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Clima

Homem não controla a natureza, mas aprende a lidar com ela

Humanidade sempre modificou e continuará modificando fisicamente o planeta. A questão é entender qual o nível de interferência é aceitável para que a natureza não se volte contra nós

Públicado em 

19 nov 2020 às 04:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Chuva na Grande Vitória
 Bairro Operário, em Cariacica Crédito: Fernando Madeira
“Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito / Se não der, pau vai comer!” (Índio quer apito / Haroldo Lobo)
Num ano com tanta coisa inesperada, a começar pela pandemia, é claro, que acarretou justamente por causa dela tantas mudanças na vida, na economia, na política, nos esportes, na cultura e por aí vai..., também estamos vivenciando uma situação climática até então improvável: em julho, oficialmente inverno no Hemisfério Sul, fez um calorão, com dias propícios para praia (apesar das recomendações de distanciamento social), enquanto que agora, já na primavera e quase chegando o verão, temos tido dias amenos, frescos, muitos deles chuvosos e em alguns lugares até mesmo se viu uma densa neblina.
Se para uma coisa a pandemia serviu, entre tantas outras, foi para acabar com a soberba do homem do século XXI crente que a tecnologia inovadora seria capaz de tudo, de dar-lhe segurança e conforto num nível até então inimagináveis tempos atrás.
Em diversos povos ao longo do tempo, sempre houve a crença na possibilidade do controle climático por forças sobrenaturais, fosse pela prece aos deuses, por promessa aos santos ou por oração a Deus. Ora se pede que mandem a chuva, ora que a chuva vá embora.
O fato é que, como se sabe, o homem é incapaz de controlar a natureza e, portanto, o próprio clima. O que é possível, e graças à ciência como é importante salientar, é compreender o clima, tentando lidar com ele da melhor forma possível.
Por outro lado, a ação humana de transformação do território tem sido responsável por alterações climáticas quase sempre danosas à experiência histórica da vida neste planeta. Durante séculos ocupou-se, por exemplo, áreas sem qualquer risco de inundação fluvial ou marítima; algo que começa a mudar agora por causa de fenômenos climáticos inéditos, em razão de atividades e alterações indevidas impostas ao meio ambiente no qual vivemos.
É óbvio que é intrínseco à humanidade modificar o espaço, buscando melhores condições de vida. Um simples telhado, onde antes só havia mato, é uma resposta às chuvas. Uma parede protege-nos do vento, e assim por diante. Grupos humanos juntaram-se no passado, criando-se vilas e depois as cidades, e assim ficou mais seguro e produtivo saírem para caçar animais para saciar a fome, afinal somos seres carnívoros.
Vejam o caso da energia elétrica, e como ela facilitou nossas vidas. Ou ao contrário, como faz falta, como ocorre agora no Amapá. Caos total...
Enfim, um dos modos de produzir energia é com as hidrelétricas, no qual o Brasil tem enorme potencial (certamente o maior do planeta), considerando seus recursos hídricos. Mas não resta dúvida que toda represa hidrelétrica provoca modificações climáticas em sua microrregião, pois se alaga uma área razoavelmente grande, matando plantas e deslocando a fauna local, reduz a área cultivável, cria uma ampla superfície aquática com alta evaporação, entre outras consequências, muitas delas que só podem mesmo ser sentidas por aqueles que passaram boa parte de suas vidas naquele lugar.
Que o digam as populações de Remanso, Casa Nova, Sento-Sé e Pilão Arcado engolidas pelo rio...
Não é à toa que o licenciamento ambiental de algo tão impactante precisa ser estudado com alto rigor. Nesse sentido, as compensações ambientais são estratégias necessárias para implantação destes equipamentos de infraestrutura que determinam o modelo de vida contemporâneo.
Mas também temos o caso das áreas urbanas, notadamente nos aglomerados metropolitanos, que impermeabilizam o solo, canalizam cursos d’água, cujo resultado é a modificação radical do microclima local, tal como se vê em São Paulo, por exemplo, com chuvas torrenciais recorrentes nos finais da tarde, exatamente naquele horário em que todos pegam o caminho do trabalho para casa e a cidade acaba tendo que parar por causa dos alagamentos.
Enfim, o homem ao longo da sua história, sempre modificou e continuará modificando fisicamente o planeta. A questão é entender qual o nível de interferência é aceitável para que a natureza não se volte contra nós.
Infelizmente, há quem ainda ache que mata com mato não tem serventia, então pensa que o melhor é derrubá-la para aumentar a área cultivável, permitir a derrubada de árvores de madeira nobre para vendê-las como portas e janelas, garimpar para descobrir novas jazidas minerais para produzir joias que enfeitarão pescoço de nobres madames e que índio só quer apito.
Vamos precisar de muita pólvora...

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

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