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Análise econômica

O Espírito Santo cresceu. E agora?

Estado chega a 2026 com sinais consistentes de crescimento econômico e transformação produtiva. Mas vale refletir sobre os fundamentos desses resultados, identificar gargalos e debater se as escolhas feitas podem sustentar um desenvolvimento duradouro

Publicado em 30 de Janeiro de 2026 às 08:23

Públicado em 

30 jan 2026 às 08:23
Leonardo Pastore

Colunista

Leonardo Pastore Leonardo Pastore
No tabuleiro econômico nacional, o Espírito Santo começou 2026 ocupando uma posição que chama atenção de outros Estados. Não parece tratar-se apenas de sorte ou de um ciclo favorecido de commodities. Os números disponíveis — como o PIB de 3,0% até setembro de 2025, acima da média nacional, segundo dados do Instituto Jones dos Santos Neves — sugerem a presença de escolhas e métodos que merecem ser compreendidos.
Se até a metade do século XX a economia estadual era baseada no café, hoje o Estado tem diversificação setorial e estatura regional relevante, sendo a base de cadeias produtivas complexas, que vão do minério ao gás e das rochas à sustentabilidade. No comércio exterior, a desidratação do Fundap há alguns anos chegou a ser apregoada como um réquiem para serviços de logística, mas ocorreu uma metamorfose descentralizada e com contornos de aço e concreto.
Movimentação no Porto de Vitória Crédito: VPorts/Divulgação
Em Aracruz, a entrada em operação do Porto da Imetame; em Presidente Kennedy, o Porto Central; na Capital, a privatização da antiga Codesa com a chegada da Vports e, recentemente, a chegada da Blue Terminals (Zmax Group) em Praia Mole. Mais que obras de engenharia, criam-se novos centros de gravidade que apresentam o ES como um hub estratégico de serviços e de geração de riqueza ao sul do Atlântico.
O sotaque dos negócios capixabas também tem mudado. O exemplo mais recente vem do outro lado do mundo, como resultado da última comitiva oficial à China que, muito mais que protocolos de intenção, anunciou a instalação de uma nova planta industrial de montadora de veículos chinesa no ES.
O avanço não se apresenta como privilégio do litoral. O agronegócio obteve R$ 17,2 bilhões em exportações em 2025 e o café conilon é um cidadão do mundo. O setor de gás natural e a indústria extrativa trazem um fôlego de R$ 106 bilhões em investimentos projetados. 
Ao mesmo tempo, a renovação da nota máxima de gestão fiscal (Capag A) amplia a capacidade de investimento do Estado com recursos próprios, permitindo que o equilíbrio das contas seja meio — e não fim — para políticas públicas que combinem dinamismo econômico e responsabilidade social.

O gargalo que trava a engrenagem

Entretanto, há um entrave que impede que essa engrenagem ganhe mais ritmo: a infraestrutura terrestre. Tal como um esporte de equipe, a evolução plena exige ação coletiva. Ao invés de fazer “pocar” esse corpo desenvolvimentista, o modal rodoviário federal ainda é um gargalo. Se o Espírito Santo tem feito bem o seu dever de casa, atraindo de montadoras a portos, o asfalto das BRs 101 e 262 anda cansado de promessas e da dependência de Brasília. Junto com elas, a ferrovia EF-118 não é um luxo, mas uma artéria vital para que um mosaico de R$ 137,6 bilhões já anunciados em investimentos não fique no meio do caminho.
Por outro lado, a reforma tributária também começa a gerar efeitos concretos e é mais um desafio. Incentivos fiscais que ajudam a fomentar a economia local serão extintos e a transição do modelo de tributação da origem para o destino trará impacto arrecadatório interno e risco de migração de empresas para grandes centros consumidores.
Impactos urbanos do incremento econômico também são sentidos e nem sempre de modo positivo. O aumento acentuado do valor de imóveis na Grande Vitória tem sido destaque nacional e dá margem ao debate em torno do risco de gentrificação de espaços, problemas de mobilidade e de desenvolvimento sustentável.
Para além da frieza das planilhas, o Espírito Santo de 2026 demonstra que quem aqui investiu transformou pedra em porto e incerteza em mapa, numa engrenagem que se soma à grandeza do Brasil e que a todos convida acompanhar seu próprio ritmo. O desafio, porém, é entender como – e a que custo – esse ritmo pode ser sustentado.

Leonardo Pastore

Leonardo Pastore Leonardo Pastore

Assessor de Investimentos da Valor. Mestre em Direito e Procurador do Estado do Espirito Santo. Professor de Etica na pos-graduacao da ESPGE

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