Repórter de Cotidiano / [email protected]
Publicado em 23 de setembro de 2021 às 18:35
Após o governo do Estado se colocar à disposição para participar dos testes da Coronavac para agilizar a vacinação em crianças de 3 a 11 anos no Espírito Santo, logo surgiram questionamentos sobre como poderia ser realizado o estudo do imunizante contra a Covid-19 nessa faixa etária e a segurança para o público testado. >
A Gazeta ouviu especialistas que apontaram baixo risco em testes dessa natureza e a importância de fazer a pesquisa direcionada para verificar a resposta imunológica neste grupo, e não apenas reproduzir os resultados que foram obtidos com os adultos. Trata-se portanto de uma etapa fundamental para apurar o grau de proteção que a vacina pode conferir no público infantil. Ou seja, é um teste de eficácia, para medir o grau da resposta imunológica, e não visa usar as crianças para checar se as vacinas são seguras.>
Professora associada do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luciana Costa observa que mesmo que a vacina já tenha apresentado resultado de segurança e eficácia para o público de mais de 18 anos, a criança não é um "miniadulto", isto é, o nível de maturidade do organismo é diferente e ainda não tem uma estabilidade em suas funções. A resposta imune também se diferencia e, por essa razão, é necessário promover testes para a faixa etária específica.>
Luciana Costa frisa que fazer os testes com crianças é importante para garantir a segurança da Coronavac para esse público, resultado esperado por pesquisadores particularmente por já haver outras vacinas de vírus inativado comumente utilizadas - a injetável contra a poliomielite, a da gripe e a da hepatite A, por exemplo. Ainda assim, é necessário testar para confirmar que se trata de um imunizante seguro também para a faixa etária pediátrica. >
>
Questionada sobre eventuais riscos para as crianças que se submeterem ao teste, a professora da UFRJ explica que, quando se chega à fase de estudar a faixa etária pediátrica, é porque a possibilidade de reações adversas significativas é baixa. "Se houvesse risco elevado para os adultos, não seria liberado o teste para crianças", argumenta.>
"A Coronavac tem o mesmo princípio de inativação (vírus inativo) dessas outras vacinas e, em um primeiro momento, não há nada que possa dizer que não é segura. Mas tudo o que vai ser injetado no ser humano, ou dar para o ser humano ingerir como medicação, precisa de testes por mais que se tenha evidências de exemplos similares", pontua. >
Embora não tenha conhecimento sobre os protocolos específicos dos testes da Coronavac, Luciana afirma que, em geral, para o público infantil é usada uma dosagem menor e um dos critérios é identificar voluntários que sejam imunocompetentes, ou seja, cujo organismo apresenta boa resposta imunológica. >
Daniel Gomes, doutor em Imunologia e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), acrescenta que os testes em crianças acabam sendo uma evolução natural no processo de testagem de uma vacina. Ele explica que é praxe, para imunizantes ou medicamentos, os estudos clínicos envolverem, inicialmente, a população de 18 a 65 anos. Depois que os resultados para esse grupo são concluídos, outras faixas etárias passam também a ser testadas. >
"Qualquer vacina que vai ser utilizada precisa ter os dados de proteção, eficácia e segurança avaliados em todos os grupos", frisa.>
O professor avalia que, muito provavelmente, o imunizante da Pfizer será liberado primeiro para crianças, uma vez que já apresentou resultados para a faixa etária de adolescentes (único autorizado no Brasil para o público de 12 a 17 anos) e, agora, consegue avançar para a pediátrica. De todo modo, ele considera importante que a Coronavac também realize seus testes porque, do ponto de vista epidemiológico e sanitário, é fundamental ter mais de uma opção para a imunização da população. >
Assim como a professora da UFRJ, Daniel Gomes sustenta que os riscos são baixos para a realização dos testes ao analisar os resultados anteriores entre os adultos. "Nada é certeza absoluta e, por isso, precisa ser avaliado, mas o risco é estatístico. Não havendo risco para adultos, isso é um subsídio muito grande para que seja facilmente testada nas faixas etárias anteriores", pondera.>
O imunologista esclarece que os pesquisadores sempre se baseiam naquilo que já existe. Então, por exemplo, os testes das vacinas contra a Covid-19 só avançaram do modelo experimental para humanos, quando os resultados demonstraram segurança e assim seguiram, passando por cada fase, até que pudessem ser usadas em larga escala na população adulta. Agora, as farmacêuticas fazem estudos para adolescentes e crianças, nessa mesma lógica. >
"Sempre se leva em consideração os dados anteriores. À medida que são produzidos dados para uma faixa etária, é um subsídio para fazer os testes em outra. Mas o risco sempre tem que ser avaliado, independentemente de qualidade da vacina", conclui.>
A Coronavac já é utilizada em vários países para a vacinação de crianças e adolescentes, como China, Chile, Indonésia, África do Sul e, em breve, Colômbia. No Brasil, o Instituto Butantan - fabricante nacional do imunizante - solicitou o uso para o público infantil, mas o pedido foi negado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há pouco mais de um mês. >
Na ocasião, o órgão avaliou que não havia dados suficientes da eficácia da vacina em crianças e adolescentes no Brasil, já que aqui os testes foram feitos apenas em adultos. O Butantan enviou indicadores de pesquisas nesta faixa etária realizadas fora do país, mas os dados não atendiam aos requisitos exigidos pela Anvisa. O instituto está, segundo o diretor-presidente, Dimas Covas, tentando providenciar o mais rápido possível os estudos solicitados pelo órgão.>
A área técnica da Anvisa apontou que o Butantan apresentou estudos não confirmatórios (de fase 1/2 e 2b) e com poucos voluntários (586) para pedir a ampliação do grupo que pode receber a Coronavac. Os dados até demonstravam a produção de anticorpos no grupo de 3 a 17 anos, mas não suficientes para medir a eficácia para evitar a contaminação.>
O gerente-geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da agência, Gustavo Mendes, disse à época que a recusa não era definitiva, mas um retrato do momento diante das informações que o órgão recebeu do Butantan. "Dados adicionais, mais robustos, podem ser apresentados para que a gente reconsidere essa sugestão.">
Até agora, a Coronavac foi liberada para uso emergencial na população adulta. Na faixa etária de 12 a 17 anos, somente a vacina da Pfizer tem autorização da Anvisa para ser aplicada. A farmacêutica americana, que opera junto com a alemã BioNTech, agora se prepara para também vacinar o público infantil, de 5 a 11 anos. Nessa semana, a empresa anunciou que o imunizante é eficaz para a faixa etária pediátrica e vai solicitar aos Estados Unidos autorização para aplicação. >
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta