Casagrande e Luciano não seguem a mesma bula no combate à Covid-19
Receitas diferentes
Casagrande e Luciano não seguem a mesma bula no combate à Covid-19
Quando o assunto é o enfrentamento à pandemia, governador e prefeitos aliados como Luciano Rezende não estão exatamente na mesma página, ou melhor, na mesma bula, nem seguindo a mesma receita. Isso vale sobretudo para o uso (ou não) da cloroquina
Prefeitura de Vitória anunciou que passará a usar a cloroquina no tratamento de pessoas com Covid-19, enquanto governo do Estado desaconselha uso da drogaCrédito: Amarildo
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) segue irredutível em uma postura muito clara, reafirmada sempre que possível, de contra-indicar a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina, sobretudo em casos leves, por ausência de validação científica quanto à eficácia dessas drogas na cura de pacientes com a doença, acrescida dos riscos de complicações vinculados a tais medicamentos. Enquanto isso, numa mistura de ansiedade com aflição por dar ao povo uma resposta (qualquer resposta), um número crescente de prefeitos abre os braços e pede: “Vinde a nós as doses de cloroquina”.
Nesse sentido, Vitória não foi o primeiro município do Estado a decidir adotar oficialmente o uso da substância para a Covid-19 nas unidades de saúde de sua rede municipal. Mas, por se tratar da Capital, com o peso da Capital, referência para os demais municípios (inclusive por sua boa rede de atenção primária ligada ao SUS), a medida tomada por Luciano na certa servirá como incentivo, se não como senha, a muitos outros prefeitos de cidades menores que se miram em Vitória como exemplo a ser seguido. Um exemplo que contraria as recomendações (ou, no caso, as não recomendações) do próprio governo estadual.
A POSIÇÃO OFICIAL DA SESA
No dia 20 de junho, quando os primeiros municípios avulsos começavam a querer distribuir o “kit Covid”, o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), declarou:
"O Espírito Santo mantém a orientação da Nota Técnica 42, que estabelece a não recomendação do uso da cloroquina com prescrição universal em pacientes graves ou leves. Apesar de o Estado não recomendar a utilização do remédio, não foi feita nenhuma proibição sobre o uso por parte dos municípios e planos de saúde que quiserem fazer uso do remédio. [...] Respeitamos o município que quer usar", disse Nésio, em coletiva de imprensa convocada para explicar o ofício enviado na véspera pela Sesa às secretarias municipais de Saúde.
É como se ele dissesse aos prefeitos e secretários municipais: "Olha, não acreditamos na eficácia dessa droga, desaconselhamos o seu uso, achamos que isso não resolve nada e que vocês estão se enganando. Mas, se insistem em apostar nisso, vocês têm pleno direito, e não somos nós que vamos impedi-los".
Em entrevista coletiva dois dias após a publicação da portaria (3), Nésio Fernandes, longe de avalizar a medida, reiterou: “Não há evidências científicas que recomendem o uso de hidroxicloroquina em fase inicial da doença, principalmente em atividade ambulatorial”.
Indo um pouco além do chefe, o nº 2 na hierarquia da Sesa, Luiz Carlos Reblin, ainda deixou um relevante alerta:
“O uso de medicações que não tenham sua eficácia comprovada, além do risco de trazer efeitos colaterais [...], pode trazer uma falsa sensação de segurança. E isso é tão grave quanto os efeitos colaterais. Eu utilizo determinado produto, acredito que ele está me protegendo, e, na verdade, ele não me protege. Eu me exponho ao risco, e aumenta o risco de adoecer pela Covid-19”, afirmou o também médico e subsecretário estadual de Vigilância em Saúde.
Detalhe: filiado ao PT desde 2008, Reblin já foi secretário de Saúde de Vitória, durante a administração de João Coser (PT), antecessor e adversário político de Luciano, por sua vez também médico e titular da mesma secretaria durante parte da gestão de Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB).
Ao falar da decisão tomada, ainda no dia 1º, o prefeito de Vitória deu uma explicação sem grande profundidade nem detalhamento técnico. Alegou, basicamente, necessidade de agir rapidamente num momento dramático como este, em que não há tempo a perder para salvar vidas.
“Mesmo que haja controvérsias, o que é normal durante um período de pandemia, existe também a necessidade de agirmos rápido numa emergência sanitária. Esse protocolo de atendimento envolve o uso de medicações que estão sendo debatidas pelo país e, agora, na nossa rede, através de médicos voluntários, vamos iniciar a experiência com esse tipo de tratamento.”
Essa pressa diz bastante. Assim como o cidadão comum, o gestor público sem dúvida também está angustiado em meio à pandemia, ansioso por tomar alguma providência.
Fica patente que medidas como a da Prefeitura de Vitória e as de outras cidades são motivadas pela vontade do governante de dar uma resposta imediata à população e mostrar que a prefeitura está agindo, fazendo algo; que não está só assistindo passivamente ao agravamento do quadro geral.
Do ponto de vista político, os gestores devem calcular que, assim, pelo menos, não poderão ser acusados de passividade e omissão; pelo menos terão tentado dar uma resposta. Ainda que a eficácia da resposta escolhida seja bastante duvidosa. Pode não ser a melhor, mas é a resposta mais fácil e é a que eles têm para hoje.
Enquanto isso, resta a certeza de que Casagrande e Luciano não estão lendo e seguindo a mesma bula, quando se trata da melhor maneira de lidar com a pandemia.
Outra certeza: aliados de Luciano não hesitarão em buscar capitalizar politicamente a medida da Prefeitura de Vitória. Aliás, já estão fazendo isso. Abaixo, só um exemplo disso: divulgação feita pelo líder do prefeito na Câmara de Vitória, o vereador Luiz Emanuel Zouain (Cidadania).
Líder do prefeito na Câmara de Vitória, vereador Luiz Emanuel (Cidadania) divulga a portaria da prefeitura para uso de ivermectina e cloroquina/hidroxicloroquina nos pacientes com suspeita ou confirmação de Covid-19Crédito: Reprodução
AO MESTRE, COM CARINHO
O leitor mais fiel com certeza notou, lá no topo, o retorno do mestre Amarildo, nosso grande cartunista, a abrilhantar nossa coluna com suas divertidas ilustrações e seu olhar perspicaz sobre a cena política. Bem-vindo de volta, amigo!
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.