Neste momento em que a velocidade do aniquilamento da população parece dar tréguas, aqui, ali e acolá, penso que o mundo mudou, subitamente para pior. Então, o novo aparece para logo ficar velho. E, então, busca-se o novo de novo.
Onde estão o engenho e a arte do criar com as próprias mãos? Não é de hoje que as crianças, elas próprias, são miniaturas do brincar dos adultos, e seus brinquedos caríssimos.
Lembro da primeira batalha da criatividade contra a tecnologia: pipas versus celulares. A galera do morro e periferia ainda tinha algum espaço, mas os da cidade só as imitações do brincar. Inventavam fontes e fontes de poder através do vil metal: carros, aviões, tanques de guerra e a terrível virtualidade patológica.
Quando soube que o Alvaro Abreu deu um corte nessa história, fabricando colheres de pau, estranhei. Mas logo depois adorei. Colocou suas mãos familiares com a versão poética (é sobrinho de Rubem Braga e defendia nossa meta com pés, mãos, unhas e dentes, quando jogávamos no Praia Tênis Clube, nessa arte que nasceu junto com realidade, o brincar). Ganhei dele uma colher, que ainda vou buscar. Já se passam dois anos que me presenteou. Certamente estou curtindo a falta que já me faz.
Onde estão os Alvaros? E os carrinhos de rolimã, feitos com engenho e arte, com a capacidade de rolar ladeira abaixo, com as rodinhas de metal adquiridas dos velhos carros, e de modelos cada vez mais porretas?
Agora, sim, que a vaca foi para o brejo. Nestes tempos de loucura descontrolada, que tanto crianças quanto adultos estão proibidas de brincar, está suspenso temporariamente o circuito de rolimã do Morro da Piedade até da prefeitura antiga.
As ourivesarias das pipas, com suas rabiolas, cerol para disputa e seus coloridos papéis de seda, com aquelas combinações de cores dignas de Wagner Veiga, Van Gogh e Monet, comporiam o Grande Prêmio. Em algumas modalidades, seriam permitidos pedaços de gilete encastoados nas rabiolas do modelito. Menos mal que os assassinatos em estradas e pistas que não são de corrida, a não ser para a morte em disputas loucas que hoje em dia atacam todo o povo.
Roda pião. Que coisa linda e bem bolada o pião com as linhas de impulsão colocadas em volta dele para gerar a energia. O grande mestre de Física, Carlos Kulnig, do Colégio Estadual, gostava de citar esse exemplo – e fazia a demonstração nos corredores.
Isso tudo sem falar nos campeonatos de várzea, das praias, dos clubes e – ninguém é perfeito - das praças e das ruas. Quando vinha o carro, era só parar a bola um pouquinho.
Subir em árvores e descer com certa velocidade, de galho em galho, fazia parte da arte lúdica que nasce com a gente, mas que a ganância desse capitalismo selvagem roubou de nós.
As coisas foram se pervertendo, mas nem tudo se perdeu. Restaram os confetes e as serpentinas, além dos blocos de rua (exceção para os grandes do Teatro Municipal, no Rio, e dos clubes Vitória, Álvares Cabral, Praia Tênis e Iate Clube). O brincar sobreviveu a tudo, hoje em dia notadamente nas escolas de samba.
A criatividade desenvolve a inteligência, e não ao contrário. Hoje em dia, jogos eletrônicos sofisticadíssimos substituem os jogadores, as torcidas, e as crianças ficam em volta da mesa com seus aparelhos simulando isso, simulando aquilo. Além do mais, a quantidade de veículos que entulhou as cidades torna o andar de bicicleta uma tentativa de suicídio.
Salvou-se o carnaval com seus blocos, pandeiros, surdos, cuícas fantasias e, vamos reconhecer, lindíssimas músicas, tanto é que disso tudo surgiu a imortal expressão “Brincar carnaval”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, saiu de gato este ano.