Não lembro bem, mas sei que já li em tenra idade um best-seller, o “Tratado Geral dos Chatos”, de 1962, por Guilherme Figueiredo. Uma chatice.
Claudio Bueno Rocha, texto puro, achava que o jornalista chato é aquele que existe. Os vícios de linguagem têm seu lugar entre os chatos, como diz Oleari, um escrivinhador. A redundância é a mais bizarra das chatices. Assim é preciso sempre advertir nas reuniões de pauta das redações os seguintes cuidados, por exemplo: quem volta não retorna, hospital não é nosocômio, manicômio não é frenocômio, bombeiro não é soldado do fogo, advogado não é causídico, médico não é esculápio, por outro lado é bunda e concomitantemente é a puta que o pariu. E por aí vão esses sinônimos que sustentam a arte de escrever mal.
É por essas e outras que a arte de chatear existe. Conheci um médico de fino trato cujas competência e bondade iam ao infinito, mas preferia uma frase mal-humorada que advertia: “Podem me chamar do que quiserem, menos de chato”.
Então vamos lá. Para começar, um verdadeiro chato não se reconhece como membro da categoria. Puxa-saco de estilo, não percebe, por exemplo, a sua tradicional qualificação. Para os alemães é zieht tasche.
Cada um tem chato e chatice a que fazem jus e o inalienável direito de propriedade. Mas ninguém está obrigado a usufruir do talento do chato, alguns de galochas. Todo cidadão tem direito às suas próprias chatices, principalmente depois de morto. “Lembra do Fulano? Aquele chato lá no Britz, que brincava de jogar gelo no chope dos outros? Como iria esquecer.
Deixa eu contar essa. A bem da história, a respeito do tema, havia em Vitória do Espírito Santo dois mistérios, quase divinos, publicados não se sabe até hoje por quem. As “Cartas do Além” que eram correspondências dos amigos que morriam e divulgavam a lista dos próximos convocados aos purgatórios.
E o S.S. Chatoon, um transatlântico imenso que partia anualmente do Britz Bar, na pracinha da Prefeitura, com destino a uma ilha secreta reservada para os chatos com doutorado, cuidadosamente selecionados, não tinha passagem de volta. Todo ano, o mesmo ritual. Tenho cá minhas hipóteses sobre os critérios, mas não publico nem que a vaca tussa, dado ao pavor que nutro de receber uma passagem ou constatar que já recebi há muito tempo.
No maravilhoso encontro anual dos “Amigos da Praia do Canto”, idealizado e dirigido pela admirável Mariza Guimarães, todos ficamos nos entreolhando discretamente à procura do próximo passageiro da fantástica viagem, mas no fundo, no fundo, é melhor deixar como está.
Respeitável público, ninguém tem imunidade quanto à honra citada ao título citado, segundo as leis do Tratado. Por exemplo, jornalistas de qualquer lugar do mundo, que se colocam em uma posição mais importante do que a notícia ou do entrevistado, do tipo “Aí eu disse para o Gutemberg...” ou “O ministro me disse...”, dando um caráter pessoal ao noticiário do mundo, já têm passagem reservada.
Pessoas que só conseguem conversar com o auxílio do polegar, de variável intensidade, empurrando o nosso peito enquanto vendem seu peixe, também são passageiros infalíveis do navio. Outros falam desnecessariamente, colados no seu ouvido, coisas triviais e gritando.
Outra modalidade são as doutas criaturas que utilizam um linguajar repleto de frases ou palavras que parecem vindas de outra galáxia, eximindo-se da compreensão popular quando o objetivo da categoria a que pertencem seria justamente fazer a plebe rude entender a clarividência do interesse do país. Por exemplo, distribuir frases soltas em latim.
Um discurso que para mim insere-se entre o latim, o javanês e o japonês. Os juízes, magistrados, com as sempre honrosas exceções. Isso obriga o pobre cidadão a contratar advogados, que também não explicam nada, em sua maioria, mas eles lá se entendem. Afinal, um causídico foi ou será um juiz ou desembargador. Uma coisa é certa: tudo o que seria de fácil interpretação popular “transita em julgado”, pelo menos no meu julgado, além das fabulosas e criativas instâncias e outros truques que controlam todos os caminhos.
Coisa chata isso.
É chato pra cachorro (nada com você Dorian Gray, meu cão) a obrigatoriedade do voto pra isso ou pra aquilo, do presidente ao síndico. Que chato. No meu modesto entender, em uma democracia nada disso poderia ser obrigatório.
O mesmo não acontece onde deveria. No legislativo, vota quando quer. E olha que é o voto desse povo que conta. O nosso povo é só pra fazer volume. O país não é legislado por legisladores, não é presidido pelo presidencialismo.
Diferente dos bandidos das favelas brasileiras. Lá tem lei. Coisa criminosa, mas tem..
Coisa chata que causa vergonha. A senhora fique certa: quando um chefão desses miseráveis, entulhados de armas letais, manda fechar uma rua, fecha, se mandar não sair sem máscara, não sai. A hierarquia é por mérito, seja lá qual for. A lei deles lá é obedecida. Por aqui, nem quem manda, obedece. Pelo contrário.
Agorinha mesmo, o rádio da minha doméstica anuncia o leilão das pedras roubadas por Sergio Cabral e digníssima esposa , entre outras sacanagens. Olha onde foram parar os votos da gente. É chato, é muito chato.
Dorian Gray, o cão, está chatíssimo.