Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Comportamento

Pandemia estimulou migração ao revés, da cidade para o campo

Muitas pessoas se deram conta de que dava pra manter algum conforto, manter-se conectado e produtivo, mesmo estando relativamente distante dos grandes centros de produção e decisão

Públicado em 

22 out 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Vida interiorana pode ser capaz de trazer a paz e serenidade que muitos buscam
Vida interiorana pode ser capaz de trazer a paz e serenidade que muitos buscam Crédito: Laura Åkerblom/ Pixabay
“Eu quero uma casa no campo / Onde eu possa ficar no tamanho da paz / E tenha somente a certeza / Dos limites do corpo e nada mais” (Casa no campo, Zé Rodrix e Tavito)
Além do teletrabalho e das aulas online, uma das consequências da pandemia, entre várias outras, foi um relativo êxodo urbano, no qual muitas famílias que até então moravam em grandes cidades decidiram trocar de vida, passando a viver em zonas rurais junto a pequenos núcleos urbanos ou, como muitos costumam chamar, cidades do interior.
Trata-se de um fenômeno que se deu em diversas partes do mundo, na maioria das vezes com famílias que já possuíam uma segunda residência de final de semana. De uma hora pra outra, esse imóvel se tornou a moradia principal daqueles que viram a migração rumo ao interior como possibilidade de fuga do contágio pelo coronavírus, uma vez que nas grandes cidades, com sua maior densidade, há mais risco de se adquirir a Covid-19.
É claro que a chance de trabalhar e estudar remotamente se deu graças também à chegada da internet de alta velocidade às comunidades rurais, permitindo que as pessoas trocassem o cosmopolitismo da cidade grande pela tranquilidade interiorana.
Num primeiro momento, porém, os residentes originais das pequenas cidades ficaram assustados, pois muitos dos novos moradores acabaram levando consigo o coronavírus das metrópoles para o interior. Mas como em tais lugares normalmente não ocorrem grandes aglomerações de pessoas, o distanciamento social já é quase uma situação rotineira que minimizou o risco do contágio. A feira semanal e a missa dominical são algumas exceções, mas que ocorreram com protocolos específicos ou foram suspensas para evitar a propagação da doença.
Não obstante, a chegada de pessoas mudou a rotina das pequenas cidades e suas zonas rurais, com maior movimentação econômica, sentida principalmente no comércio local. Os novos moradores mudaram o cotidiano com novos hábitos de consumo, inaugurando uma nova etapa no desenvolvimento da vida interiorana.
O choque cultural foi recíproco, pois mesmo aqueles que já frequentavam esporadicamente as cidadezinhas acabavam sempre retornando para a agitação da grande urbe, com todos seus prós e contras: oportunidades de empregos e negócios; ampla oferta de serviços, incluindo especialidades médicas e hospitalares, equipamentos culturais e esportivos; e ensino superior, assim como engarrafamentos, violência urbana e maior custo de vida.
Por tudo isso, muitos urbanoides até já pensavam em inflexionar o rumo que suas vidas estavam tomando. Será que é hora de desacelerar? Vale a pena continuar neste corre-corre diário? Por que não aproveitar a deixa e começar “plantar e colher com a mão, a pimenta e o sal”?
Mas houve também aqueles que, de uma hora pra outra, se deram conta que dava pra manter algum conforto, manter-se conectado e produtivo, mesmo estando relativamente distante dos grandes centros de produção e decisão.
Já faz algum tempo que o povo da metrópole tem tentado compensar a agitação diária, com consequências nefastas para a saúde, por meio de atividades relaxantes, hobbies ou práticas esportivas. Ainda assim, às vezes parecia faltar tempo para ser dedicado a tais atividades, fosse por um engarrafamento provocado por um acidente de trânsito, uma reunião de última hora ou compras de supermercado naquele horário em que todo mundo parecia ter decidido fazer a mesma coisa.
Aparentemente, a pacata vida interiorana pode ser capaz de trazer a paz e serenidade que muitos buscam a partir de um momento da vida. Já que não dá pra fazer viagens longas, juntar a galera num bar ou dar um festão, por que não subir a serra, trilhar o rumo da estrada de chão e lá ficar compondo “muitos rocks rurais” ao lado do “filho de cuca legal”?
Ainda é cedo pra avaliar quais serão as implicações deste novo fenômeno da migração ao revés, isto é, da cidade pro campo. Será que, uma vez descoberta uma vacina contra a Covid-19, muitos decidirão retornar para o agito da metrópole? Quais serão as consequências do encontro cultural entre o cidadão cosmopolita e o provinciano? Haverá uma simbiose, uma harmonia, ou surgirão conflitos comportamentais a partir deste acercamento?
Muitas perguntas, só o tempo mostrará quais serão as respostas.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
O país da Europa que promete milhares de empregos a brasileiros e vistos que saem em 2 semanas
Imagem de destaque
Nó do pacto federativo: o subfinanciamento das médias e grandes cidades
Imagem de destaque
O Brasil que não para de dever, e a conta que todo mundo paga

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados