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Livros e vídeos ajudam a conversar com as crianças sobre abuso sexual

Esses são recursos que podem ser usados pelas famílias e pelas escolas, mas o diálogo sobre o assunto é fundamental para evitar o crime

Publicado em 20/08/2020 às 10h41
Atualizado em 20/08/2020 às 10h41
As crianças não sabem e nem conseguem denunciar os abusos
Crianças que sofrem abusos costumam mudar o comportamento e se isolar. Crédito: shutterstock

Os últimos dias foram marcados pela dramática história de uma menina de 10 anos, que denunciou sofrer abusos desde os 6 e ficou grávida após ser estuprada. O caso dessa criança de São Mateus ganhou notoriedade, mas não é o único: há uma média de dois registros de violência sexual infantil a cada hora no país. Para prevenir o crime e reduzir esses indicadores, uma importante ferramenta é a educação. Livros, vídeos e músicas podem ajudar famílias e escolas a conversar sobre abuso sexual. 

A psicopedagoga e professora da Faesa, Maria da Ressurreição da Silva Coqueiro, ressalta que a escola tem um papel importante, tanto para educar sobre o autocuidado quanto para identificar eventuais casos de abuso entre seus alunos. Marizinha, como é mais conhecida, diz que há conteúdos a serem trabalhados desde a educação infantil até a adolescência que podem contribuir para evitar a violência. "Informação é prevenção", frisa. 

Quanto mais novas são as crianças, afirma Marizinha, os recursos lúdicos são melhor aproveitados. "Existem conteúdos educativos para cada faixa etária: menores de 4 anos, de 4 a 6 anos, de 7 a 12. Há livros que podem ser indicados e também pode-se trabalhar com a parte lúdica, como fantasiar, contar história, desenhar. Tudo isso é natural no universo infantil; são atividades que o pedagogo pode utilizar para tratar do tema", pontua. 

Durante as atividades, conforme a idade da criança, são abordados os conceitos básicos de autoproteção, de intimidade, consentimento. As escolas, explica Marizinha, devem trabalhar definições sobre o corpo e a sexualidade sem fantasias como, por exemplo, esclarecer que os bebês não vêm de cegonhas e nomear os órgãos sexuais corretamente, em vez de usar apelidos.

Maria da Ressurreição da Silva Coqueiro - Marizinha

Psicopedagoga e professora da Faesa

"É importante também responder às perguntas que surgirem sobre o corpo e seu funcionamento, e explicar porque a criança precisa ter privacidade, que partes íntimas não podem ser tocadas. Ela precisa saber diferenciar o que é um toque agradável de um invasivo"

FAMÍLIAS

Questionada sobre as famílias que são críticas à educação sexual, Marizinha observa que muitos pais e mães também precisam ser educados sobre o assunto, e é importante a escola buscar a aproximação com essas pessoas e oferecer palestras, seminários, workshops que possam favorecer o entendimento do processo de ensino-aprendizagem e como a informação adequada pode prevenir situações de violência, como a sexual. A parceria família-escola, reforça, é fundamental. 

"Na escola podemos orientar os pais até a terem essa conversa em casa. E é preciso ficar claro que não existe conotação sexual. A escola tem obrigação de ensinar e tratar de forma correta, com os termos biológicos, porque a criança precisa aprender e conhecer  o corpo dela. Saber o que é uma situação abusiva. A escola não vai orientar para despertar a sexualidade, mas, ao contrário, vai informar para que não seja vítima de violência, por medo ou desconhecimento", argumenta. 

O Centro Marista de Defesa da Infância desenvolveu  a campanha Defenda-se, iniciada na época da Copa do Mundo realizada no Brasil, em 2014, com conteúdos que visam prevenir a violência contra a criança e o adolescente. Com uma linguagem própria para entendimento do público infantil, hoje já estão disponíveis 13 vídeos na internet, inclusive com versões em inglês, espanhol e libras.

"O objetivo é promover a autodefesa de crianças e adolescentes. A campanha foi produzida em linguagem amigável, e é uma das poucas ferramentas voltadas para o público de 4 a 12 anos, prioritariamente. A ideia é que os vídeos possam ser acessados até sem um mediador; os vídeos falam diretamente com a criança", ressalta Cecília Landarin Heleno, analista de projetos de proteção e defesa da instituição. 

Embora a produção seja do Centro Marista, Cecília afirma que o material produzido não é de uso exclusivo das escolas da rede e que, na verdade, o ideal é que possa ser disseminado. Dentro do grupo, ela diz, existe um olhar bastante cuidadoso sobre o tema, inclusive com formação de professores para tratar do assunto, mas ratifica que os vídeos estão disponíveis para todos que quiserem abordar o abuso sexual de forma a prevenir a violência.

Ao falar diretamente com a criança, observa Cecília, a ideia é fazê-la identificar situações abusivas. "A grande questão da violência é que, normalmente, na perspectiva da criança, ela fica confusa sobre o que é ou não carinho. Os vídeos ajudam a identificar um toque abusivo e diferenciar; orientam também que ela pode e precisa procurar uma pessoa de confiança se isso ocorrer."

Para Cecília, a informação é a única arma da criança que é exposta a uma situação de abuso, uma vez que o violador se aproveita da assimetria de poder "o que eu sei e você não sabe" para praticar a violência.  E, quando se trata de sexualidade, há muitos mitos e tabus que tornam o assunto proibido dentro de casa, e o desconhecimento deixa o público infantil mais vulnerável. 

SINAIS

Quando a violência ocorre, é preciso estar atento aos sinais. A psicopedagoga Marizinha assegura que, no ambiente escolar, professores e pedagogos são capazes de identificar quadros de abuso, sobretudo com a avaliação do comportamento do aluno. Uma criança ou adolescente vítima de violência sexual logo demonstra queda no desempenho escolar, se isola, torna-se mais ansioso e agressivo. Numa situação como essa, o educador precisa tentar uma abordagem e, detectado o problema, a família deve ser comunicada.

Para a analista de comportamento e psicóloga Paula Bullerjhann, um dos reflexos negativos do fechamento das escolas durante a pandemia é a vulnerabilidade a que ficam expostas as crianças vítimas de violência, já que os profissionais da educação costumam identificar casos de abuso. Cecília Landarin acrescenta que são dois riscos nesse contexto: a criança ficar confinada com seu abusador, já que cerca de 80% das ocorrências são no ambiente familiar, e também o uso mais frequente da internet. O abuso, explica, pode ser caracterizado também sem o toque, especialmente no mundo virtual. 

A psicóloga e comentarista da CBN Vitória, Adriana Müller, ratifica que os adultos que convivem com crianças - em casa, na escola, na igreja, em grupos sociais - devem estar sempre alertas aos sinais de que algo não vai bem. Se elas não conseguem verbalizar o abuso, elas demonstram de outras maneiras. 

"O contexto todo faz com que ela fique com muito medo do que está acontecendo com ela porque dói, humilha, é uma violência. Ela até entende como algo errado, mas tem medo de falar porque tem chantagem o tempo todo. O abusador diz que ninguém vai acreditar nela, que vai acontecer algo de ruim com alguém que ela gosta, que vai divulgar imagens. E, quando é algum parente, que ela vai destruir a família", relaciona.

AMBIENTE DE DIÁLOGO

Adriana Müller afirma que, desde muito cedo, as crianças precisam perceber que, em casa, têm um espaço de diálogo, uma relação de confiança para falar sobre qualquer assunto, o que certamente vai favorecer numa eventual situação de abuso. A construção desse ambiente começa quando ainda são bebês, num processo constante de educação. 

A psicóloga cita um cenário hipotético em que uma criança pega um brinquedo de outra, que havia sido esquecido no parquinho. Se, ao contar a história, os pais logo brigarem, colocarem de castigo, ela vai se sentir intimidada a contar a verdade em outros momentos. Ao passo que, se ouvirem o relato e levantarem os seguintes questionamentos: "se fosse o seu brinquedo, você gostaria que alguém pegasse? Como você acha que o outro está se sentindo? Não é melhor procurá-lo para devolver?", a criança vai saber que, na sua casa, é ouvida e orientada. 

Adriana Müller

Psicóloga e comentarista da CBN Vitória

"É preciso criar um ambiente onde a criança confie que pode falar e que não vai ser, automaticamente, repreendida. Um ambiente de diálogo, em que saiba que os adultos vão ouvir e orientar, em vez de brigar com ela. Se as famílias conseguirem isso, é 50% do caminho feito. Mas o que costuma acontecer é que a criança não sente essa confiança e, quando sofre a chantagem pelo abusador, ela fica em silêncio - um dos ingredientes mais perversos desse contexto porque perpetua a violência"

Aos pais que, eventualmente, têm dificuldades de falar sobre sexualidade com os filhos, Adriana Müller sugere uma brincadeira simples que conheceu recentemente: o semáforo do toque. Basta fazer um desenho e dizer que é um jogo, com indicação, por cor como o sinal de trânsito, de onde pode ou não ser tocado. Se for verde, pode; amarelo é atenção; e vermelho é proibido. 

Ilustração ajuda pais a demonstrar para os filhos onde podem ou não ser tocados
Semáforo do toque: ilustração ajuda pais a demonstrar para os filhos em que partes do corpo podem ou não ser tocados. Crédito: Reprodução

Para a psicóloga, o importante é evitar que o silêncio se instale nas relações de pais e filhos. Mas, se isso ocorrer, o comportamento da criança vai evidenciar o problema. Ela fica mais calada, para de brincar, chora com mais frequência, não quer ficar perto de determinada pessoa. Também tem mudança nos padrões de rotina, como sono mais agitado e voltar a urinar na cama, e na alimentação, comendo mais ou deixando de comer. 

O sentimento dessas crianças, avalia Adriana Müller, é resumido na frase de uma de suas pacientes que vivenciou o drama na infância: “A gente espera muito que alguém veja esses sinais e nos ajude de alguma forma."

Nesse contexto todo de violência, tem um componente que torna tudo ainda mais cruel na opinião da psicóloga.  Muitas crianças tiram forças para falar, sabe-se lá de onde, e a família não acredita. Isso é de uma crueldade sem tamanho", conclui.

TABU

Paula Bullerjhann também defende a importância do diálogo, e de acabar com o tabu com que muitas famílias ainda lidam com a sexualidade. Mais do que a escola, como observado pela psicopedagoga Marizinha, os  cuidadores das crianças precisam falar do corpo com naturalidade, dando os nomes corretos para os órgãos sexuais, sem diminutivos e formas infantilizadas. 

"É importante falar como cuidar do corpo, das partes íntimas, quais os limites: quem pode tocar e quem não pode, quem pode ver e quem não pode. A educação sexual não é o sexo em si; é falar do corpo e desses limites. A prevenção passa por aí", aponta.

Paula ainda considera fundamental que os cuidadores da criança ensinem que o segredo é algo ruim,  e que nada deve ser escondido, já que muitas vezes o abusador, sobretudo quando é um familiar, pede à criança que não conte nada a ninguém. Para a psicóloga, o uso de recursos lúdicos, como livros, vídeos e músicas,  é uma boa estratégia de abordagem, mas nem sempre  acessível, principalmente para as famílias de baixa renda. O diálogo, portanto, é fundamental.

A violência contra crianças e adolescentes pode ser denunciada pelo Disque 100. No ano passado, dos 159 mil registros feitos no país, 86,8 mil são de violações de direitos do público infantojuvenil, um aumento de quase 14% em relação a 2018. A violência sexual representa 11% das denúncias que se referem a este grupo, o que corresponde a 17 mil ocorrências. Os dados são do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).

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