Os últimos dias têm mostrado duas coisas muito importantes em meio à guerra político-ideológica estabelecida no Espírito Santo em torno do tratamento medicamentoso de pacientes com a Covid-19: de um lado, uma pressão crescente da oposição ao governo Casagrande (PSB) para a adoção do uso da cloroquina, na rede pública estadual, como tratamento padrão dos pacientes ante os primeiros sintomas da doença; do outro, um descompasso abissal entre prefeitos de municípios capixabas, inclusive aliados de Casagrande, e o governo estadual, no que diz respeito à prescrição (ou não) da cloroquina.
Na categoria “aliados do governador”, destaque para o principal deles entre os prefeitos: o da Capital. Na semana passada, ao anunciar que Vitória passará a usar a cloroquina para tratar pacientes com Covid-19 na rede municipal, Luciano Rezende (Cidadania) surpreendeu meio mundo político e quase todo o mundo científico no Espírito Santo. Provou que, nas estratégias de combate à pandemia, ele e Casagrande não estão na mesma página, isto é, na mesma bula. Apesar da aliança político-eleitoral, prefeito e governador definitivamente não estão seguindo a mesma receita para enfrentar o novo coronavírus.
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) segue irredutível em uma postura muito clara, reafirmada sempre que possível, de contra-indicar a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina, sobretudo em casos leves, por ausência de validação científica quanto à eficácia dessas drogas na cura de pacientes com a doença, acrescida dos riscos de complicações vinculados a tais medicamentos. Enquanto isso, numa mistura de ansiedade com aflição por dar ao povo uma resposta (qualquer resposta), um número crescente de prefeitos abre os braços e pede: “Vinde a nós as doses de cloroquina”.
Nesse sentido, Vitória não foi o primeiro município do Estado a decidir adotar oficialmente o uso da substância para a Covid-19 nas unidades de saúde de sua rede municipal. Mas, por se tratar da Capital, com o peso da Capital, referência para os demais municípios (inclusive por sua boa rede de atenção primária ligada ao SUS), a medida tomada por Luciano na certa servirá como incentivo, se não como senha, a muitos outros prefeitos de cidades menores que se miram em Vitória como exemplo a ser seguido. Um exemplo que contraria as recomendações (ou, no caso, as não recomendações) do próprio governo estadual.
A POSIÇÃO OFICIAL DA SESA
No dia 20 de junho, quando os primeiros municípios avulsos começavam a querer distribuir o “kit Covid”, o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), declarou:
"O Espírito Santo mantém a orientação da Nota Técnica 42, que estabelece a não recomendação do uso da cloroquina com prescrição universal em pacientes graves ou leves. Apesar de o Estado não recomendar a utilização do remédio, não foi feita nenhuma proibição sobre o uso por parte dos municípios e planos de saúde que quiserem fazer uso do remédio. [...] Respeitamos o município que quer usar", disse Nésio, em coletiva de imprensa convocada para explicar o ofício enviado na véspera pela Sesa às secretarias municipais de Saúde.
O documento trouxe orientações sobre o protocolo a ser adotado pelos municípios que quiserem ministrar cloroquina a pacientes infectados pelo coronavírus que não apresentem quadro grave. Nessa mesma entrevista, o secretário informou que o governo enviaria doses do remédio aos municípios que o solicitassem formalmente, mas reafirmou que, a cada semana, os estudos científicos indicam que não há benefício no uso da cloroquina em pessoas com Covid-19, seja com quadro leve, seja com quadro grave.
É como se ele dissesse aos prefeitos e secretários municipais: "Olha, não acreditamos na eficácia dessa droga, desaconselhamos o seu uso, achamos que isso não resolve nada e que vocês estão se enganando. Mas, se insistem em apostar nisso, vocês têm pleno direito, e não somos nós que vamos impedi-los".
A FILA DE MUNICÍPIOS PRÓ-CLOROQUINA
Aracruz fez essa aposta. De igual modo, cidades como Colatina, Nova Venécia e Cariacica, assim como Cachoeiro (que já recebeu da Sesa 5 mil doses de cloroquina) e Itapemirim (que está distribuindo, em seus postos de saúde, um kit composto por azitromicina, zinco, ivermectina e hidróxido de cloroquina, após avaliação médica e teste). Detalhe: os prefeitos de Nova Venécia e Cachoeiro são do partido de Casagrande.
Ao todo, mais de 20 dos 78 municípios capixabas já solicitaram à Sesa a sua "dose" do remédio, repassado aos Estados pelo Ministério da Saúde.
No dia 1º de julho, foi a vez de a Prefeitura de Vitória publicar a Portaria nº 022 de 2020, na qual anuncia que utilizará a cloroquina/hidroxicloroquina e a ivermectina em pacientes com suspeita ou confirmação de infecção pelo novo coronavírus (não obstante as profundas discordâncias por parte de estudiosos, cientistas, intensivistas, infectologistas etc.).
Isso sem contar os posicionamentos oficiais, contrários ao uso da droga para esse fim, assinados por entidades como a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Sociedade Brasileira de Pneumologia, a Associação Brasileira de Medicina Intensiva, a FDA (lá no Trumpistão) e, acima de tudo, a Organização Mundial da Saúde (OMS), que, em face da falta de evidências quanto à eficácia da hidroxicloroquina, anunciou, em 16 de junho, a interrupção de seus estudos com a substância para tratamento da Covid-19.
Mas Luciano também entrou na aposta.
A REAÇÃO DO GOVERNO CASAGRANDE
Demarcando ainda mais fundamente a diferença de visões, o governo Casagrande reagiu, não batendo de frente (afinal, de novo: são aliados), mas reiterando a sua contra-indicação e manifestando preocupação com a medida.
Em entrevista coletiva dois dias após a publicação da portaria (3), Nésio Fernandes, longe de avalizar a medida, reiterou: “Não há evidências científicas que recomendem o uso de hidroxicloroquina em fase inicial da doença, principalmente em atividade ambulatorial”.
Indo um pouco além do chefe, o nº 2 na hierarquia da Sesa, Luiz Carlos Reblin, ainda deixou um relevante alerta:
“O uso de medicações que não tenham sua eficácia comprovada, além do risco de trazer efeitos colaterais [...], pode trazer uma falsa sensação de segurança. E isso é tão grave quanto os efeitos colaterais. Eu utilizo determinado produto, acredito que ele está me protegendo, e, na verdade, ele não me protege. Eu me exponho ao risco, e aumenta o risco de adoecer pela Covid-19”, afirmou o também médico e subsecretário estadual de Vigilância em Saúde.
Detalhe: filiado ao PT desde 2008, Reblin já foi secretário de Saúde de Vitória, durante a administração de João Coser (PT), antecessor e adversário político de Luciano, por sua vez também médico e titular da mesma secretaria durante parte da gestão de Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB).
LUCIANO: “NECESSIDADE DE AGIR RÁPIDO”
Ao falar da decisão tomada, ainda no dia 1º, o prefeito de Vitória deu uma explicação sem grande profundidade nem detalhamento técnico. Alegou, basicamente, necessidade de agir rapidamente num momento dramático como este, em que não há tempo a perder para salvar vidas.
“Mesmo que haja controvérsias, o que é normal durante um período de pandemia, existe também a necessidade de agirmos rápido numa emergência sanitária. Esse protocolo de atendimento envolve o uso de medicações que estão sendo debatidas pelo país e, agora, na nossa rede, através de médicos voluntários, vamos iniciar a experiência com esse tipo de tratamento.”
CONCLUSÃO: “VIDE BULA”. MAS QUAL?!?
Essa pressa diz bastante. Assim como o cidadão comum, o gestor público sem dúvida também está angustiado em meio à pandemia, ansioso por tomar alguma providência.
Fica patente que medidas como a da Prefeitura de Vitória e as de outras cidades são motivadas pela vontade do governante de dar uma resposta imediata à população e mostrar que a prefeitura está agindo, fazendo algo; que não está só assistindo passivamente ao agravamento do quadro geral.
Do ponto de vista político, os gestores devem calcular que, assim, pelo menos, não poderão ser acusados de passividade e omissão; pelo menos terão tentado dar uma resposta. Ainda que a eficácia da resposta escolhida seja bastante duvidosa. Pode não ser a melhor, mas é a resposta mais fácil e é a que eles têm para hoje.
Já do ponto de vista médico e científico, bem… é melhor deixar os cientistas falarem (e eles têm falado).
Enquanto isso, resta a certeza de que Casagrande e Luciano não estão lendo e seguindo a mesma bula, quando se trata da melhor maneira de lidar com a pandemia.
Nem a mesma bula nem a mesma bússola.
CAPITALIZAÇÃO POLÍTICA
Outra certeza: aliados de Luciano não hesitarão em buscar capitalizar politicamente a medida da Prefeitura de Vitória. Aliás, já estão fazendo isso. Abaixo, só um exemplo disso: divulgação feita pelo líder do prefeito na Câmara de Vitória, o vereador Luiz Emanuel Zouain (Cidadania).
AO MESTRE, COM CARINHO
O leitor mais fiel com certeza notou, lá no topo, o retorno do mestre Amarildo, nosso grande cartunista, a abrilhantar nossa coluna com suas divertidas ilustrações e seu olhar perspicaz sobre a cena política. Bem-vindo de volta, amigo!