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Espaço urbano

Galpões do IBC: quando é hora de preservar o patrimônio?

O uso daquela área pelo IBC era um empecilho no dia a dia dos moradores de Jardim da Penha, sem nenhum tipo de benefício para eles. O tombamento congelará o lugar, afastando investimentos e provavelmente provocando seu abandono

Publicado em 26 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

26 nov 2020 às 04:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Galpões do Instituto Brasileiro do Café, o IBC, em Jardim da Penha.
Galpões do Instituto Brasileiro do Café, o IBC, em Jardim da Penha. Crédito: Vitor Jubini
A maioria dos capixabas está cansada de saber que na história do Brasil Espírito Santo ficou boa parte do tempo “fechado” durante o período colonial, processo este que só começou a mudar, ainda que de modo tímido, no governo imperial de D. Pedro II e, a partir de então, de modo mais intenso ao longo do século XX.
As consequências do isolamento foram várias, entre elas o tamanho da herança patrimonial presente hoje no território capixaba. O Espírito Santo possui um pouco mais de dez bens históricos tombados a nível federal pelo Iphan, enquanto que os estados do Rio de JaneiroMinas Gerais e Bahia possuem cada um deles cerca de 200 bens tombados.
Como se vê, há uma diferença bastante significativa no que tange o patrimônio material histórico artístico cultural existente e legalmente protegido do Espírito Santo quando comparado com seus vizinhos. E isto ocorre apesar de cidades como Vitória Vila Velha estarem entre as mais antigas do país.
Mas há vários outros bens históricos capixabas que também são tombados, porém a nível estadual, tutelados pelo governo do Estadogoverno do Estado por meio do Conselho Estadual de Cultura, e que se somam aos bens sob a égide do Iphan. Apesar de pequeno, trata-se de um acervo com valor inestimável.
Independentemente, porém, de em qual parte do Brasil esteja localizado o bem histórico, com bastante frequência vemos notícias de descaso da população e até mesmo do poder público com a preservação do patrimônio material e, neste sentido, muitos cidadãos espírito-santenses não agem de modo distinto de outros brasileiros.
Para muita gente, tombamento, patrimônio etc., são coisas que só atrapalham, custa caro preservar, sem que haja a compreensão da sua relevância. Algo que se dá, por exemplo, no sítio histórico de Santa Leopoldina, mas não somente lá, onde muitos moradores da cidade veem com muita má vontade o papel dos gestores culturais dedicados à proteção dos diversos imóveis tombados do município.
A falta de uma política cultural desde a formação escolar voltada para a valorização do nosso patrimônio explica parte do problema. É preciso deixar muito claro para a população qual é a importância da preservação da memória histórica como base para a formação sociocultural de um povo, e do seu significado para as gerações futuras.
De qualquer modo, não dá pra preservar tudo, então é necessário um estudo criterioso qualificando o bem histórico que se deseja proteger, seja pela sua qualidade artística, pelo seu valor simbólico e/ou pelo contexto histórico nele contido como testemunha de uma determinada época.
Não obstante, é certo que a adequada preservação dos bens materiais, como no caso das edificações históricas, demanda recursos, o que pode se tornar um problema tanto para construções públicas quanto privadas.
A Itália, país do mundo com maior quantidade de bens materiais tombados, muitos deles considerados patrimônio mundiais pela Unesco, há muito tempo admite a dificuldade econômica na manutenção no seu imenso acervo. Uma visão ingênua é achar que todo patrimônio será viabilizado exclusivamente pelo uso turístico e/ou cultural.
Chegamos então ao caso recente dos galpões do IBC em Jardim da Penha. Com cerca de 33.000 m², a área onde estão localizados os galpões corresponde exatamente a três quarteirões do bairro, ou seja, trata-se de um terreno extremamente grande.
Assim que o governo federal, por meio da Superintendência do Patrimônio da União, anunciou o desejo de vender aquele imóvel, começou-se uma acalorada discussão na cidade sobre o futuro daquela área e até mesmo da região continental da cidade de Vitória. Muitos viram que era a oportunidade de renovação do bairro, atraindo investimentos justamente num momento de crise econômica, enquanto outros demonstraram preocupação com os impactos gerados com a chegada de algum empreendimento de grande porte ao local.
A novidade agora é o tombamento provisório dos galpões pelo Conselho Estadual de Cultura, a partir de uma iniciativa conduzida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil / Espírito Santo, e do qual faço parte. Confesso, porém, minha discordância deste encaminhamento, por não ver qualquer valor arquitetônico naquelas construções que até hoje estavam lá esquecidas sem que ninguém cogitasse seu tombamento. Aqueles galpões nada mais são do que edificações insípidas, irrelevantes.
No meio do bairro, o uso daquela área pelo IBC era um empecilho no dia a dia dos moradores de Jardim da Penha, sem nenhum tipo de benefício para eles. O tombamento congelará o lugar, afastando investimentos e provavelmente provocando seu abandono e arruinamento.
E o risco maior é de que a percepção geral de que “patrimônio só atrapalha” ganhe voz num momento em que já estamos vendo tantas atitudes e manifestações insanas e absurdas, seja daqueles que não respeitam isolamento social, seja de quem diga que queimada na Amazônia é invenção da mídia ou de quem ache que não existe racismo no Brasil...

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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