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É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio. Escreve às terças

Brasil versus Argentina é um clássico "inimigos inseparáveis"

No país, passando pelo samba de breque e de enredo, há sempre uma lágrima caindo, o que não desqualifica em nada a cantoria popular, seja lá no Norte, no Sul, no Leste ou no Oeste. E nem lhe rouba a alegria, muito pelo contrário

Publicado em 01/09/2020 às 05h02
Violão
Sorteio um tango, e violão baixinho e voz rouca tento imitar os cantantes, diz o autor. Crédito: Pixabay

Jorge Luis Borges, a perfeição do texto argentino, homenageado com o Oscar portenho, é o autor da frase mais bela que conheço sobre um país: “Buenos Aires é tua única mulher e ela não te quer”. Lindo, não?

Por circunstâncias várias, conheço bem e amo aquela cidade, que me encanta especialmente com uma definição sobre a paixão, com dispêndios e manhas. Não posso esquecer seu objeto de desejo da maior importância: o livro. A literatura em todas as formas e origens invade aquele reino, com som e alma “caliente”.

Nestes tempos, exerço o meu papel de zumbi da madrugada, catando livros, maltratando cordas, bordões e teclado de piano antigo, porém decente, marcando texto para a fúria tolerante da amável vizinhança do edifício Santa Luzia, nesta Praia do Canto, a Rua da Jaca.

Dou de cara com uma preciosidade literária. Escondera-se entre uma antologia de Elizabeth Roudinesco e um livro de Quino. A obra secreta de Juan Russo e Santiago Marpegán, já faz tempo, intitulado “Antologia e Letras de Tango”.

Abro o livro na sorte, sem ver o índice. Surgiu “El dia que me quieras”, de 1935, de Alfredo Lepera e Carlos Gardel, que todo mundo acha que nasceu em Caminito, pequeno porto da cidade, mas que na verdade veio à luz em Toulouse, França, em 1890, com o nome de batismo Charles Romuald Gardés.

Logo vou para a letra do primeiro tango sorteado. Violão baixinho, voz rouca, querendo imitar os cantantes, coloco um chapéu, peço para baixar no meu espírito santo, e mando ver: “Acaricia mi ensueño, el suave murmullo de tu suspirar, como rie la vida se tus ojos negros me quieren mirar; e si es mio el amparo de tu risa leve, que es como um cantar... ella aquieta mi herida, todo, todo se olvida...”.

Em sinal de reverência, passo para “Nostalgias”, de 1936, composição de Domingo Enrique e Juan Carlos Cobián: “Quiero emborrachar mi corazón para apagar um loco amor, que más que amor es um sufrir (...) Nostalgias de escuchar su risa loca y sentir junto a mi boca, como um fuego su respiración...”.

As clássicas melodias sempre falam de dor. Tom Jobim fez essa observação dizendo que suas mais cantadas canções buscavam a alegria de estar no mundo: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar...”.

“Corcovado” toca-se por si mesma: “Quero a vida sempre assim com você perto de mim. Até o apagar da velha chama. E eu que era triste, descrente deste mundo, ao encontrar você, eu conheci o que é felicidade”.

No Brasil, passando pelo samba de breque e de enredo, há sempre uma lágrima caindo, o que não desqualifica em nada a cantoria popular, seja lá no norte, no sul, no leste ou no oeste. E nem lhe rouba a alegria, muito pelo contrário.

Dizem que Santo Agostinho gostava de dançar, com todo o respeito.

Dorian Gray, meu cão vira-lata, tentando hablar.

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