Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

Quem ri por último não entendeu a piada

Rir não é fácil. Para rir de algo que não seja de si mesmo é preciso elaborar uma representação que nunca é óbvia

Públicado em 

11 ago 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Sorriso
Entender uma piada e rir dela nem sempre é uma tarefa fácil Crédito: Pixabay
Dizia Leon Eliachar que humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros, e é coisa séria. Para entender uma aparentemente óbvia piada, é preciso chegar ao que não é dito ou explícito. Carece deduzir, portanto, pensar. Aliás, é um bom teste para checar o funcionamento mental nas suas milhares de funções integradoras do pensar. Rir não é fácil. Para rir de algo que não seja de si mesmo é preciso elaborar uma representação que nunca é óbvia.
A partir dessa imagem criada pelo ouvinte, ele pode gargalhar ou manter-se indiferente, ou apresentar outras manifestações deste tipo de sentir e compartilhar. Depende da forma e da qualidade que entra na complexidade do aparelho psíquico receptor. É preciso pensar.
Deixa contar uma, porque afinal “piada de português” é uma respeitável tradição, não é de hoje. Então.
Logo que o mundo se deu conta de que o isolamento impedia a rápida propagação desse vírus atual, surge a primeira piada de português. “Foi liberada a frequência a motéis em Lisboa. Mas só pode entrar uma pessoa de cada vez”.
Uma puxa outra de modo que em rodas de bar (lembram delas?) pode-se ficar horas a fazer a graça de surpreender com a frase final. Vamos admitir: existe a piada sem graça, além dos contadores profissionais, que já chegam contando. Havia um na faculdade que chegava a anotar os temas. Um dia, só pra sacanear, combinamos não rir da piada dele, fosse qual fosse.
E assim foi. Contou, ficamos uns olhando para os outros, fazendo cara de que não aconteceu nada. Não há nada mais constrangedor e doloroso do que uma piada sem graça. Não cumpre sua função histórica. O fracassado contador arrisca-se a ser executado, sendo obrigado a comer três bolinhos de bacalhau, reservados para isso, que pairam na prateleira há meses.
Por outro lado, contar piada não é para qualquer um. É um teatro de parcas comédias, que exige todos os elementos de palco: gestos, vozes, sotaques, capacidade de prender atenção e sobreviver a mortal indiferença da ausência total de reação do “público”. Quando há.
O bravo povo brasileiro tem notória preferência para levar os nossos colonizadores ao ridículo do humor, uma especialidade verde e amarela. A anedota de português sempre o coloca provido de extrema ingenuidade. E o bravo povo brasileiro ganhando todas as porfias. Sei não, mas a senhora conhece algum português pobre ou delinquente?
Uma vez, por curiosidade, perguntei a um amigo luso, artista de fino trato, se não lhe haviam contado por lá piada de brasileiro. “Pois não existe piada de brasileiro. Nem lá nem em lugar nenhum: é tudo verdade”.
Lembro que em todas as eleições votamos exatamente em quem sabemos de antemão que não haverá de fazer nada pelo bem do país. “O brasileiro é o único povo do mundo que sabe que vai dar mancada, e dá”.
No meio do humor pode-se inserir a tragédia: “Um português mudou-se para Berlim para aprender alemão. Não conseguiu, esqueceu o português, ficou mudo”. Calei-me em reverência.
Criam-se as infâmias também em relação aos lusos: “Quantos portugueses são necessários para colocar uma lâmpada? No mínimo três: um para torcê-la no bocal e mais dois para rodar a escada”.
Mas há exceções episódicas, não se pode negar. Por exemplo, na longa guerra entre Portugal e Espanha, os prisioneiros espanhóis que eram amputados por manobra cirúrgica necessária faziam um único pedido a respeito: “Que as partes extirpadas do meu corpo sejam enterradas em solo espanhol”. Pedido negado: o serviço de inteligência luso deduziu que estava tentando fugir aos pedacinhos.
Dorian Gray, o cão, sonolento.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
SXSW 2026: a tecnologia avançou e agora a questão é o que fazemos com isso
Imagem de destaque
MDB nacional diz que aposta na candidatura de Rose ao Senado no ES
Imagem de destaque
9 livros imperdíveis para ler em abril

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados