“Lá vem o Cordão dos Puxa-Sacos, procurando os maiorais; quem não está na frente pode ser que fique atrás; o Cordão dos Puxa-Sacos cada vez aumenta mais”. São tantas as marchinhas politizadas com letra e música tão dentro da realidade que compõem hoje os eternos blocos de rua.
As marchinhas eram compostas com todas as harmonias e ritmos, uns mais pra lá, outros mais pra cá, sempre musicadas por grandes compositores populares indispensáveis ao carnaval.
Inauguradas por Chiquinha Gonzaga, com seu “Ó Abre Alas”, em 1899, seguiram-se com os inesquecíveis Braguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo e, pasmem, Francisco Anysio. Lembrando que o primeiro samba gravado no Brasil foi “Pelo Telefone”, de Donga e do jornalista Mauro de Almeida.
E como estas eras não estão pra peixe, nem pra camarão, vamos lembrar onde o povo aprendia a ser povo. Na miséria e na felicidade. Ali se instalava a escola de samba.
Todo mundo sabia cantar e dançar. Era a hora da plebe-rude explodir com harmonia a dor contida no meio do cordão. Era sempre uma premonição: “O cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”, por exemplo, tornou-se a principal crítica e a voz do trabalhador esperto.
Havia uma marchinha que todo mundo cantava em plena repartição: “Maria Escandalosa desde criança sempre deu alteração, à escola não dava bola, só aprendia o que não era da lição. Depois a Maria cresceu, juízo que já não era bom encolheu. E a Maria Escandalosa é mentirosa, é muito prosa, mas é gostosa...”.
As discussões sobre paternidade tinham o seu lugar no samba de fevereiro: “Tava jogando sinuca, e uma nega maluca me apareceu, vinha com o filho no colo cantando pro povo que o filho era meu”.
As louras e brancas, que não levavam muito jeito para o rebolado, eram descriminalizadas na folia (ora, vejam só): “Lourinha, lourinha dos olhos verdes de cristal, desta vez, em vez da moreninha, serás rainha do meu carnaval”.
O povo abria consciência: “O Brasil tem muito doutor, muito deputado, muita senadora. Se eu fosse o Getúlio, eu mandava metade dessa gente pra lavoura. Mandava muita loura plantar cenoura, e muito bonitão plantar feijão, e essa turma da mamata eu mandava plantar batata”.
Já na época criticava-se com pandeiro e cuíca as eternas “boquinhas”: ”Maria Candelária, é alta funcionária, saltou de paraquedas, caiu na letra oh, oh, oh, oh. Acorda meio-dia, coitada da Maria, trabalha, trabalha de fazer dó, oh, oh, oh.. A uma vai ao dentista, às duas vai ao café, às três vai à modista, às quatro assina o ponto e dá no pé, que grande vigarista que ela é”.
O problema da habitação também era abordado: “Há quanto tempo que eu não tenho onde morar, se é chuva, apanho chuva, se é sol, apanho sol. Francamente, pra viver nessa agonia eu preferia ter nascido um caracol. Levava a minha casa nas costas muito bem, não pagava aluguel, nem luvas a ninguém, morava um dia aqui, o outro acolá, Leblon, Copacabana, Madureira e Irajá”.
Pois bem. Marias e Josés aprenderam, além do caminho da roça, o caminho do samba pra dizer as coisas.
Hoje, é silêncio e obediência confusa, até agora não saiu nem um samba-enredo sobre o pandemônio. Aguenta aí. Podem oprimir, mas ainda vão ouvir.
Dorian Gray, meu cão vira-latas, vai passar nessa avenida.