Gosto de fevereiro por muitos motivos: aniversário, o espírito livre de Aquário, as chegadas que ele geralmente promove, o samba que quase sempre se ouve, uma história de carnaval em especial. Gosto em particular da memória do modernismo impregnada nos 28 dias do segundo mês do ano - às vezes 29. Gosto do fato de que fevereiro nos lembra o quanto devemos ser modernistas, sempre que possível.
Ser modernista significa ter raízes, mas não âncoras. Significa derrubar muros e construir pontes, apesar de todo o clichê. Ser modernista é sair da bolha, celebrar a diversidade, abrir espaço para assimetrias, combinar discordâncias, incluir opostos.
Ser modernista é recriar, renovar, revigorar a cultura, da periferia para o centro, das partes para o todo, das diferenças para o diálogo.
Quase um século depois da Semana de Arte Moderna de Tarsila, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, ser modernista é exaltar a liberdade de expressão, superar o conservadorismo, deixar para trás padrões de pensamento que não cabem mais, manter os costumes em constante movimento.
Como Portinari, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Villa-Lobos e tantos outros nos mostraram em fevereiro de 1922 e desde então, ser modernista é combinar arte com realidade, política com poesia, espírito fresco com a dureza da vida.
Ser modernista é colocar leveza na missão de transformar este país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente desigual.
Ser modernista talvez seja quebrar pedras como quebrou o padre Júlio Lancelotti, a marretadas, do alto de seus 72 anos, em defesa dos moradores de rua que se multiplicam na pandemia. Ser modernista talvez seja resistir à falta de sensibilidade que nos anestesia, à política que estimula o extermínio, ao descaso no lugar do cuidado.
Ser modernista em 2021, como foram Tarsila, Bandeira, Portinari, Anita, Di Cavalcanti, Villa-Lobos, Guilherme de Almeida e tantos outros em fevereiro de 1922, certamente faria bem ao Brasil.