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Crônica

A memória, assim como o humor, determina a sanidade

Assim são minhas memórias, em flashes. Elas são nutridas por lances isolados. Não há uma conexão entre uma lembrança e outra. Jamais poderei fazer um longa-metragem com elas

Públicado em 

14 jul 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Sonhar, recordar, lembrar
Pperder a memória é não lembrar que perdeu, o resto é esquecimento Crédito: Pixabay
Estava jogando futebol no Ouriço, um clube de médicos, quando apareceu na mente Berilurdes Garcia. Um craque perto da grande área adversária, dá um passe para receber de volta por cima dos zagueiros e, de primeira, alcançar as redes.
Assim foi feito. Isso faz muitos anos. E lembro perfeitamente do lance, até porque na mesma partida, na outra trave, fizemos a mesma coisa. Sou ambidestro. Até Beri, que não é disso, elogiou.
Assim são minhas memórias, em flashes. Elas são nutridas por lances isolados. Não há uma conexão entre uma lembrança e outra. Jamais poderei fazer um longa-metragem com elas.
Não entrego aqui muitas das minhas modalidades de lembranças. Algumas são secretas. Aliás, perder a memória é não lembrar que perdeu, o resto é esquecimento, presente do nascimento à morte.
Durante minha vida de psiquiatra e psicossomatista, dei de cara com as demências senil e pré-senil, ligadas tão somente ao envelhecimento. Nunca tive a infelicidade de conhecer algum jovem acometido de Alzheimer ou de alguma demência, a não ser por fatores palpáveis neurologicamente, como os tumores. Alguém conhece?
Agora uma lembrança agradável. A de uma sessão amorosa na tela e na plateia ao mesmo tempo, no Cine Santa Cecília, no Parque Moscoso, naquela tarde de domingo. Desiludido, achando que tinha levado um bolo, inesperadamente senta-se ao meu lado um grande amor. Ela, linda e faceira, e eu não consegui olhar para a tela. Sophia Loren, minha deusa, que se conformasse com Marcello Mastroianni.
A cena de lembrar que aparece agora é de Wolmar, João Gordo e Binha sentados no toco da árvore na Rua do Pau Roliço, na Praia do Suá, reunião do Juventus Futebol Clube, de várzea. E na praia lembro, de repente, de Roberto Lora e eu. Não sei quem inventou isso, mas éramos apelidados de Pelé e Tostão. Brancos como a neve, nem sei quem era o Pelé. Ambos predominantemente canhotos, a gente se arranjava nos clássicos da areia.
Pulo para a “Avenida”, em Jucutuquara. Leomar Barreto, estudante da Escola de Engenharia, me carregava para jogar pingue-pongue no ônibus azul da faculdade. Lembro bem disso.
De repente, vem a imagem da turma da “Avenida” bolando estratégias amorosas para abordar uma doce doméstica, especialista em fogão e lavagem de roupas, como ninguém. Não sei bem, acho que foi o saudoso Mateus que apelidou a musa de Maria Papa Fila.
O pensamento pula para a Barra do Jucu e a composição do samba-enredo do Bloco da Quarta-Feira de Cinzas, “Agora eu vou pra Paris”, em homenagem a Amylton de Almeida, o inigualável amigo.
A recordação é autônoma e independente da vontade do sonhador, de modo que surgem voando Vitor Santos Neves, Branquinha, Brega, Vilmara e a inigualável Lindalva e suas irretocáveis moquecas (aposto que o tradicional Cacau Monjardim inspirou-se nela para criar o bordão: “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”).
Salta minha memória para o carro alegórico dirigido por Rubinho Gomes, que nunca tirou os suspensórios desde que tinha seis anos de idade, presente de nossa querida Margô.
Ele, eu e Paulo Torre nos tratávamos delicadamente por “animal”, com todo o amor do mundo. Aproveito para anunciar, ao respeitável clube, que Eduardo “Animalzinho” Torre”, filho do pai, fechou o gol na defesa de uma tese na Fiocruz. Um mimo seus escritos.
Logo aparece um flash da minha dissertação de mestrado em Educação, sob a benta orientação de Janete Carvalho, que dourou meus parcos conhecimentos com a sua competência. Tratamos de discutir o processo de aprendizado em Medicina, por exemplo. Tudo dentro da estética e dos saberes. Conferia cada frase. Já não se fazem doutoras Janetes como antigamente.
De memória em memória, reencontro a imagem de minha linda colega Denise Fontes, que pelejava junto comigo para a preciosa formação em Psicossomática. Continua faceira. A mente voa e viaja. De lembrança em lembrança, surge o congresso da especialidade em Curitiba. Recordo de Julio de Mello e grande elenco lá.
A memória, assim como o humor, determina a sanidade. Benza Deus que eu mantenha meus memoriais assim pontuados. O restante, faço eu. Meu cão desabafa em Latim Vulgar: “Ego Sunt Bagus Plenus”.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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