Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Internet

Pandemia intensificou os conflitos entre real e virtual

De um lado, nos demos conta da finitude da nossa matéria; do outro, nunca se consumiu tanto conteúdo digital. Trata-se de uma longa dialética na história humana, traduzida na relação entre corpo e alma

Públicado em 

29 out 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Delivery: consumidores passaram a pedir não só comida por aplicativos. Compra de objetos por meio dessas plataformas cresceu depois do fechamento das lojas físicas.
Hoje o que se vê é um certo fascínio das novas gerações sobre quase tudo o que é digital Crédito: Kerde Severin/ Pexels
A pandemia provocou um curioso paradoxo: de um lado, nos demos conta da finitude do nosso corpo físico que tanto tem nos criado uma situação de pânico ou terror, haja vista a enorme quantidade de pessoas mortas em todo o mundo; do outro, nunca se consumiu tanto conteúdo digital, que, sob determinado aspecto, inexiste, afinal no digital não há corporeidade, não há matéria. De certo modo, trata-se de uma longa dialética na história humana, traduzida na relação entre corpo e alma, tão cara à Igreja ou, ainda, entre forma e conteúdo, neste caso, relacionada à arte, ou, simplesmente, entre o mundo real e o virtual.
Haveria de se perguntar a algum especialista no assunto sobre o momento da história no qual o mundo digital suplantará o físico, isso se tal fato já não ocorreu e ninguém ainda se deu conta.
Neste ponto, lembro-me de uma entrevista do escritor Gabriel García Márquez, na época em que ele já tinha abandonado a máquina de datilografar e usava o computador e a internet começava a se popularizar, na qual ele dizia que após um dia de trabalho tinha necessidade de imprimir e ver no papel o texto escrito, pois o que estava dentro da máquina poderia simplesmente desaparecer sem vestígio e nunca ter existido.
Quem nunca perdeu por distração, acidente ou por causa de algum vírus tudo que tinha gravado na memória do computador ou no celular?
Já o cineasta Fernando Meirelles afirmou, também em outra entrevista, que o formato digital provocou um excesso de refilmagens desnecessárias de uma mesma cena, já que não havia mais o “custo” da película, criando o paradoxo do enorme trabalho de edição para escolher o que deveria ir pra montagem final, assim como obrigou o arquivamento de um imenso material filmado, boa parte dele descartável, ao contrário do que se fazia antes, quando tudo tinha que ser cuidadosamente planejado.
Hoje o que se vê é um certo fascínio das novas gerações sobre quase tudo o que é digital, mesmo que a maior parte do que se produz tenha qualidade questionável. Como não faltam ferramentas para produzir conteúdos digitais, todo mundo se sente motivado e vai se fazendo de tudo, inclusive muita porcaria, tornando a tarefa de identificar o que vale mesmo a pena conhecer, aproximar-se, interagir, refletir, sensibilizar-se algo cada vez mais árduo.
Há, porém, quem defenda que este é um processo recente, ainda em maturação, cujo amadurecimento se dará progressivamente, até que se estabeleça um filtro sociocultural autônomo, capaz de revelar quais conteúdos possuem relevância. Além disso, por meio dos programas informáticos, aplicativos e plataformas digitais, extremamente acessíveis, houve uma enorme democratização do processo produtivo, o que desbancou enormes estruturas que muitas vezes tinham apenas papel burocrático de intermediação.
Como se sabe, na maioria das vezes o digital representa grande vantagem econômica em relação ao físico, pois a matéria, além de ocupar espaço, também precisa ser extraída, transportada, empilhada, transformada, e assim por diante...
Eu mesmo, um amante de livros e com uma grande coleção de revistas de arquitetura, confesso que não sei o que fazer com elas, pois além de ocupar um bom espaço nas estantes, acumulando poeira, provavelmente não voltarei a consultá-las, pois é muito mais fácil realizar alguma pesquisa nos dias atuais pela internet. Já até ofereci as revistas para bibliotecas públicas, mas elas tampouco demonstraram interesse em recebê-las. Lá também falta espaço, gente para organizá-las e, quem sabe?, leitores que buscam tal conteúdo específico.
Mas, com todas as possibilidades abertas pelo mundo digital, a moda agora, como temos visto atualmente nas redes sociais, é cada pessoa configurar seu avatar. Retirado da terminologia hindu, e que mais tarde se tornou o nome de um dos filmes hollywoodianos mais rentáveis da história (dirigido por James Cameron), o avatar dos dias atuais representa a personificação de alguém no modo virtual, um bonequinho digitalizado capaz de substituir a corporeidade humana que, até agora, não pôde entrar para o outro lado da tela, como fez, por exemplo, o personagem de Jeff Bridges no filme "Tron - O Legado", outra produção norte-americana de ficção científica.
Não sei se um dia isso se tornará realidade. Mas, aparentemente, estamos cada vez menos preocupados com o real, com o aqui e agora, nos satisfazendo apenas com o mundo virtual.
Milhares de pessoas morrem, e o que se ouve como resposta é um “e daí?, todos vamos morrer dia”. Aglomerações nos bares, multidões nas praias, grande parte ou quase todos sem máscara, como se ali só houvesse bonecos mecânicos com circuitos digitais. Jogamos lixo nas ruas, nos rios, tacamos fogo nas matas, sem nenhum remorso, apenas preocupados em aparecer sorrindo na self a ser postada.
Da minha parte, preciso admitir que não abandonarei a minha coleção de discos em vinil e CD, prefiro desenhar à mão e ainda resolvi comprar um autorama pra brincar em casa com meu filho.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Itália perde nos pênaltis e fica fora da Copa do Mundo pela terceira vez seguida
Imagem de destaque
OAB-ES vai sair do Centro de Vitória e construir nova sede na Enseada
Imagem de destaque
Marcenaria sob medida ou móveis planejados: veja qual opção escolher

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados