Era uma pedra mais que cantada. Já durante as convenções, em setembro, candidatos e dirigentes partidários demonstravam muito pouco zelo pelas orientações sanitárias. Agora, com candidatos aos montes abusando do direito de fazer campanha nas ruas e promovendo aglomerações que espantam pelo volume de gente, o Espírito Santo vive praticamente um “surto eleitoral” de Covid-19. O segundo turno pode não chegar em alguns municípios, mas a segunda onda de infecção da doença contagiosa parece já ter chegado por aqui, pelo menos em torno e em cima dos palanques.
Nos últimos dias, enquanto vemos exemplos crassos e abundantes de candidatos que ignoram recomendações básicas para minimizar o contágio, vários deles contraíram a doença ou estão sob suspeita de contaminação. Isso inclui alguns dos coprotagonistas das disputas nas respectivas cidades.
Entre os casos confirmados recentemente, temos o de Sandro Locutor (PROS) – 2º colocado na pesquisa Ibope/Rede Gazeta do dia 17 em Cariacica –, que deve receber alta do hospital nesta sexta-feira (30); o do prefeito de Vila Velha, Max Filho (PSDB) – 1º colocado da pesquisa Ibope/Rede Gazeta do dia 15 –, cujo contágio foi anunciado nesta quarta (28) por sua assessoria de imprensa; e o do deputado federal Felipe Rigoni (PSB), que não é candidato a nada, mas apoia em Vitória a Fabrício Gandini (Cidadania) – 1º colocado, empatado com João Coser (PT), no Ibope/Rede Gazeta do dia 13.
Rigoni passou a manifestar sintomas na segunda-feira (26) à noite, logo após participar de um evento gigantesco de campanha ao lado de Gandini, diante de 2 mil pessoas, no clube Álvares Cabral, conforme estimativa de público informada pela assessoria do próprio candidato.
O próprio Gandini, por sinal, também foi contaminado pelo novo coronavírus. Foi a informação que ele mesmo levou ao conhecimento do público no início da noite desta quinta-feira (29), um dia após ter começado a apresentar sintomas da enfermidade e realizado o teste para a Covid-19. Isso, não perca as contas, dois dias depois do seu megaevento de campanha no Álvares.
Não se trata aqui de culpabilizar nem de condenar, individualmente, Locutor, Max, Gandini ou quem quer que tenha sido (ou possa vir a ser) atingido pela terrível doença, mas de propor uma reflexão. No caso de Locutor, alegra-nos a sua melhora. Nos de Max, Rigoni e Gandini, torcemos por uma rápida recuperação. Outros políticos também poderiam ter pegado a doença. Outros também estão promovendo grandes comícios como o de Gandini e muitos também estão caindo nos braços do povo.
Todos estão errados.
A regra na verdade tem sido o descuido e o relaxamento por parte dos candidatos em geral, sobretudo no que se refere à promoção de aglomerações que, na verdade, deveriam ser evitadas e desencorajadas pelos próprios líderes políticos, tomados pelos eleitores (sobretudo seus apoiadores) como referências de conduta e inspiração. A mensagem transmitida, de “falsa normalidade”, é péssima.
Ninguém pode precisar quando e como cada um contrai o vírus; ninguém pode dizer ao certo se um desses candidatos pegou a doença em um desses megaeventos de campanha; qualquer um está sujeito a ser infectado, tendo ou não tendo participado de um evento desse porte… Mas é óbvio que se meter em uma aglomeração como essa eleva demais as chances de contágio – ainda mais para candidatos, que caminham em meio à multidão, abrindo passagem pelo mar de gente, enquanto são cumprimentados por todos e a todos precisam dar atenção.
Por isso, num momento em que se têm observado tantos maus exemplos de negligência em relação a regras de prevenção ao contágio, esse surto de Covid-19 entre os próprios políticos deveria servir como alerta e como ponto de reflexão para os candidatos em geral. Eles não estão colocando só a própria saúde em risco. Estão arriscando a dos demais, incluindo a de admiradores, que acreditam neles.
Se um candidato pega a doença após uma maratona de corpo a corpo em meio a multidões, todos ficamos sabendo. São figuras públicas, mais que nunca sob os holofotes. Mas quantos apoiadores anônimos, lá no meio daquela multidão, também não podem ter contraído a doença ou podem tê-la transmitido para outros (às vezes sem saber e sem apresentar sintomas), enquanto se perfilavam e se acotovelavam em meio a centenas ou milhares de pessoas?
Até que ponto vale a pena, por mais pontos nas pesquisas e mais votos, promover tamanhas aglomerações e arriscar a própria saúde e a de terceiros?
COMO DIRIA LEONEL: ALÔ, GOVERNO!
E o governo Casagrande no meio disso tudo? Falamos aqui da responsabilidade das campanhas e dos próprios candidatos, mas é preciso também cobrar uma atitude mais firme do governo estadual. Até porque, oficialmente, comícios seguem proibidos no Espírito Santo, por força de decreto do governador.
Até quando o governo seguirá fazendo vista grossa e permitindo eventos eleitorais com 2 mil pessoas no Estado? Se, em vez de um comício, fosse um jogo de futsal com torcida no ginásio do Álvares, mesmo com todos os torcedores espaçados e usando máscaras, por acaso seria permitido? Considerado normal e seguro?
No palanque de Gandini estava, por exemplo, a secretária de Estado de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro (Cidadania), que faz parte da sala de situação do governo sobre políticas de isolamento social. Fica parecendo que as normas estaduais só valem para os outros (pessoas físicas e estabelecimentos), mas não para os amigos do governo nem para os seus representantes.
LAVEM AS MÃOS. MAS NÃO ASSIM...
Enquanto os comícios seguem rolando soltos para centenas ou milhares de pessoas, o governador, que não é candidato, mas tem lá suas preferências, segue percorrendo o Estado em uma bateria de entregas e assinaturas de ordens de serviço. Nesta sexta, a parada é em Linhares, onde o deputado governista Marcos Garcia (PV) é candidato a prefeito.
Nestes tempos de pandemia, lavar as mãos é uma boa medida. Mas não nesse caso.
GENTE DEMAIS, TÁ NA CARA
O já citado evento de campanha de Gandini no Álvares – com a presença, no palanque, do prefeito Luciano Rezende (Cidadania), de secretários de Estado e de outros apoiadores de peso do candidato – é só um exemplo entre tantos. Outros candidatos, incluindo adversários diretos dele, como Pazolini e Coser, também estão bem longe de evitar aglomerações.
O evento de Gandini, contudo, chamou a atenção pela dimensão faraônica. Quando chegamos à casa do milhar assim, com essa naturalidade, é porque algo na seção “cuidados” está errado e saiu do controle.
ACABOU A PANDEMIA?!?
O conceito de “aglomeração” é relativo. Podem se considerar números mínimos diferentes de pessoas para se caracterizar uma. Mas 2 mil pessoas é “aglomeração” com força em qualquer parte do mundo.
Então, quando vemos, meio bestificados, um comício com tanta gente, ainda em plena pandemia, pensamos que ou o “vírus da campanha” fez as pessoas perderem a noção de limites ou então voltamos totalmente à normalidade e só quem está sabendo disso são os candidatos, dirigentes e coordenadores de campanha. Esqueceram-se de nos avisar.
INFECÇÃO ESTIMULADA E ESPONTÂNEA
Tem político que não acredita em pesquisa científica, mas as “pesquisas eleitorais” da coluna não deixam dúvida: nesta campanha municipal, o líder tanto na infecção espontânea como na infecção estimulada é o novo coronavírus.
ESTA TRANSPARÊNCIA É BOA...
É de se reconhecer e tirar o chapéu (não a máscara) a transparência com que Max, Gandini e tantos outros divulgaram o seu contágio para o público, uma vez confirmado o resultado positivo.
... ESTA, NÃO!
Mas a transparência, sempre tão positiva na gestão da informação, poderia muito bem ser evitada quando se trata de modelos de máscaras de proteção. Como mostrou reportagem de A Gazeta publicada nesta quinta-feira, aquela do tipo transparente que caiu no gosto dos candidatos NÃO é indicada por especialistas. Não protege direito. Isso quando eles usam máscara alguma...
ISOLAMENTO E DISTANCIAMENTO ELEITORAL
Dar essa bobeira e deixar-se infectar, ficando fora de combate em um momento tão decisivo da campanha, é um risco não só à saúde dos candidatos em questão como também um risco eleitoral. A Covid-19 pode derrubar o candidato na dupla acepção do termo.
Gandini e Max, por exemplo, líderes nos respectivos municípios segundo o Ibope, ficarão de molho por alguns dias, num momento em que precisariam trabalhar para abrir um distanciamento dos adversários em seu encalço ou obter um isolamento na liderança.