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Crônica

Pequenas alegrias da vida adulta

Uma receita que deu certo, chegar ao final de um livro, caminhar ao ar livre, cumprir os prazos de entrega, encontrar um marceneiro dos bons, acabar a obra, pagar os boletos...

Públicado em 

21 fev 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Caminhada
Foi preciso buscar leveza e movimento, colocar a ausência em perspectiva, valorizar o estar vivo num tempo de dois milhões de mortos Crédito: fotodinero/Freepik
Roubei do rapper o título do texto: pequenas alegrias da vida adulta. Mesmo que pese o desespero dos novos tempos, como ele diz, é preciso respirar por um momento, repousar o espírito antes de voltar, ser luz em dias cinzas, celebrar as conquistas simples de qualquer dia, hoje, ontem, mês passado.
Roubei do rapper o espírito do texto: pequenas alegrias da vida adulta. Nos dias do carnaval que não houve, era preciso buscar leveza e movimento, colocar a ausência em perspectiva, valorizar o estar vivo num tempo de dois milhões de mortos.
Roubei por fim o objetivo do texto, escrito nos dias do carnaval que não houve, para nos lembrar da beleza guardada nas pequenas alegrias da vida adulta, mesmo que pese o desespero dos novos tempos.
Uma receita que deu certo, chegar ao final de um livro, caminhar ao ar livre, cumprir os prazos de entrega, encontrar um marceneiro dos bons, acabar a obra, pagar os boletos, receber ajuda nos dias em que a barra pesa, dormir sem pesadelo, acordar com propósito, o Sol em Aquário, o sol na cabeça.
Meu gato conjugando o verbo ronronar no presente do indicativo, enquanto listo as pequenas alegrias da vida adulta. A hora da chegada, a louça lavada, as madrugadas na melhor companhia, as histórias que sem querer colecionamos, os encontros que deveríamos retomar tão logo seja possível.
Ou então, como na canção: um sábado de paz onde se dorme mais, o gol da virada, um feriadão nos litorais, o tupperware em que a tampa ainda encaixa, um presente feito de guache e papel… Pequenas alegrias da vida adulta que roubei do rapper quando era preciso buscar leveza e movimento, colocar a ausência em perspectiva, valorizar o estar vivo num tempo de dois milhões de mortos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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