Tenho ouvido algumas pessoas dizendo que 2020 é um ano pra ser esquecido. Trata-se de um jogo de palavras, claro, afinal quem passou pelo que passou, jamais o esquecerá. Foi um ano de inúmeros aprendizados, pra bem ou pro mal...
Por exemplo: fomos obrigados a abortar todas aquelas viagens que estavam planejadas, seja para lazer com a família, seja participar de eventos técnico-científicos. O jeito foi ficar confinado em casa, que se tornou nosso pequeno-grande mundo, onde redescobrimos espaços, lugares, cantos, imagens que até então se encontravam despercebidos no nosso dia-a-dia.
Tal experiência, que forçou uma nova compreensão das relações afetivas (muitos casais se reaproximaram, outros se separaram), proporcionou diversas descobertas, novas experiências, novos gostos, entre eles, para muitos de nós, o prazer gastronômico de fazer a própria comida ou o interesse (adormecido) em praticar alguma arte ou artesanato. Segundo dados do setor, nunca se vendeu tanto instrumento musical quanto na pandemia! Ponto pra cultura!
Ficando muito tempo em casa, começamos a nos dar conta da importância e até da simplicidade da separação do lixo orgânico do lixo seco, vendo as vantagens de separá-los até mesmo no espaço doméstico, facilitando seu descarte, minimizando odores, etc. Ponto pro meio ambiente!
Muita gente descobriu o comércio de bairro, passando a fazer compras nas lojas próximas de casa, evitando deslocar-se para outras áreas das suas cidades. Mais um ponto pro meio ambiente! E pra economia local, que também é um componente da sustentabilidade.
Por outro lado, o isolamento também provocou o desejo de muita gente em migrar para áreas menos adensadas: quem mora em prédio querendo ir pra um condomínio horizontal, e pra aqueles que podem, até mesmo mudando-se para áreas rurais em cidades interioranas.
Não obstante, o adensamento vinha sendo defendido como uma medida ambiental pró mobilidade urbana, proporcionando menores deslocamentos da população citadina, bem como uma ação social em termos de política pública, pois havia preocupação na realocação de pessoas de baixa renda nas áreas centrais desocupadas.
Num futuro próximo saberemos quais serão as consequências dessas mudanças comportamentais para o planeta. 2020 também mostrou, principalmente no cenário brasileiro, a quantidade de gente que despreza a vida humana... Empatia é uma palavra que entrou na moda, mas que nunca esteve tão longe da realidade.
A quantidade de pessoas em festas (clandestinas), aglomeradas, sem máscaras, desdenhando das centenas de milhares de mortos no país é suficiente para demonstrar a falta de empatia dos brasileiros. E agora ainda vemos campanhas, correntes em redes sociais, de muitos que são contra a vacinação. Milhões de brasileiros que são a favor das armas, mas contra as vacinas...
“Na morte eu descanso / Mas o sangue anda solto (...) Que país é esse? / Que país é esse?”, salve Renato Russo!
Já pra aqueles que assumem os protocolos sanitários como medida de proteção, como é o caso da máscara, é possível admitir que seu uso é das coisas mais chatas que fomos obrigados a adotar nos últimos tempos. Lavar a mão ou passar o álcool gel não tem tanto problema quanto ficar com a boca e o nariz tapados, respirando com dificuldade e escondendo parte dos nossos rostos (acho que nem mesmo as mulheres, que poderiam aproveitar para economizar algum dinheiro em batons, estão gostando disso).
Mas talvez seja apenas uma digressão de quem vive num país tropical em pleno verão, pois é provável que para aqueles que moram em lugares friorentos durante boa parte do ano, a máscara seja apenas mais um dos adereços necessários para enfrentar um clima congelante.
Acredito, porém, que a correta higienização das mãos e dos alimentos comprados em feiras e supermercados veio pra ficar. Pode dar trabalho, principalmente no caso dos alimentos, mas nos damos conta da sua importância, afinal são coisas que trazemos para casa para comer, e que entrarão em nosso organismo. Ponto pra saúde!
Quando a vacinação for concluída, imunizando a população (que ela venha logo!), talvez velhos hábitos como o cumprimento com beijos, abraços e apertos de mão voltem. Mas acho que muitos preferirão manter o novo gesto do cumprimento tocando as mãos fechadas, que certamente é mais higiênico.
Enfim, em 2020 não nos faltaram experiências inéditas, novos aprendizados, nova compreensão das coisas. E de todas elas, tiraremos lições pra tocar a vida adiante.
Sou dos que creem na ciência, na sua capacidade em transformar nossa relação com a natureza. Assim como no poder da arte em oferecer uma visão poética capaz de fazer do mundo um lugar belo e sensível. Ou na filosofia, que tenta nos explicar o mundo, com todas suas indiossincrasias. E até mesmo na política, como meio de articular as relações sociais dos diversos grupos que compõem uma sociedade cada vez mais complexa.
Pena que faltem políticos (nem que fosse um apenas) que tenham tal compreensão...