A humanidade encontra-se na atualidade apanhada por uma grave pandemia, ligada a um sistema econômico que não busca a produção de bens e serviços necessários à comunidade humana, mas a promoção de uma competitividade implacável, anulando as possibilidades de uma cooperação do bem comum da sociedade.
Por isso, quando ouvimos falar em “crise do coronavírus”, não é só uma crise sanitária, mas uma crise da humanidade. A sociedade tem se dirigido em marcha de um mundo objetivamente inumano. A capacidade de consciência crítica está sendo sequestrada, isto é, não se pergunta pelos fins, não se fala do sentido que tem a história da humanidade, nem qual o lugar do ser humano na Terra.
Refletir as consequências humanas das decisões inumanas, analisá-las e levá-las em conta são condições necessárias para qualquer vivência verdadeiramente humana. Por que a lógica do poder do mais forte, e não o reconhecimento do outro, para as relações entre os povos? Por que tanta competitividade entre as pessoas, negando a humanidade do outro? Por que tanta fake news, teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo? Questionamentos que exigem a implicação de todos.
Nossa sociedade está desconcertada. Nossos tempos não são fáceis para a esperança. Assim, temos que adaptar nossos olhos à escuridão destes momentos e buscar perceber sinais de esperança. É necessário lutar por grandes causas em prol da humanidade que pedem tempo, trabalho e perseverança. É reaprender a ter esperança e tornar a realidade com o aporte de gerações inteiras, com a contribuição de cada pessoa na construção de uma sociedade mais justa e ética.
Entretanto, a humanidade precisa caminhar em direção de uma reestruturação do amor e do valor da vida. Outro vírus muito mais benéfico também deve se espalhar e, se tivermos sorte, irá nos infectar: o vírus do pensar em uma sociedade alternativa.
Precisamos animar e aplaudir a coragem daqueles que nunca foram premiados pelo sucesso financeiro e ensiná-los que a vida é um grande prêmio. Que possa existir entre todos mais vontade de justiça, mais determinação para trabalhar pelo bem comum e mais capacidade de regenerar até mesmo a própria política, para que tecendo um horizonte de sentido humano em uma sociedade consumista que deixou de sonhar, pensarmos criticamente e lutar pela vida.
*O autor é professor de Filosofia da Rede Estadual de Educação do ES