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José Antonio Martinuzzo

Artigo de Opinião

Isolamento

Estamos doentes de distância desde bem antes da pandemia

Tempos insanos estes. Há milênios, Aristóteles assinalou nossa marca de animais políticos, ou seja, o fato de que precisamos do semelhante
José Antonio Martinuzzo

Públicado em 

02 ago 2020 às 14:00
Em meio à pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa
A pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa Crédito: iStock/Divulgação
Há um tempo, tornamo-nos doentes de distância. E a cura desse mal ainda não sorri no nosso horizonte sem viço. Mas entramos numa nova fase dessa comorbidade viralizada como efeito colateral da Covid-19. No sobe e desce das curvas estatísticas, a pandemia, que já nos colocou no deserto do isolamento geográfico, em sua nova fase de platô morro abaixo nos move para a encruzilhada dos descolamentos neuróticos por excelência.
Enquanto a medida da distância, ou da doença, era o isolamento total, o remédio vinha recomendado em doses de confinamento sem meias medidas. Quando a flexibilização do distanciamento se torna a nova realidade, entra em cena a dosimetria dos centímetros que devemos guardar do semelhante que pode portar o vírus da morte a nos aniquilar, ainda que pareça o mais saudável de todos.
Assim, nesta nova fase da doença da distância, não é só a régua das lonjuras que neurotizam o enquadrado movimentar, há a loucura do olhar. Explica-se: como guardar a devida distância de uma miragem? Uma miragem de morte que pode ser pura e simplesmente a imagem real de um semelhante a desejar tão somente o nosso impossível abraço de igual, ou um toque que seja, num mínimo gesto de aproximação a mais.
Nesse passo a passo comedido pela tragédia é que entra cena uma espécie de troca de olhares doentios, padecidos de desamparo e de pânico. Justamente num momento em que sobrou tão pouco de nossas faces embalsamadas pelas máscaras do sufoco além da potência dos nossos olhares. Olhares que, na falta de um aperto de coração a coração, podem mesmo abraçar.
Tempos insanos estes. Há milênios, Aristóteles assinalou nossa marca de animais políticos, ou seja, o fato de que precisamos do semelhante. Freud, na vizinhança de século, iluminou de modo ímpar na história a imposição do outro como condição vital à nossa existência e invenção como sujeitos.
Que a vacina do alívio nos imunize não só do mal que mata o corpo. Que seu efeito seja mesmo o de nos curar da doença da distância, aquela que empalidece nossas almas porque ataca nossa essência de existir pertinho do outro. Tomara, mas não será fácil. Afinal, seus sintomas já se sentiam bem antes da peste do distanciamento. 
O autor é doutor em Comunicação, pós-doutor e Mídia e Cotidiano, professor e pesquisador na Ufes
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