Dizem meus colegas de Academia que se não fosse pela obra de Donald Winnicott, eu teria morrido de fome e não saberia ensinar nem aprender, o que é a mesma coisa. Concordo.
Aproveito para lembrar do amigo e orientador Júlio de Mello Filho, referência das mais qualificadas nos requintes da relação entre quem nasce e quem cuida, e que me fez capaz de internalizar e compreender um insólito novo, que não é de “novidade”, mas de renascimento.
Me pegou pela mão e ensinou-me os caminhos do transitar que desabrocham no que Freud chamou de “Transferência’’, um espaço potencialmente capaz de sustentar e produzir mudanças desde o inconsciente, que se instala entre sujeito e objeto. E, com dispêndios e manhas, produz o novo. Isto é, a capacidade de conviver com a dúvida e, com isso, transitar. Só os idiotas não têm dúvidas. Por isso, os objetos que “se transmutam” é o que buscamos na análise.
Os tais objetos transicionais compartilham o novo de cada um. São os elementos que estão aí para justificarem, por exemplo, uma mera sessão de análise. Determinam a criação da diferença entre um estado pré e pós-encontro terapêutico, o ato psicanalítico. Exercita a relação entre recusa e aceitação, dinamicamente. Aí estão objetos e os fenômenos transicionais.
Na ‘’área de trânsito’’ da realidade interna para a externa, do eu para o não-eu, do narcisismo primário para as relações objetais, passeiam os objetos transicionais, que cumprem a função de proporcionar um segmento de integração/desintegração, que torna contínuo o descontínuo e que permite uma ‘’área de experimentação’’ para os processos de separação e individualização nesta incrível mágica.
No momento adequado, os objetos transicionais são desejáveis ou mesmo indispensáveis para o desenvolvimento do bebê. Depois eles têm aquele destino dos brinquedos e hábitos de seu tempo no mundo, sofrem um progressivo desinteresse ou, como poeticamente escreveu Winnicott, são reservadas ao limbo. Falar sobre as formas de fusão dos objetos em fenômenos transicionais depende do “imprevisível”.
As patologias que primam por uma anormal ansiedade de separação, por falhas ambientais e/ou por deficientes internalizações transmutadoras e, consequentemente, déficits na constituição de um self, determinarão o destino dos objetos e fenômenos transicionais, levando-os a formatos imprevisíveis (leiam o “Brincar e a Realidade”, de Winnicott).
Ao invés de serem descaracterizados e substituídos por objetos externos reais, ou por objetos internos fantasmáticos, são mantidos em suas disposições transicionais primárias e imutáveis. Permanecem num apego, num traço de dependência e insegurança que mal toleram as experiências de perdas ou separações.
Pode-se pensar que nessas situações existe a própria função de ‘’transicionalidade’’. Ou melhor, mudanças.
A importância de conceber a existência de um espaço potencial vivo e essencialmente capaz de mudanças futuras arranca a pessoa do passado crônico patológico. E o futuro se dá.
Dorian Gray, meu vira-latas, fez 15 anos.