Roubei do rapper o título do texto: pequenas alegrias da vida adulta. Mesmo que pese o desespero dos novos tempos, como ele diz, é preciso respirar por um momento, repousar o espírito antes de voltar, ser luz em dias cinzas, celebrar as conquistas simples de qualquer dia, hoje, ontem, mês passado.
Roubei do rapper o espírito do texto: pequenas alegrias da vida adulta. Nos dias do carnaval que não houve, era preciso buscar leveza e movimento, colocar a ausência em perspectiva, valorizar o estar vivo num tempo de dois milhões de mortos.
Roubei por fim o objetivo do texto, escrito nos dias do carnaval que não houve, para nos lembrar da beleza guardada nas pequenas alegrias da vida adulta, mesmo que pese o desespero dos novos tempos.
Uma receita que deu certo, chegar ao final de um livro, caminhar ao ar livre, cumprir os prazos de entrega, encontrar um marceneiro dos bons, acabar a obra, pagar os boletos, receber ajuda nos dias em que a barra pesa, dormir sem pesadelo, acordar com propósito, o Sol em Aquário, o sol na cabeça.
Meu gato conjugando o verbo ronronar no presente do indicativo, enquanto listo as pequenas alegrias da vida adulta. A hora da chegada, a louça lavada, as madrugadas na melhor companhia, as histórias que sem querer colecionamos, os encontros que deveríamos retomar tão logo seja possível.
Ou então, como na canção: um sábado de paz onde se dorme mais, o gol da virada, um feriadão nos litorais, o tupperware em que a tampa ainda encaixa, um presente feito de guache e papel… Pequenas alegrias da vida adulta que roubei do rapper quando era preciso buscar leveza e movimento, colocar a ausência em perspectiva, valorizar o estar vivo num tempo de dois milhões de mortos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta