A pandemia provocou um curioso paradoxo: de um lado, nos demos conta da finitude do nosso corpo físico que tanto tem nos criado uma situação de pânico ou terror, haja vista a enorme quantidade de pessoas mortas em todo o mundo; do outro, nunca se consumiu tanto conteúdo digital, que, sob determinado aspecto, inexiste, afinal no digital não há corporeidade, não há matéria. De certo modo, trata-se de uma longa dialética na história humana, traduzida na relação entre corpo e alma, tão cara à Igreja ou, ainda, entre forma e conteúdo, neste caso, relacionada à arte, ou, simplesmente, entre o mundo real e o virtual.
Haveria de se perguntar a algum especialista no assunto sobre o momento da história no qual o mundo digital suplantará o físico, isso se tal fato já não ocorreu e ninguém ainda se deu conta.
Neste ponto, lembro-me de uma entrevista do escritor Gabriel García Márquez, na época em que ele já tinha abandonado a máquina de datilografar e usava o computador e a internet começava a se popularizar, na qual ele dizia que após um dia de trabalho tinha necessidade de imprimir e ver no papel o texto escrito, pois o que estava dentro da máquina poderia simplesmente desaparecer sem vestígio e nunca ter existido.
Quem nunca perdeu por distração, acidente ou por causa de algum vírus tudo que tinha gravado na memória do computador ou no celular?
Já o cineasta Fernando Meirelles afirmou, também em outra entrevista, que o formato digital provocou um excesso de refilmagens desnecessárias de uma mesma cena, já que não havia mais o “custo” da película, criando o paradoxo do enorme trabalho de edição para escolher o que deveria ir pra montagem final, assim como obrigou o arquivamento de um imenso material filmado, boa parte dele descartável, ao contrário do que se fazia antes, quando tudo tinha que ser cuidadosamente planejado.
Hoje o que se vê é um certo fascínio das novas gerações sobre quase tudo o que é digital, mesmo que a maior parte do que se produz tenha qualidade questionável. Como não faltam ferramentas para produzir conteúdos digitais, todo mundo se sente motivado e vai se fazendo de tudo, inclusive muita porcaria, tornando a tarefa de identificar o que vale mesmo a pena conhecer, aproximar-se, interagir, refletir, sensibilizar-se algo cada vez mais árduo.
Há, porém, quem defenda que este é um processo recente, ainda em maturação, cujo amadurecimento se dará progressivamente, até que se estabeleça um filtro sociocultural autônomo, capaz de revelar quais conteúdos possuem relevância. Além disso, por meio dos programas informáticos, aplicativos e plataformas digitais, extremamente acessíveis, houve uma enorme democratização do processo produtivo, o que desbancou enormes estruturas que muitas vezes tinham apenas papel burocrático de intermediação.
Como se sabe, na maioria das vezes o digital representa grande vantagem econômica em relação ao físico, pois a matéria, além de ocupar espaço, também precisa ser extraída, transportada, empilhada, transformada, e assim por diante...
Eu mesmo, um amante de livros e com uma grande coleção de revistas de arquitetura, confesso que não sei o que fazer com elas, pois além de ocupar um bom espaço nas estantes, acumulando poeira, provavelmente não voltarei a consultá-las, pois é muito mais fácil realizar alguma pesquisa nos dias atuais pela internet. Já até ofereci as revistas para bibliotecas públicas, mas elas tampouco demonstraram interesse em recebê-las. Lá também falta espaço, gente para organizá-las e, quem sabe?, leitores que buscam tal conteúdo específico.
Mas, com todas as possibilidades abertas pelo mundo digital, a moda agora, como temos visto atualmente nas redes sociais, é cada pessoa configurar seu avatar. Retirado da terminologia hindu, e que mais tarde se tornou o nome de um dos filmes hollywoodianos mais rentáveis da história (dirigido por James Cameron), o avatar dos dias atuais representa a personificação de alguém no modo virtual, um bonequinho digitalizado capaz de substituir a corporeidade humana que, até agora, não pôde entrar para o outro lado da tela, como fez, por exemplo, o personagem de Jeff Bridges no filme "Tron - O Legado", outra produção norte-americana de ficção científica.
Não sei se um dia isso se tornará realidade. Mas, aparentemente, estamos cada vez menos preocupados com o real, com o aqui e agora, nos satisfazendo apenas com o mundo virtual.
Milhares de pessoas morrem, e o que se ouve como resposta é um “e daí?, todos vamos morrer dia”. Aglomerações nos bares, multidões nas praias, grande parte ou quase todos sem máscara, como se ali só houvesse bonecos mecânicos com circuitos digitais. Jogamos lixo nas ruas, nos rios, tacamos fogo nas matas, sem nenhum remorso, apenas preocupados em aparecer sorrindo na self a ser postada.
Da minha parte, preciso admitir que não abandonarei a minha coleção de discos em vinil e CD, prefiro desenhar à mão e ainda resolvi comprar um autorama pra brincar em casa com meu filho.