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Gastos com viagens ampliam distância entre autoridades e o Brasil real

O trem da alegria de viagens internacionais com autoridades e servidores públicos, muitas vezes com familiares a tiracolo, é uma instituição que nunca sai dos trilhos no país

Publicado em 24/11/2021 às 02h00

Existe um Brasil para poucos, inatingível para a maioria da população. Um Brasil que embarca, sem remorso, em aviões cujas passagens são desembolsadas por esses mesmo brasileiros que, de longe, testemunham o mau uso dos impostos que lutam diariamente para pagar. Enredo de uma novela sem fim, repetida à exaustão, mesmo que entrem novos personagens na trama a cada quatro anos. O trem da alegria que envolve autoridades e servidores públicos, muitas vezes com familiares a tiracolo, é uma instituição que nunca sai dos trilhos no país.

Reportagem da Folha de S. Paulo mostrou o valor pago pelo contribuinte para bancar a viagem de 25 pessoas, entre ministros do Executivo, do Tribunal de Contas da União (TCU), presidentes de agências reguladoras, parlamentares e seus cônjuges, para o IX Fórum Jurídico de Lisboa, realizado entre os últimos dias 15 e 17, em Portugal. Reunindo passagens aéreas, diárias e seguros, foram mais de R$ 500 mil. Com o uso de um avião oficial das Forças Armadas incluído no "pacote turístico", mas a Aeronáutica não quis informar o custo do voo.

As justificativas para essas farras com dinheiro público estão sempre na ponta da língua, intercâmbios pautados pelo interesse público, sendo que parte das autoridades foi a Lisboa para participar como palestrante do evento promovido pelo IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), que tem o ministro Gilmar Mendes como sócio, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), sem o custeio das despesas por patrocinadores ou organizadores. Outra parte esteve presente para prestigiar o evento, alguns com direito a "esticadinha" em outros países.

Não se nega aqui que faz parte das atribuições de integrantes dos Três Poderes a participação de eventos internacionais. Mas é lastimável que, em pleno século XXI, e, pior ainda, na esteira de uma pandemia que acentuou a crise econômica, não exista mais moralidade em torno desses deslocamentos.

Para os príncipes da República, não existe austeridade. Nem mesmo a exigência por lei de haver a transparência dessas despesas causa constrangimento aos detentores do poder. Até porque o Brasil acumula tantos abusos ao longo de sua história que a opinião pública parece ter sido colocada em um transe que bloqueia a indignação. Entra governo, sai governo... nada muda.

Recentemente, a comitiva de Jair Bolsonaro ao Oriente Médio chamou atenção pelo inchaço, com sete ministros, a primeira-dama, dois de seus filhos e alguns convidados que afirmam ter arcado com os custos da viagem. Não há informações organizadas ainda sobre o custo especificamente desse giro, justificado como uma busca de investimentos para o país, mas o deslocamento de tanta gente do governo é um arranhão à imagem, que precisaria ser de mais cuidado com o dinheiro público. Como defender a necessidade de contas públicas equilibradas e um Estado mais eficiente, se a cúpula do poder é incapaz de dar o exemplo?

Os cofres públicos não guardam dinheiro sem dono, que pode ser desperdiçado com verdadeiras excursões, enquanto a população que enfrenta desemprego, desalento e salários baixos assiste a tudo sem camarote. Viagens em muitos casos são primordiais para as relações internacionais, em encontros que estimulam o comércio entre os países e solidificam a imagem da nação. Mas até para isso é indispensável a racionalidade na escolha dos representantes cuja presença é realmente essencial. 

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