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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

Navegar é preciso, viver não é preciso e sonhar não custa nada

O sonho não é uma recordação, é a mais pura realidade. Navegava por um sonhar e não sabia. Ninguém sabe quando está sonhando. Muito menos compreende a lógica das imagens retidas

Publicado em 10/12/2019 às 06h33
Navegando no Rio Amazonas. Crédito: Divulgação
Navegando no Rio Amazonas. Crédito: Divulgação

Tinha eu 10 ou 12 anos e estava pescando um enorme tambaqui do tombadilho do navio Rosa da Fonseca, uma das pérolas da Companhia Costeira de Navegação, um paquete silencioso que fazia a linha de Manaus a Belém, e vice-versa, quando acordei e senti que sonhara.

Já havia realizado acordado esta viagem, mas disso só sinto saudades. Pasme, minha senhora. O sonho não é uma recordação, é a mais pura realidade. Navegava por um sonhar e não sabia. Ninguém sabe quando está sonhando. Muito menos compreende a lógica das imagens retidas, no que Freud, este Deus da inteligência e imaginação, nomeou de Inconsciente.

Era um luxo navegar no navio, fosse dormindo ou acordado, cuja frota homenageava com as marcas heróis nacionais. Nenhum dos homenageados tinha nada a ver com guerra ou valentia. Passar navegando pelos afluentes do Rio Amazonas pela margem direita – Javari, Jutaí, Juruá, Tefé, Coari e Purus – fica entre o sonhar e o recordar.

Na volta, é claro Pedro Maia, margeávamos os da esquerda: Boca do Acre, Canutama, Tapauá, Lábrea, Ituxi e Pauini. Dormindo ou acordado, a produção dos sonhos, às vezes, surge em forma de pesadelos, como sonhar com a prova de Latim que viria dias depois.

Ocorre, acordado ou dormindo, sonhando ou lembrando, tanto faz, vir do nada uma cena, ou duas ou três, especialmente encantadora. Não era o caso do horror produzido pelos textos a serem decorados em latim. “Diana”, o predileto do Padre Severo, o professor da matéria. Lembro do primeiro parágrafo de cor, do coração, até hoje (Diana era dea silvarum, portabat setas et sagitas e introdutiae in silvis cotidiae). Vou traduzir para a senhora: Diana era a deusa das selvas, portando, arco e flecha penetrava no mato todo santo dia. José de Alencar tem cada ideia.

Minha professora do curso primário, no Grupo Escolar Princesa Isabel, avisara que um dia eu saberia para que serviriam essas coisas. Estou esperando, e meio século depois, nada. Serve sim, para recordar. Dona Vivizinha tinha razão.

Eu gostava de sair do camarote de madrugada para sentir o perfume do rio caudaloso e o som das águas vibrantes encontrando a proa do navio com força e delicadeza, como os abraços dos amantes. Nunca consegui permissão do comandante em chefe, isto é, minha mãe Maria, Mariucha para os íntimos, para chegar à beira do alambrado. Em protesto, sonhei.

Perto de Manaus, onde nasci, íamos de barquinhos e voadoras (barquinhos com motor na popa), e até canoas mesmo, caçar um lago com Pirarucu a ser assado na brasa. Escrevo na madrugada que antecede minha viagem de avião para o lançamento do livro de fotografias do Lauro Sergio Pereira, na Academia de Medicina do Rio. Ele é médico e éramos da mesma turma e mesma república, A Moribunda. Não tente soletrar o nome da aglomeração estudantil. Éramos e somos como irmãos.

Embarquemos de novo na canoa, o cheiro dos igarapés, onde realmente ameaçávamos a fauna e a flora da Floresta Amazônica. A gente só pegava piranha, hábito que se prolongaria na adolescência adentro, notadamente na Rua Alice, em Laranjeiras, no Rio, onde o citado peixe proliferava, por sonho ou fantasia.

As piranhas – as do Rio Amazonas – não servem para comer, a não ser quando se está com muita fome. Aí come-se qualquer coisa. Como andam em grupos, e são além de valentes e agressivas, falsamente lindas e coloridas com todas as cores do mundo, atraem qualquer um e matam a mordidas. O senhor meu Deus foi caprichoso nos detalhes das pinceladas para decorá-las, de um verde-azulado, escamas prateadas, hectares em vários tons de vermelho sangue e dentes em navalha. Vai de retro satã.

Sonhei de outra feita, ao dormir na cabine, agora no Lobo Dalmada, também da “Costeira”, com um tambaqui sambando no meu prato repleto de pimenta e gostosura. A pimenta Murupi, prima da De Cheiro e longe da Malagueta, dava gosto. Tava bom o negócio, quando meu irmão Sergio me acordou, como fazia sempre porque eu sonhava alto e o acordava. Bem feito. Meu amado mano tinha um certo prazer em atrapalhar meus sonhos. Ele vai dizer que é mentira. E é capaz de ser mesmo. Essa troca de consciência - sonhar quando se está acordado e estar acordado quando está sonhando - é assim mesmo. Mano, confesso hoje que fui eu quem urinou na tua alpargata predileta.

Em viagem de quatro dias, parávamos em quase todos os portos. É preciso mesmo ser prático para estacionar um navio. Faz que vai, mais não vai, recua, joga os pneus, amarra a popa e a amarra em terra e pronto deu-se a melodia. E ao mesmo tempo joga as âncoras.

Libertos do navio, saíamos a explorar as matas de Coari, hoje nem sei se Coari ainda tem matas. Diz o presidente que essa notícia é coisa de jornalista que não tem o que fazer. É cultural.

Os navios grandes, médios e pequenos povoaram nossa infância. De Manaus a Liverpool é um bom pedaço de mar e do Rio Mar, o Amazonas. Lembro dos dois – chamavam-se Hillary e Hidelbrand – cargueiros com camarotes de luxo. Uma festa para nós. Sabe quantos dias levava a viagem que ainda passava por Belém e Ilha da Madeira, para deixar borracha, madeira, petróleo refinado e pirarucu seco? Vinte e cinco dias entregues a real companhia Booth Line, onde papai trabalhava e a gente curtia. Na barbearia do transatlântico – Barber Shop – vendia-se chocolates e produtos de boutique.

Freud achou significados fora dos sonhos sonhados. Não precisa, basta sonhar ou recordar de propósito.

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