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Crônica

O principal órgão do corpo humano é a língua, não o coração

A língua canta, sopra música, diz poesia, imita o próximo, convence, ora, diz amém, diz não, diz sim, diz talvez a derradeira das certezas. Ainda por cima beija

Públicado em 

28 jul 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Língua
As múltiplas tarefas da língua humana começam desde cedo Crédito: Pixabay
Pensadores que se dedicam aos mistérios do corpo humano são obrigados, por mera dedução lógica, a procurar o elo entre o corpo e a mente como se fossem coisas distintas. Há razões de sobra dentro do objetivo da Ciência que inclui a integração do afeto e o pensar em uma única estrutura. Não é fácil. Até a palavra semanticamente integradora “Psicossomática” contém a divisão. Ou não?
O alemão Georg Groddeck refere-se, no meu parco entender, a uma palavra que, entre outras coisas, representa ou é mesmo essa unidade. É a palavra “Isso”, na maioria das traduções para o português que conheço.
O que é então este link de existência óbvia e impossível de compreender, sequer teorizar, a não ser explicando palavras com outras palavras? Seria o que todas as culturas no mundo chamam de alma? Que, aliás, é algo que transita “de dentro para fora” e “de fora para dentro” da pessoa, e que não obedece o controle consciente dado a extrema, quase divina, complexidade do funcionamento humano. Muitas vezes, o “isso” é explicado, mas não compreendido suficientemente na sua estrutura funcional. Pelo menos para mim, mero garimpeiro das coisas do espaço transicional que se forma entre os vínculos interpessoais.
Com exceção de abnegados operários da Medicina e seus talentos, raramente reconhecidos, a direção do sistema nacional brasileiro é entregue por vias caóticas, e com grande frequência, a incompetentes, que, aliás, até inventam currículos.
Até para amar e outras formas de ligação extremas, às crenças sobre a ordem da magia, do milagre, não admitem roteiro. É impossível negar a ligação imediata, invisível, entre o pensamento e o desejo, por exemplo. Crenças católicas, judaicas, e outras, não são suficientes para desvendar esse mistério. Nas questões ligadas à fé, a palavra “mistério” aparece como um mistério.
Diferentemente das concepções religiosas que detém um poder político por séculos e séculos, em qualquer espaço onde se cultivem leis e histórias, que dão sustentação à fé, a Ciência está longe de chegar a uma suficiente concepção teórica. A solução do mistério fica nas mãos de Deus, dos Santos, Arcanjos, Querubins e Serafins, e outras entidades que se mesclam entre si no reino unido da imaginação, existindo ou não. Por exemplo, não há investimento sistemático na saúde de maneira séria no país. Quando acaba o inferno, joga-se as pesquisas para o alto. Onde está a vacina contra a Aids?
Quando criança tinha uma professora de música e canto orfeônico, a dona Vivizinha. Muito esforçada, tremia as mãos e segurava uma vareta de regência, de modo que quando apontava uma nota no quadro havia pelo menos dez interpretações. Mas foi ela quem, diante das mil perguntas que fazíamos com a finalidade de encurtar sua aula, de repente mudou de assunto e apontou para o alto da centenária sala de música e perguntou: “Este teto pode cair agora mesmo na cabeça da gente?”. Diante da resposta afirmativa dos alunos, ela explicou que apesar do risco nem pensávamos na possibilidade. “Isso é fé”. Tínhamos confiança que vinha mas não se sabe de onde.
Se não houver fé entra em cena a Paranoia, uma ave maldita da Mitologia que arranca o cérebro das pessoas, dentro de cuja amplitude, tudo de mal pode acontecer.
Então.
Desde sempre considero de extremo mistério as múltiplas funções do órgão língua no ser humano. Bem, ela se coloca entre uma função psi, a fala, e a fisiológica, comer para alimentar o corpo, o que inclui também a função estrutural da mente. A fala é fundamental para a comunicação entre os homens, sem o que não conseguiríamos organizar os milhares de sistemas que nos permitem a sobrevivência, a cultura, a vida como história e a consciência da própria morte.
Sendo o homem o único animal que pode matar um adversário de qualquer raça à distância, isso lhe garante o mais poderoso lugar no reino animal e todos os outros mais. Mesmo sendo a raça mais frágil do planeta, suscetível a todas as doenças. Um cachorro, por exemplo, come lama e não está nem aí.
Quando perdemos a função da linguagem, instaura-se a Torre de Babel, sempre atualizada. O corpo paga, respeitável público. Podemos viajar sem constrangimento com qualquer roupa, por exemplo, mas não podemos deixar de ter acesso às línguas.
Começa cedo as múltiplas tarefas da língua humana. Chupar dedo, falar sempre a língua da mãe, o que significa um pezinho na cultura, sexualizar-se, selecionar pelo gosto os alimentos. Aliás, os atuais vírus agressores de nossa fina e complexa organização tiram o paladar e o seu complemento cheirar. A língua canta, sopra música, diz poesia, imita o próximo, convence, ora, diz amém, diz não, diz sim, diz talvez a derradeira das certezas. Ainda por cima beija.
Auxilia a nós médicos quando diz e mostra da sua angústia ou prazer no espaço potencial, transferencial, e se for preciso ajuda no choro e nas lágrimas silentes. Prova do doce, a moqueca, assovia, imita: rosna, cacareja, e faz todos os sons dos outros animais.
Para defender-nos, se abaixa respeitosamente para deixar o vomitado passar mais facilmente, porque o corpo está pedindo passagem.
A língua sem perder seus poderes fala a língua dos outros, até as gírias de Baipendi, o condado abençoado onde reina o amigo Guigui Lara, que depois de lacaniado pode falar uma língua própria. Não tenho mais nada a dizer hoje.
Dorian Gray, o cão que acha que fala, murchou as orelhas.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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