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Crônica

Receita de Torta Caprichada, aquela com um pandemônio de ingredientes

O Brasil é um país desgovernado. Quando preenchem um cargo de poder, dá no que dá. Com raras exceções, o governo atual só exige uma qualificação fundamental para preencher suas estranhas necessidades: que seja idiota

Publicado em 21 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

21 jul 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Panela de barro
A receita não é moqueca, mas o capixaba tem ingredientes de uma receita diferente Crédito: Gildo Loyola - 06/09/2005
Unte em uma panela de barro o derradeiro pandemônio de pó de minério sem filtro que sobrevoa a sua casa e a rua aos milhares – feito um coronavírus. A fonte do ingrediente está bem ali mesmo, pela Ilha toda. A usina que veio trazer grana e progresso não se sabe pra quem. Ensine a seus filhos a fingir que não veem. Afinal, eles têm que brincar de Saci-Pererê com o pó, passando na própria cara e na dos amiguinhos e, principalmente, dos inimiguinhos. E com isso aprender e internalizar a capacidade de se indignar.
Não se preocupe com os cuidados com a tal da saúde. Conforme-se. Afinal, o que são minúsculas partículas de ferro rebentando o seu pulmão varonil? Intrigas da oposição. Estes empreendimentos em todo o mundo são partículas macro, dizem, do programa Aliança Para o Progresso. Dos Estados Unidos, é claro.
Em outra panela no cozinhar da moqueca, reúna moradores de favelas miseráveis, agora com a cínica denominação de “comunidades”, e descubra como podem viver em isolamento 14 ou 20 pessoas em um único cômodo.
Antes de levar tudo ao fogo, descubra o sagrado mistério que dá aos poderosos chefões do assassinato remunerado, a verdadeira liderança do país. Calma, eu explico: não precisa me afogar e nem torturar. Se um bandido mandar fechar todas as portas, não sair de casa, usar máscaras e metralhadoras, matar por matar e dar pouca bola aos inquéritos da corregedoria, será obedecido religiosamente. E ai de quem não obedecer.
Enquanto isso, na mesma cidade, ou Estado, e o escambau, as lideranças de araque só pensam em delinquir, que é a única coisa que aprenderam na vida desde tenra infância. E o distraído e quase demenciado povo está cagando e andando. O Brasil é um país desgovernado. Ainda bem, porque quando preenchem um cargo de poder, dá no que dá. Com raras exceções, o governo atual só exige uma qualificação fundamental para preencher suas estranhas necessidades: que seja idiota.
Torta é torta, como o próprio nome indica. Hora de colocar o urucum. Faz parte do ingrediente a incrível batalha para, dirigindo um veículo, dobrar uma esquina. Cautela: esta aparentemente simples operação exige experiência e malícia. Jamais deixe nenhum outro veículo tomar conhecimento da sua rota. Tente torná-la secreta. Se você, ao dirigir um carro, por exemplo, vai ou não dobrar à direita, à esquerda ou seguir reto, é segredo de Estado.
A patrulha do mal – da insólita Torta Caprichada – estará sempre atenta. Uma vez no trânsito de Vitória não dê o menor sinal da intenção da sua pretensa manobra. Por exemplo, se der seta à esquerda, o esquadrão Luftwaffe irá bloquear o acesso de modo que se tornará impossível a pretendida operação blitzkrieg. Esqueça. Se der seta à direita, é a mesma coisa, afinal estamos em uma “Endgültige Lösung” (Solução Final). Só lhe resta seguir em frente até o infinito, que pode ser outra cidade. Depois tentar a sorte.
Tenho um amigo que enjaulado em uma situação dessas, pretendendo chegar a Ibiraçu, acabou em Belo Horizonte.
Dorian Gray, meu vira-latas desorientado, rosna em Si Bemol Maior.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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