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Crônica

A lei da pelada: a lei que a gente faz

Eu, na minha tenra adolescência, aprendi a obedecer a lei, desde que seja escrita pelos obedientes

Publicado em 09 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

09 mar 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Criança jogando bola
4º: O pior de cada time vira goleiro, a não ser que tenha alguém que goste de agarrar Crédito: jcomp/Freepik
Lei, que bicho é esse? É um objeto de poder que pode se transformar em um instrumento para gananciosos fundamentais. Serve aos oportunistas que a possuem no estilo bandido ou bandida, sempre visando lucro. Pelo menos é assim que nos mostram os autointitulados representantes verdadeiros das três instâncias superiores. Todos os participantes desta eterna caverna de Ali Babá possuem uma irretocável habilidade para mentir, dizer e ao mesmo tempo desdizer, ameaçar, enriquecer… Fazer da palavra sua mais vil súdita.
Eu, na minha tenra adolescência, aprendi a obedecer a lei, desde que seja escrita pelos obedientes.
Então.
Nessa fase formadora da pessoa, resumia-se tudo em “As regras do futebol de rua de paralelepípedos”. Passo a você, leitor, o documento final de aprovação universal no qual legislamos sobre a prática dessa boa vida:
Artigo 1º: Os dois melhores (no trato com a bola e não precisava ser filho de ninguém) não podem estar no mesmo time. Logo, eles tiram o par ou ímpar e escolhem os times.
2º: Ser escolhido por último é uma grande humilhação.
3º: Um time joga sem camisa e o outro com camisa.
4º: O pior de cada time vira goleiro, a não ser que tenha alguém que goste de agarrar.
5º: Se ninguém aceita ser goleiro, adota-se um rodízio: cada um agarra até sofrer um gol.
6º: Quando tem pênalti, sai o goleiro ruim e entra um bom, só para tentar pegar a cobrança.
7º: Os piores de cada lado ficam na zaga.
8º: O dono da bola joga no mesmo time do melhor jogador.
9º: Não tem juiz.
10º: As faltas são marcadas no grito: se você foi atingido, grite como se tivesse quebrado uma perna e conseguirá a falta. Uma tênue sacanagem pode ser tolerada.
11º: Se você está no lance e a bola sai pela lateral, grite “é nossa” e pegue a bola o mais rápido possível para fazer a cobrança. Esta regra também se aplica ao escanteio.
12º: Pequenas lesões como arrancar a tampa do dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz, e semelhantes, são considerados normais.
13º: Quem chuta a bola pra longe tem que buscar.
14º: Lances polêmicos são resolvidos no grito, na frente da vizinhança ou, se for o caso, na porrada (nunca em segredo de justiça).
15º: A partida acaba quando a maioria está cansada, quando anoitece, ou quando a mãe do dono da bola manda ele ir pra casa, ou sob a intervenção daquele vizinho invejoso que prende a bola que caiu no seu quintal e passa a faca nela. É conhecido pelo codinome de filho da puta.
16º: Mesmo que esteja 15 a zero, a partida acaba com o clássico “quem fizer o primeiro gol, ganha”.
17º: Prestar atenção nos clássicos tipo “Rua de baixo contra Rua de cima” valendo uma garrafa de Pepsi-Cola das grandes.
18º: Se chover forte, aí mesmo é que haverá futebol.
19º: O famoso grito “paroooooou” era um alerta quando vinha carro ou uma senhora grávida, o lado social das equipes.
E mais não conto sobre isso. E nem precisa.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, mordia quem abandonava a peleja.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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