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Zerar atraso de segunda dose precisa ser foco de governantes

No Espírito Santo e em todo o país, milhares de pessoas aguardam a dose de reforço, fora do prazo. Além do risco individual, há ameaças coletivas com potencial catastrófico, como o risco de mutação do vírus que drible a vacina

Publicado em 15/05/2021 às 02h00
Escassez de vacina provocou atrasos na imunização em todo o país
Escassez de vacina provocou atrasos na imunização em todo o país. Crédito: Govesp

O desespero para conseguir a segunda dose da vacina contra a Covid-19 produziu uma cena lamentável em São Mateus nesta semana. Centenas de pessoas, algumas delas depois de passar a noite na rua, se aglomeraram em um estacionamento na tentativa de completar a imunização. Além do alto risco de contaminação, a maioria voltou para casa sem o reforço devido à escassez de doses. O exemplo da cidade do Norte do Espírito Santo está longe de ser o único, é apenas o mais evidente de uma crise de abastecimento que se multiplica pelo Estado e por todo o Brasil, com efeitos ainda incalculáveis na proteção da população.

Com as vacinas distribuídas a conta-gotas, o Plano Nacional de Imunização vem enfrentando percalços desde janeiro para garantir a sonhada cobertura coletiva. Mas o drama se intensificou em março, com a decisão reprovável do Ministério da Saúde de liberar o uso imediato das remessas feitas a Estados e municípios para a primeira dose, desobrigando a formação de estoque para a segunda. O caos em São Mateus e em dezenas de cidades capixabas é reflexo dessa estratégia equivocada.

Na teoria, o objetivo era acelerar a vacinação, “imunizando uma grande quantidade da população brasileira”, como defendeu o então ministro Eduardo Pazuello. Bastaram apenas alguns dias para que o sucessor no comando da pasta, Marcelo Queiroga, admitisse que o tiro saiu pela culatra e recuasse, face à indisponibilidade de novas doses. Mas já era tarde. Em abril, vários Estados se viram forçados a tomar a grave medida de interromper o programa de vacinação e, mesmo nos que mantiveram o serviço, o atraso na segunda dose se espraiou pelos municípios.

No Espírito Santo, mais de 87 mil pessoas já haviam ultrapassado o prazo para aplicação da segunda dose da Coronavac no início deste mês. O imunizante chinês representa mais de 70% da cobertura nacional e traz os maiores desafios, por ter intervalo menor entre as aplicações e depender da importação do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA). Houve algum alívio com as novas remessas ao Estado — foram 65.200 apenas nesta semana —, mas os atrasos ainda vão demorar algum tempo para serem zerados.

Uma vez que apenas a imunização completa garante a proteção, o erro de cálculo do governo federal pode ter custado vidas. Em meio a uma disputa internacional por matéria-prima, o Brasil apostou suas fichas no imponderável, ao imaginar que conseguiria manter o ritmo de distribuição de vacinas. Apenas em abril, com a demora na chegada de insumos da China, o Ministério da Saúde reduziu em mais de 30% a expectativa de entrega. A crise culminou com a paralisação total da fabricação pelo Instituto Butantan na última sexta-feira (14). Se não houver novos empecilhos, o cronograma de abastecimento só será recuperado em junho.

Para minimizar os impactos, o governo do Espírito Santo acertou ao adequar à distribuição, alocando todos os lotes da Coronavac para sanar o atraso, enquanto a Astrazeneca foi dedicada à primeira aplicação. Mas a imunização ainda peca nos detalhes. A ausência de agendamento automático da segunda dose, sistemas de marcação instáveis ou exclusivamente on-line e a falta de clareza na divulgação de público-alvo são alguns dos obstáculos, apontados pelos capixabas, que transformam a pandemia em uma via-crúcis ainda mais dolorosa. Em Vitória, por exemplo, uma mudança no agendamento da segunda dose nesta semana pegou os moradores de surpresa. Em São Mateus, o secretário de Saúde do município, Henrique Follador, prometeu adequações.

Todas as esferas do poder público precisam trabalhar em conjunto para garantir a imunização acelerada da população, dentro dos prazos previstos pelas farmacêuticas. Não há parâmetros científicos que cravem qual é o tamanho do estrago, uma vez que a situação enfrentada pelo Brasil é inédita. Além do risco individual para quem deixa de tomar a segunda dose no intervalo correto, há ameaças coletivas com potencial catastrófico, como a necessidade de reiniciar o esquema vacinal do zero, em um desperdício das doses já aplicadas, e o risco do surgimento de uma mutação do vírus que drible a vacina. A tragédia é imensurável.

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