Muitos filmes de Hollywood do gênero catástrofe apresentam uma estrutura narrativa comum: de repente um fenômeno natural maligno surge e ameaça a vida no planeta com milhares de pessoas morrendo; em seguida um grupo de cientistas, sendo um deles o mocinho da história, lidera uma corrida para salvar o mundo; as mortes ocorrem de modo aleatório, não escolhendo raça ou idade; e aí, quando se está perto do “armagedon”, do fim de tudo, o herói ou um grupo de heróis acham um meio de impedir a destruição total da vida e a humanidade se vê diante de um (novo) recomeço.
Como a vida imita a arte (ou seria ao contrário?), eis que nos vemos agora como se fôssemos figurantes de um blockbuster com várias estrelas de cinema nos principais papéis, interpretando alguns líderes de nações, representantes de organizações científicas, jornalistas midiáticos que diariamente comentam os fatos na tela da TV, e assim por diante. Enquanto isso, o povo, quer dizer, os figurantes, vão morrendo...
Apesar de sempre torcermos pelo herói, a maioria dos atores admite que os grandes papéis são os dos vilões. Muitas vezes, vendo os filmes, há até quem (discretamente) prefira ver a vitória do bandido, a despeito dele ter matado, humilhado, maltratado, violentado muita gente pelo caminho, talvez fascinados pelo seu lado viril: “minha vontade é encher tua boca de porrada”.
Um caso exemplar de um vilão sublime é o Dr. Hannibal Lecter do filme “O Silêncio dos Inocentes”, genialmente interpretado por Anthony Hopkins. Mas, na verdade, na maioria das vezes o ator é um verdadeiro canastrão.
Ambos, herói e vilão, são destemidos, não tem medo de enfrentar o terror. Seus objetivos, porém, são distintos: o mocinho quer salvar todos, já o bandido só pensa nele e em seus asseclas, e caso alguns deles sofram, morram, ele não vê nenhum problema, faz parte do jogo, afinal “todos nós vamos morrer um dia”.
A despeito do glamour do cinema e da audiência da TV, muitos atores confessam que preferem o teatro por conta da proximidade com o público e por terem que atuar presencialmente, sem edição, tudo ali, ao vivo, com muito mais emoção.
É o que temos visto atualmente quando certo líder, no papel de valentão, sai por aí sem nenhuma proteção, afinal sendo um dos protagonistas da história que estamos vendo em projeção na tela, nada lhe fará mal, muito menos um “viruzinho”, algo invisível, pois o que ele quer mesmo é enfrentar balas, tanques e canhões... Seria ele invencível? Quem será capaz de derrotá-lo?
O roteiro, porém, é desses moderninhos, ambíguo, não deixando claro se ele é bandido ou mocinho. Para uma parte da audiência ele é o vilão da história, mas tem que ache que ele é um herói injustiçado.
Mas pra mim, vendo o filme (ou seria uma peça de teatro?), a impressão que tenho é que ele é mesmo um malfeitor. De qualquer modo, cada um tem opinião própria e pode tirar suas conclusões a respeito da história.
Durante muito tempo, os filmes tinham uma narrativa linear, com os fatos sendo apresentados ao espectador em sequência, tal como ocorreram. Hoje, porém, é comum o desenvolvimento das histórias de modo descontínuo, fragmentado, oferecendo diversas possibilidades de interpretação do roteiro. Ambiguidade total.
Não obstante, o processo de produção de um filme requer enorme planejamento, que vai desde a elaboração de várias versões do roteiro; da decupagem dele pelo diretor; desenvolvimento de storyboard; escolha de elenco, da equipe técnica, de cenários e de locações; criação musical, etc.
Infelizmente, há filmes que são verdadeiras trapalhadas, sem nenhum planejamento, sem uma direção firme e na qual os demais integrantes da equipe sintam confiança, e já provocando incerteza no público, e cujo o resultado é um desastre total, uma galhofa sem graça. O pior é quando fazemos parte de uma história dessas, tendo que ver o diretor produzindo uma obra destinada ao fracasso.