Assessor de Investimentos da Valor. Mestre em Direito e Procurador do Estado do Espírito Santo. Professor de Ética na pós-graduação da ESPGE

Um seguro contra o Brasil para proteger suas finanças

A representação mais recente do quadro de insegurança é o episódio envolvendo o Banco Master, cujos acontecimentos expõem, de maneira incômoda, a dimensão do risco

Vitória
Publicado em 02/01/2026 às 14h21

No Brasil, é comum se ouvir que até o passado é incerto. Exageros à parte, não se pode negar que aqui há uma imprevisibilidade tropicalizada: sem ruptura ostensiva, muitas regras permanecem formalmente as mesmas, mas passam a ser aplicadas de outro modo, decisões técnicas ganham leitura política e entendimentos mudam ao sabor das estações.

Falar de um “seguro contra o Brasil” pode parecer exagerado ou até antipatriótico a depender do viés político. Mas a expressão pode ser vista como o outro lado da moeda da imprevisibilidade do ambiente institucional brasileiro. Longe de negar avanços, e sem trocar o verde e amarelo por cores sombrias, deve-se admitir que, aqui, o risco não está apenas no mercado, mas na forma como as regras do jogo podem mudar.

Essa instabilidade à brasileira já seria suficiente para tornar o cotidiano cansativo, mas para quem precisa planejar, investir ou preservar patrimônio, isso cria uma barreira maior.

A representação mais recente desse quadro é o episódio envolvendo o Banco Master, cujos acontecimentos expõem, de maneira incômoda, essa dimensão do risco. O que deveria ser uma questão restrita à supervisão bancária tem ganhado contornos políticos, jurídicos e até novelescos.

Se a análise era de solvência da instituição ou qualidade de seus ativos, a discussão tornou-se publicamente tensionada por narrativas de conflitos de interesses de altas autoridades, incursões sobre órgãos reguladores, judicialização de decisões técnicas e uma sensação difusa de que o desfecho depende menos de critérios objetivos e mais da correlação de forças entre instituições. Para o investidor atento, esse é o ponto central.

Historicamente, há uma instabilidade relativa das regras no Brasil. Nossa Constituição, por exemplo, uma jovem balzaquiana, já sofreu quase 140 mudanças formais (a última, pouco antes do natal de 2025), sem contar as incontáveis mudanças informais de interpretação de seus dispositivos.

13º salário deve desafogar contas no fim do ano ou abrir oportunidades para investimentos
Com tantas regras mudando, é importante ter atenção na forma de aplicar o dinheiro. Crédito: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

No último ano, uma grande alteração no campo tributário rompeu a tradição de isenção de dividendos e mudou substancialmente o modelo até então vigente para pessoas físicas e jurídicas. A cada ciclo político ou mudança de cadeiras nos Tribunais, conceitos antes consolidados passam a ser reinterpretados, regimes são revistos e, não raro, planejamentos legítimos ficam fragilizados. A previsibilidade e segurança jurídica, quer dizer, o elemento essencial para decisões de longo prazo em todas as áreas, se esvai.

Em ambientes tais, a racionalidade que se espera na tomada de decisões econômicas cede espaço para riscos especulatórios e inespecíficos. Na prática, a questão final envolve o que não se consegue precificar, como “qual regra vai mudar”? Quando essa pergunta se torna central, a noção de proteção precisa ir além dos instrumentos tradicionais.

Nesse contexto, pensar num “seguro contra o Brasil” ganha densidade. Não na forma tradicional e mercantil, mas estruturado segundo uma postura estratégica, muitas vezes deixada em segundo plano devido ao viés doméstico e da fé. Trata-se de absorver incertezas que escapam às projeções financeiras, aos balanços e aos relatórios de performance de investimentos.

Diversificação internacional é o caminho mais óbvio nesse sentido, como mecanismo de preservação. Ter negócios e patrimônio expostos a sistemas jurídicos mais previsíveis e ambientes regulatórios mais estáveis não é uma aposta contra o Brasil, mas uma maneira de reduzir o risco de sofrer efeitos de decisões heterodoxas que desafiam os modelos tradicionais e escapam às ferramentas de controle que caberiam às instituições.

Se o ambiente tem uma grande dose de imprevisibilidade, deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é aumentar o risco. Por isso, criar camadas de proteção contra choques institucionais e regulatórios merece estar na pauta do dia, de modo a utilizar as ferramentas jurídicas e societárias como meio de alçar adaptação, mobilidade e tempo para o caso de uma mudança repentina nas regras do jogo.

Falar sobre um “seguro contra o Brasil” é, no fundo, um convite à reflexão sobre nossas próprias convicções e lembrar que o risco país não se resume a indicadores macroeconômicos ou ratings de agências internacionais. Essa reflexão inclui como instituições dialogam e dão transparência às suas decisões, qual o padrão ético de autoridades públicas, quão elásticas são as interpretações legais e qual a disposição do Estado para conferir estabilidade às regras em momentos de tensão.

Decisões financeiras exigem atenção: aos sinais, ruídos e às zonas cinzentas. Administrar patrimônio ignorando esses elementos é flertar com o perigo sem margem de segurança, como se problema fosse falar em “seguro contra o Brasil”, enquanto, pelo que se vê, risco maior é continuar agindo como se ele não fosse necessário.

Começa 2026. Com ele, menos promessas grandiosas e mais decisões conscientes, sem pessimismo, mas, ao mesmo tempo, com maturidade de quem reconhece o terreno em que se pisa. Se o futuro é incerto, que os primeiros dias de 2026 permitam ajustes de rotas e lucidez para preservar o que o tempo e o trabalho construíram até aqui. Feliz ano novo!

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