“Eu vi um Brasil na tevê / Capaz de cair um toró / Estou me sentindo tão só / Oh, tenha dó de mim” (Bye, bye Brasil / Chico Buarque, Roberto Menescal e Dominguinhos)
Há exatamente quatro décadas atrás, o cineasta Cacá Diegues nos presenteou com o filme “Bye Bye Brasil”. Tendo como protagonistas os atores José Wilker, Betty Faria e Fábio Jr., além da magistral música homônima cantada por Chico Buarque, “Bye Bye Brasil” era uma alegoria de um país em transformação. Um Brasil que muitos de nós sequer conhecíamos.
Se a questão principal que o argumento colocava para o espectador é o fim de uma época, marcada pelos mambembes da Caravana Rolidei, e o início de outra, simbolizada pela chegada da TV aos grotões do território brasileiro, e que vê sua paisagem redesenhada pelas antenas televisivas, o que salta mesmo é a nostalgia de um tempo em extinção em contraposição com a esperança de futuro para aqueles que ficaram à margem de um pretexto desenvolvimento que se dava em outras partes do país.
Daí que também é significativo o trecho, já na parte final do filme, quando a personagem de Marieta Severo, uma assistente social, ao percorrer Brasília com os migrantes recém chegados, diz: “o futuro está aqui no Planalto Central”.
Imaginava-se, porém, que o futuro de Brasília, ao conduzir o destino da nação brasileira, seria outro.
Talvez tenha sido sua juventude, ou imaturidade, afinal Brasília tinha tão somente 20 anos de vida quando Ciço (o personagem de Fábio Jr.), acompanhado por Dasdô (interpretada por Zaira Zambelli, outra protagonista da história), chegam à capital federal fugindo do atraso do norte do país.
Mas, como bem notou o renomado filósofo suíço Alain de Botton ao falar da arquitetura de Brasília, a modernidade arquitetônica da cidade traduz um projeto positivista de futuro, de um povo que busca (ou buscava) um destino grandioso e, por que não?, feliz.
Neste ponto, é importante ressaltar que tal arquitetura, isto é, a dos principais edifícios da capital, foram projetados por Oscar Niemeyer, o mais conhecido arquiteto brasileiro. E justamente agora em dezembro, mês do seu nascimento, comemora-se no Brasil o dia do arquiteto.
Niemeyer se dizia comunista, apesar de ter projetado para governos tanto de esquerda quanto de direita. Autoproclamar-se comunista nos dias atuais é tão fora de sentido quanto ser acusado de comunista. O comunismo, como se sabe, fracassou, haja vista a derrocada da União Soviética e dos demais países da Cortina de Ferro no final do século XX.
Hoje, no entanto, é comum vermos pessoas que se dizem de direita criticarem a todos que não concordam com determinados posicionamentos reacionários ou preconceituosos, chamando-os acintosamente de comunistas.
Trata-se, é claro, de uma tremenda abstração simplista de quem, aparentemente, não tem conhecimento histórico e prefere manter-se na ignorância ao invés de combater uma visão obscurantista que tanto tem dominado o debate político atual.
Neste Brasil atual, onde todos afirmam categoricamente “eu só ando dentro da Lei”, a conta não fecha. E aí, pelo jeito, não importa de qual lado você está, se à esquerda, à direita ou no centro, pois se tem a impressão que tá todo mundo junto nisso.
Na tal tevê em que Chico diz ter visto o Brasil, só vemos notícias de golpes, racismo, assaltos cinematográficos, líderes políticos ensandecidos, povo desdenhoso... A gente olha pro lado e pensa que não falta gente na fila esperando pintar “uma chance legal / um lance lá na capital”, e, melhor ainda, “nem tem que ter ginasial”.
Mas digamos que o sonho não tenha acabado. Então, onde ele foi parar? Em que ponto da história o tal futuro grandioso virou uma guerra ideológica?
Este Natal talvez seja, mais do que nos anos anteriores, o momento propicio para refletirmos sobre o que somos, aonde queremos chegar, mas, para isso, é importante uma trégua, abrir a guarda, descartar o ranço, sermos mais complacentes e gentis com o outro, e não só com os mais próximos a nós.
E aí, provavelmente, fará sentido cantar a todo gosto que “com a bênção do Nosso Senhor / O sol nunca mais vai se pôr”.
Correção
26/12/2020 - 8:15
Este artigo erroneamente disse que a música Bye, bye Brasil é de autoria de Chico Buarque e Renato Menescal. O correto é Chico Buarque e Roberto Menescal. A informação foi corrigida.