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Seguindo em frente

Janeiro voou, mas seguimos respirando, e isso é um privilégio

De repente, lá se foram 31 dias em que nos equilibramos entre a vontade de dançar, sair, sorrir e a carga dos acontecimentos

Publicado em 31 de Janeiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

31 jan 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Mulher respirando
Respirar nos acalma e nos mantém vivos Crédito: jcomp/Freepik
É um clichê e tanto, eu sei, mas vocês viram como o ano começou voando? Piscamos, e janeiro já era. Entre as inacreditáveis idas e vindas da vacina, as más notícias que vêm de longe, o oxigênio que falta, a falta de norte e a própria morte com seus números imensos, vimos o mês passar veloz e furioso como a franquia ligeira dos filmes de ação.
Parece que foi ontem que buscávamos no Google o cardápio para a ceia da virada: um bicho que cisca para a frente, lentilhas da prosperidade, o brinde certo, as esperanças imprudentemente colocadas no ano novo…
De repente, lá se foram 31 dias e respectivas noites, como no romance, em que nos equilibramos entre a esperança de amanhãs melhores e o horror, entre a vontade de dançar, sair, sorrir e a carga dos acontecimentos, entre o balanço dos novos projetos e o peso dos sonhos desfeitos.
Seguimos respirando, felizmente.
Há que se reconhecer o privilégio que atualmente significa respirar. Apesar da pandemia, apesar da política que estimula o sarcasmo e o extermínio no lugar do cuidado, apesar de tudo, há que se reconhecer o privilégio que, atualmente, significa respirar. Há que se reconhecer o privilégio de respirar, apesar das ausências, das estatísticas sentadas no sofá da sala, dos que se foram, da maldade, das durezas, de janeiro ter voado, de tudo.
Respirar é, ao mesmo tempo, básico e complexo, muito real e super simbólico, traqueia, brônquio, pulmão e metafísica a serviço da anatomia, da química e da poesia.
Um adulto parado respira em média 16 vezes por minuto, 23 mil vezes por dia, 250 milhões de vezes ao longo de 30 anos.
Graças à respiração, somos capazes de nutrir as células do corpo, gerar energia e trocar impurezas por ar vital. Respirar alivia as tensões, rejuvenesce a pele, reduz a pressão das artérias, faz um bem danado. Respirar nos acalma e nos mantém vivos.
Ao mesmo tempo, respirar nos permite compreender escolhas, digerir perdas, assimilar desencontros, aquietar o peito. Respirar é o alívio dos prazos de entrega cumpridos, os boletos em dia, o refresco das chuvas de verão, a brisa leve do próprio verão em si. Respirar são as boas companhias a despeito do que falta, os pequenos alentos, o abraço que esperamos dar no fim da pandemia.
Respirar nos faz seguir em frente.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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