainda uma nova extensão do auxílio emergencial, custeada não pelo aumento de receitas ou pelo corte de gastos supérfluos, mas pela redução de despesas com as áreas de saúde e educação, para as quais, hoje, existe uma exigência de investimentos mínimos.

COMBUSTÍVEL É SOMENTE A PONTA DO ICEBERG, DIZEM ESPECIALISTAS

Carro sendo abastecido com combustível
Carro sendo abastecido com combustível. Crédito: Rudy and Peter Skitterians/Pixabay

As intervenções na Petrobras são somente uma parcela do problema. Para se ter ideia, na segunda (22), as afirmações do governo de que haverá intervenções em mais áreas também derrubaram as ações de outras estatais, como Eletrobras e Banco do Brasil. E como essas empresas têm participação significativa no índice Ibovespa, que reúne o conjunto de ações mais negociadas, os prejuízos contribuíram para a queda do principal indicador do mercado acionário brasileiro.

Essas oscilações, por sua vez, afetaram o preço do dólar, que chegou a encostar em R$ 5,53 e a ser comercializado a quase R$ 5,80 nas casas de câmbio da Grande Vitória, com o aumento do risco-país, isto é, da falta de segurança jurídica e de credibilidade do país em manter compromissos no futuro.

A perspectiva, no momento atual, ainda é de dólar forte, e na medida em que a moeda norte-americana sobe, sobem também diversos preços, contribuindo para a elevação da inflação. Como explica o economista Felipe Storch Damasceno, professor assistente da Fucape:

“Eis o momento que vivemos: os países do mundo estão vacinando, o que é um ótimo sinal para os investidores, a China está crescendo, os Estados Unidos estão com um plano de socorro econômico enorme, e os investidores estão dispostos a abraçar um pouco de risco. Mas o Brasil é arriscado demais. Temos um presidente impulsivo, fazendo justamente o que falou que não faria. Isso eleva o dólar e, consequentemente, tudo que é precificado por ele”. 

Sede da empresa Petrobras na Reta da Penha em Vitória

Sede da Petrobrás na Reta da Penha
Esta semana a empresa estatal voltou a ser o centro da atenção do noticiário econômico. Vitor Jubini
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
O fato do presidente Jair Bolsonaro interferir na escolha do presidente da empresa causou questionamentos. Vitor Jubini
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
Na visão de Bolsonaro, o general Luna e Silva deve substiruir Roberto Castello Branco no comando da petroleira. Vitor Jubini
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
A Petrobras atua na exploração de petróleo em terra e mar capixaba. Vitor Jubini
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
A empresa construiu uma sede suntuosa na Reta da Penha em Vitória. Vitor Jubini
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
A obra foi alvo de muita polêmica. Vitor Jubini
Sede da Petrobrás na Reta da Penha
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal. Vitor Jubini
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal
Diversas denúncias de irregularidades foram movidas pelo Ministério Público Federal

Ele observa que o preço dos combustíveis é só a ponta do iceberg, e que o custo de quase todos os bens da economia é afetado direta ou indiretamente, contribuindo para um aumento da inflação. E mesmo que se tente segurar os preços, a prática não é sustentável no longo prazo, fazendo com que a conta chegue mais cara lá na frente.

JUROS

Nesse contexto, a tendência é de elevação da taxa de juros, o que encarece a tomada de crédito - como o crédito imobiliário, que teve um “boom” em 2020, aquecendo o setor da construção civil -, dificulta investimentos que dependem de empréstimos, e até mesmo afeta a capacidade do governo se financiar.

“Para o investidor médio, se a Selic sobe, há um ponto positivo de aumento dos rendimentos de certos investimentos em renda fixa, mas, para o governo, isso representa algo diferente. Se a taxa de juros sobe, será em cima de um estoque de dívida enorme”, pontuou Damasceno.

Conforme observa a analista de renda fixa da XP Investimentos, Camilla Dolle, como hoje o risco é de que haja necessidade de elevação adicional de juros, as expectativas para os juros no futuro sobem.

“O resultado, tendo em vista que o cenário de curto prazo se mantenha ou se eleve pouco, é de maior inclinação da curva (de juros): as taxas esperadas para o longo prazo seriam ainda maiores agora do que anteriormente", conforme observado na segunda.

Essas elevações refletem nos investimentos em renda fixa, ainda que cada um seja afetado de modo diferente.  Os títulos pós-fixados, por exemplo, acompanham a taxa Selic, ou o CDI, e são representados como um percentual desses indicadores. Por esse motivo, explica a especialista, quando a expectativa de juros para o futuro sobe, a remuneração esperada para esses investimentos se eleva também.

Já os títulos prefixados são os ativos que rendem um percentual fixo, conhecido desde o começo da aplicação, e que não irá variar de acordo com nenhum índice. "Ou seja, se uma pessoa escolhe um ativo prefixado que paga 5% ao ano, ao final da aplicação o rendimento será correspondente a 5% ao ano, pelo período contratado."

Já os ativos indexados ao IPCA pagam a variação anual da inflação mais um percentual prefixado. Com isso, este tipo de remuneração protege o investimento contra os efeitos da inflação no tempo.

"Caso o investidor ou a investidora decida resgatar seu investimento antes da data de vencimento do ativo, ficará sujeito(a) às condições do mercado naquele momento. Tomando como base o cenário que esperamos para este começo de semana, de provável abertura da curva de juros, o resultado seria de desvalorização dos títulos prefixados e indexados à inflação. O mecanismo que causa este efeito é a marcação a mercado. Ou seja, o preço do título apresenta relação inversa com sua taxa: se a taxa sobe, o preço cai e vice-versa. A taxa é reflexo direto das expectativas do mercado para os juros no futuro", explica Dolle.

CENÁRIO NÃO É NOVO

Segundo o economista Eduardo Araújo, a principal questão envolvendo as intervenções do governo na Petrobras, particularmente, é se a política de preços atual será mantida.

"Se nada muda, o cenário internacional vai continuar pressionando os preços, a inflação. Por outro lado, se o governo muda a política de preços, adotando um caráter mais intervencionista como feito em outros governos, poderia segurar um pouco a inflação, mas por outro lado, poderia trazer prejuízos para os investidores, aumentando a desconfiança em relação à política econômica do governo. É uma tempestade perfeita."

Segundo o economista-chefe da Apex, Arilton Teixeira, o cenário que se vislumbra não é novo. Ocorreu antes no governo Dilma Rousseff (PT) e, mais cedo ainda, durante o governo militar.

“As promessas de reformas, de gestão eficiente das estatais, caíram. O presidente está deixando claro que, a despeito de a equipe econômica continuar alardeando que vai fazer reformas, as prioridades são outras. Ele começa a brincar agora com as estatais, e isso não é novo. O governo militar já fez. A Dilma fez. E sabemos as consequências disso: no final, a empresa tem um rombo, você desestimula investimentos privados no país, deturpa a inflação, desequilibra as contas públicas, e causa um desastre na economia inteira.”

Teixeira considera que medidas para baixar os preços, dar auxílio à população - que, em tese, é o que promete o governo - são boas intenções, mas defende que, se o objetivo é criar políticas fiscais e sociais, devem ser buscadas alternativas menos danosas.

"O governo tem meios para reduzir gastos e fazer sobrar dinheiro, mas por que não sobra? Por que se nega a adotar as medidas necessárias, a aprovar as reformas econômicas propostas para que a economia cresça, a reduzir os penduricalhos do alto escalão".

O QUE MUDA PARA O CONSUMIDOR

  1. 01

    Dólar

    As intervenções na Petrobras e a declaração de que mudanças também podem ocorrer no setor elétrico, por exemplo, abala a confiança com o mercado, criando um receio de que o governo federal vá agir para manipular para manipular preços e mexer também em outras estatais. O aumento da incerteza eleva o risco-país, fazendo com que os investidores se retraiam e a moeda brasileira se desvalorize ainda mais, elevando ou mantendo o dólar no patamar atual, já bastante alto na comparação com o início do ano anterior, por exemplo.

  2. 02

    Inflação

    O dólar precifica diversas commodities, como o petróleo (usado como matéria-prima para combustíveis); a soja (utilizada para fabricação de óleo de cozinha e também na alimentação); milho (que alimenta também as aves); carne; minério de ferro; entre outros. Assim, se a moeda norte-americana se valoriza, esses produtos e seus derivados tendem a encarecer, puxando para cima a inflação. Na segunda-feira (22), aliás, a expectativa do mercado para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2021 subiu para 3,82%. No Boletim Focus anterior, a previsão era 3,62%, Com isso, o índice oficial de inflação fecharia o ano acima do centro da meta, que é de 3,75% para este ano. A saber, entre janeiro e fevereiro, a expectativa mediana de inflação dos consumidores em 12 meses subiu 0,1 ponto para 5,3%, maior patamar maior desde junho de 2019 (5,7%) segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV).

  3. 03

    Juros

    A retração dos investidores, que reduz as expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país, somada ao aumento de preços, pode levar o Banco Central a antecipar a elevação da taxa Selic, que é a taxa de juros básica do mercado, hoje fixada em 2%. A medida favorece a redução da inflação, vez que esse quadro desestimula o consumo. Entretanto, também afeta outras situações.

  4. 04

    Renda fixa

    O cenário afeta de diferentes formas os investimentos em renda fixa. O rendimento de títulos pós-fixados, que acompanha a taxa Selic, ou o CDI, se eleva com o aumento das taxas de juros. O mesmo ocorre com aplicações como a caderneta de poupança, por exemplo, que rende um percentual da Selic. Há também os títulos prefixados, que rendem um percentual fixo, conhecido desde o começo da aplicação, e que não irá variar de acordo com nenhum índice, e os ativos indexados ao IPCA, que pagam a variação anual da inflação mais um percentual prefixado. Contudo, são aplicações com “data de vencimento”, e caso o investidor resolva resgatar seu dinheiro antes do prazo, fica sujeitoàs condições do mercado naquele momento. Ocorre que há uma expectativa de ampliação da curva de juros, que pode resultar em desvalorização desses investimentos, tendo em vista que, nestes casos, o preço do título apresenta relação inversa com a taxa, isto é, se a taxa sobe, o preço cai e vice-versa.

  5. 05

    Empréstimos

    Com a elevação da Selic, o custo do dinheiro fica mais alto, e crediário também. Em outras palavras, as instituições financeiras começam a elevar as taxas de juros cobradas em financiamentos, empréstimos, e no cheque especial, por exemplo. Na prática, fica mais caro pegar dinheiro emprestado para financiar a casa própria, começar ou ampliar um novo negócio, financiar veículos, entre outras operações.

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