Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 06:10
Jhonatan de Jesus, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), deve suspender uma inspeção no Banco Central (BC) que visava apurar a atuação da autoridade monetária na liquidação do Banco Master, segundo fontes ouvidas por veículos de imprensa como o G1 e a Folha de S. Paulo.>
A BBC News pediu a confirmação da suspensão à assessoria de imprensa do TCU e aguarda retorno.>
A inspeção havia sido determinada em decisão individual na segunda-feira (5/1) pelo próprio Jhonatan de Jesus, que é relator do caso Master no TCU — órgão autônomo responsável pela fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial dos órgãos e entidades públicas do país. >
Com a suposta decisão pela suspensão, após recurso do BC, o caso deve ir ao Plenário do tribunal. >
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O objetivo da inspeção era obter esclarecimentos sobre o processo de liquidação, determinado pelo BC em 18 de novembro. >
No mesmo dia, Daniel Vorcaro, dono do banco liquidado, foi preso — após obter um habeas corpus, ele foi solto sob monitoramento de tornozeleira eletrônica.>
O Master é suspeito de fraudes bilionárias.>
O BC apresentou um recurso na terça-feira (6/1) para tentar impedir a inspeção da área técnica do TCU sobre a documentação relacionada à operação de liquidação, segundo apuração do portal G1. O caso está em sigilo. >
No recurso, disse o portal G1, o BC alegou que inspeções só podem ser determinadas em decisão colegiada do TCU, ou seja, com participação de outros ministros da Corte. >
Na decisão que havia autorizado a inspeção, Jhonatan de Jesus não havia descartado adotar, em algum momento, uma medida cautelar contra o BC, sem citar qual seria. >
No setor bancário, houve temores de que o ministro pudesse anular a liquidação do Master.>
Mas, nesta quarta-feira (7/1), o presidente do TCU, Vital do Rêgo Filho, descartou a possibilidade de "desliquidação" em entrevista à agência de notícia Reuters.>
Segundo Rêgo Filho, somente o Supremo Tribunal Federal (STF) poderia reverter a decisão pela liquidação.>
"O processo de desfazer a liquidação depende do Supremo Tribunal, porque há um caso em aberto lá", disse o presidente do TCU à Reuters. >
"O que a TCU pode oferecer, como já vem fazendo, são elementos sobre a legalidade da operação.">
A situação do Master também é alvo de investigação criminal, no STF, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, cuja atuação no caso tem gerado controvérsia.>
Na Câmara, o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) busca abrir uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o Banco Master e diz já ter o apoio suficiente de parlamentares para tal.>
Já o TCU tem como uma de suas funções fiscalizar a atuação de autarquias federais, como o Banco Central. O processo sobre a liquidação do Master foi aberto por solicitação do Ministério Público junto ao TCU para apurar eventuais falhas do Banco Central na supervisão do banco.>
A apuração do TCU busca esclarecer se, de um lado, a autoridade monetária teria demorado na condução de alternativas à liquidação, como a compra do Master por outra instituição financeira, e, de outro, se teria se precipitado ao determinar o encerramento do banco.>
No final de dezembro (30/12), o Banco Central enviou um relatório com esclarecimentos ao TCU, mas o documento está sob sigilo.>
Na decisão que determinou a inspeção da autoridade monetária, o ministro Jhonatan de Jesus havia argumentado que a manifestação do BC não veio acompanhada de provas documentais. >
"A Nota Técnica apresentada se limitou, em essência, à exposição sintética de cronologia e fundamentos, com remissão a processos e registros internos, sem que viesse acompanhada, nesta oportunidade, do acervo documental subjacente (peças, notas internas, pareceres e registros de deliberação) necessário à verificação objetiva das assertivas nela contidas".>
Ao determinar a inspeção no BC, Jhonatan de Jesus havia orientado a área técnica a reconstruir toda a cronologia e documentação envolvendo soluções privadas, ou seja, propostas de compra do Master. >
O ministro frisou o interesse em entender se houve divergências internas no BC sobre essas propostas e como elas foram superadas. >
Jhonatan de Jesus havia determinado, inclusive, a análise de registros formais de uma videoconferência realizada em 17 de novembro, um dia antes da liquidação do banco.>
Na reunião, teria sido informada pelo Master ao BC uma nova proposta de compra do banco pelo grupo Fictor.>
Além disso, o ministro do TCU havia solicitado que fosse inspecionada a supervisão do BC sobre o Master depois de 2019, quando o banco liquidado começou a ter um crescimento atípico. >
A inspeção deveria "reconstruir o fluxo de supervisão e resolução no período 2019–2025, verificar motivação, coerência e proporcionalidade, examinar a consideração de alternativas menos gravosas e aferir, com rastreabilidade documental, o tratamento conferido a tratativas relevantes de mercado".>
O documento assinado pelo ministro também resumiu os argumentos do Banco Central no relatório enviado ao TCU, que se encontra em sigilo. >
"Em síntese, o BCB sustenta que a liquidação não teria sido ato isolado ou precipitado, mas desfecho de processo de supervisão, reputando-se inevitável diante de crise de liquidez, descumprimentos normativos relevantes e achados de irregularidades em operações, com remissão às bases legais correspondentes". >
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, que teve acesso ao documento, o BC teria informado também ao TCU que acionou o Ministério Público Federal após identificar indícios de fraude em negócios do Master com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. — um dos alvos da operação Carbono Oculto, que mirou a relação entre setor de combustíveis, a organização criminosa PCC e empresas financeiras.>
Antes disso, o Banco Central já havia identificado outra possível fraude na revenda de R$ 12,2 bilhões em créditos supostamente inexistentes do Master para o Banco Regional de Brasília (BRB), banco público do Distrito Federal.>
Posteriormente, o BRB tentou comprar o Master, mas o Banco Central vetou a operação em setembro.>
Na segunda-feira (5/1), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e outras dez associações do setor financeiro publicaram nota apoiando a atuação do BC e sua independência, sem citar diretamente o Master.>
A quebra do Master é a maior da história do país em impacto para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — associação privada que funciona como uma espécie de sistema de garantia de depósitos, cobrindo investimentos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ (por instituição financeira) em caso de quebra de alguma instituição associada.>
Segundo o FGC, 1,6 milhão de investidores do banco, que detinha R$ 41 bilhões em títulos CDBs, poderão ser ressarcidos.>
A Polícia Federal (PF) investiga suspeitas de fraudes na concessão de créditos, emissão de títulos irregulares e criação de carteiras falsas — operações que, segundo os investigadores, movimentaram valores bilionários e alimentaram uma tentativa de venda da instituição ao BRB.>
A liquidação do banco ocorreu no dia 18 de novembro, mesmo dia em que uma operação levou à prisão de Vorcaro e de outros executivos do banco.>
Em 28 de novembro, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região concedeu habeas corpus e mandou soltar Vorcaro, os ex-diretores Luiz Antonio Bull, Alberto Feliz de Oliveira e Angelo Antonio Ribeiro da Silva, além de Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do banco.>
Eles são monitorados por tornozeleira eletrônica e estão proibidos de exercer atividades no setor financeiro, de ter contato com outros investigados e de deixar o país.>
O BRB, banco público do Distrito Federal, chegou a tentar comprar o Master, mas o Banco Central não autorizou o negócio. >
Há suspeitas de fraudes sobre operações bilionárias entre as duas instituições.>
Diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino se manifestou a favor da compra do Master pelo BRB, mas sua posição ficou vencida dentro da autoridade monetária, que optou pela liquidação da instituição.>
O caso Master também revelou uma rede de contatos de Vorcaro com autoridades em Brasília, que vão de políticos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a ministros do STF, como o próprio Toffoli e o ministro Alexandre de Moraes — cuja esposa, Viviane Barci de Moraes, teve um contrato milionário como advogada do banco liquidado.>
Segundo o jornal O Globo, que revelou a existência do contrato da mulher de Moraes com o banco, o ministro do STF teria pressionado o presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre a venda do banco Master, o que ambos negam.>
Um pedido de investigação contra o ministro foi arquivado pelo procurador-geral da República, que avaliou não haver indícios de crime na contratação da esposa de Moraes. >
No caso de Toffoli, o ministro viajou para assistir à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras, em Lima, no Peru, no mesmo voo particular que um advogado de um dos diretores do banco.>
A coincidência chamou atenção porque a viagem ocorreu no final de novembro, logo após Toffoli ter sido sorteado para relatar o recurso apresentado pela defesa de Daniel Vorcaro na Corte.>
No dia seguinte ao sorteio, o ministro embarcou no jatinho em que estava o advogado Augusto Arruda Botelho, defensor de um dos diretores do Master e ex-secretário Nacional de Justiça no início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. >
No voo, estavam também o empresário Luiz Oswaldo Pastore, dono da aeronave, e o ex-deputado Aldo Rebelo.>
O ministro confirmou que viajou no avião e afirmou a interlocutores, segundo o jornal O Globo, que não discutiu o processo durante o trajeto.>
Pouco depois, em 3 de dezembro, Toffoli colocou o caso sob sigilo e decidiu transferir o inquérito para o STF, sob sua própria relatoria, atendendo ao pedido de um diretor do Master — o mesmo pleito feito anteriormente pelos advogados de Vorcaro.>
Ele acolheu a solicitação com base na citação de um deputado federal nas investigações, autoridade com prerrogativa de foro privilegiado.>
O ministro justificou o sigilo afirmando que o inquérito envolve informações econômicas sensíveis, com potencial impacto no mercado financeiro. Na prática, todas as decisões futuras sobre a investigação passam a ser tomadas por ele, e não mais pela Justiça Federal em Brasília.>
Além dos vínculos com ministros do STF, as doações eleitorais também revelam possíveis conexões políticas envolvendo o Banco Master.>
O empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, foi o maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro em 2022.>
Casado com Natália Vorcaro Zettel, irmã do banqueiro, ele transferiu R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a do governador de São Paulo.>
Zettel é fundador e CEO da Moriah Asset, um fundo de private equity (modalidade de investimento que compra participações em empresas que não estão na bolsa). >
Por meio da Moriah, ele é sócio de marcas como Oakberry, Les Cinq, Frutaria São Paulo e Empório Frutaria.>
Em 2022, ele foi o sexto maior doador pessoa física do país. Pela legislação eleitoral, indivíduos podem doar até 10% da renda bruta do ano anterior à eleição.>
A assessoria de imprensa de Tarcísio afirmou que sua campanha contou com mais de 600 doadores e que o governador não possui qualquer vínculo ou relação com Zettel.>
"Vale destacar que a prestação de contas de Tarcísio foi devidamente aprovada pela justiça eleitoral", diz a nota enviada à BBC News Brasil.>
Com informações de Rute Pina e Marina Rossi>
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