Por muito tempo, a avaliação da figura do risco nos mercados esteve vinculada a questões geopolíticas, à solvência corporativa ou à fragilidade fiscal, que, juntas ou separadas, alteravam o humor dos investidores. Embora tais fatores ainda possuam total relevância para estressar portfólios, o centro de gravidade do risco parece ter se deslocado sutilmente. Hoje, a instabilidade de elementos objetivos, como lucro ou prejuízo, parece ultrapassar as fronteiras de instituições que deveriam oferecer estabilidade: as dos bancos centrais.
Nos EUA, o maior mercado do mundo, a autoridade monetária acusa o uso de pressão política por meio de investigações para forçar decisões do Federal Reserve alinhadas à agenda econômica do governo. O que antes era um conflito velado entre Trump e Powell transformou-se numa demonstração de que sua independência pode ser questionada caso o jogo eleitoral estabeleça o ciclo de juros.
O Brasil vive sua própria versão dessa tensão institucional gerada do confronto entre a política e a credibilidade técnica de um banco central. O caso do Banco Master revelou uma fricção entre o TCU (Tribunal de Contas da União) e o BC (Banco Central) quanto às competências de um e do outro. Ao decidir inspecionar o processo de liquidação do Master, ainda que juridicamente justificável segundo sua função de controle externo, o TCU acendeu um alerta sutil sobre os limites entre o escrutínio legítimo do Tribunal e a interferência sobre decisões do BC que guardam autonomia regulatória.
No Norte ou no Sul, os casos ilustram a tentação de subordinar a Autoridade Monetária a pressões imediatas, fazendo o risco erodir a barreira que separa a política da instância regulatória. Bancos centrais não são infalíveis, mas, pressionados, perdem a capacidade de ancorar expectativas, o que retira dos mercados a bússola de que precisam para navegar. Se são lentos, não são impulsivos. Essa é a função deles: estarem fora do compasso da política para proteger a economia das emoções do dia.
A conta chega no custo do dinheiro
Para o investidor comum, tudo parece abstrato demais, mas ele paga o preço. O risco institucional é precificado antes do fato e as curvas de juros são afetadas por dados além dos econômicos: elas se alteram (juros sobem) quando players percebem que instituições que deveriam discipliná-las de modo independente podem ser forçadas a operar na sombra, com menos rigor técnico e garantias. Na prática, o mercado financeiro sente o golpe, rejeita o risco e se retrai: o dinheiro fica mais caro.
Aqui, por outro lado, o investidor resiliente percebe que seu poder decisório é limitado. Ele só administra uma parte do risco, que, por sinal, é relativamente pequena. É mais difícil isolar o risco institucional, e o sucesso ou insucesso de investimentos não vem só de decisões mal tomadas por si, mas da crescente impossibilidade de tomá-las sem as interferências que vão muito além do próprio dinheiro. Esse risco é o mais profundo, pois não aparece nas estatísticas como as de inflação ou PIB, mas tem poder para alterar, silenciosamente, o custo do dinheiro e a volatilidade do mercado.
Então, de Washington à Brasília, o maior desafio é seguir firme na preservação da invulnerabilidade das instituições monetárias, mantendo-se sua ideia de autonomia quando o calor do momento parece conspirar contra ela. E se antes o temor era sobre algum choque externo ou um novo plano econômico mirabolante, agora ele parece estar fundado sobre algo mais singelo, porém por demais gravoso: de que gradualmente se politizem instituições que deveriam nos proteger da política.
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