Dias atrás encontrei com um casal de amigos que tem dois filhos (e aqui é importante ressaltar que mantivemos certos cuidados, como estarmos em local aberto e arejado, conversando com relativa distância e alguns de nós fazendo o uso de máscara). Na ocasião, pra fazer um pouco de graça, perguntei para a filhinha deles sobre o boné que ela usava.
Ela então me respondeu que aquele era um boné de um unicórnio, pois tinha um único chifre no topo dele. O curioso, porém, é que para esta mesma menininha, unicórnios não existem! Começamos então uma pequena “discussão”, pois eu lhe afirmava que unicórnios existem, eu inclusive já tinha visto um num desenho animado na TV, outro estampado num caderno escolar, e por aí vai...
Pra tentar me convencer, ela disse que unicórnio é que nem Papai Noel, pois ele também não existe. “Como não existe? Se eu mesmo já vi vários, um em cada shopping center da cidade quando tá chegando o Natal”, foi a minha resposta.
Ainda bem que ela não tem idade pra gostar de super-heróis, pois se viesse com a conversa que o Batman ou o Homem-Aranha são de mentira, eu ia ficar bravo!
A ideia de que só as coisas tangíveis fazem parte do nosso mundo permeia muitos de nós, o que leva a muita gente a pensar que algo como um vírus não existe, afinal ninguém consegue vê-lo. O intangível, porém, é inato à vida humana.
O que dizer dos cheiros e paladares? Aliás, uma das sequelas da “gripezinha” causada pelo vírus que muitos não creem, é a perda do olfato e do paladar. E se a tragédia maior é o sofrimento que levou à morte de milhares, para os que se recuperaram (ufa, que alívio!), penso que viver sem poder sentir de novo o prazer que certos perfumes ou comidas nos trazem deve ser uma tristeza.
E ainda sobre comidas, imagino que é a mesma tristeza não poder mais apreciar o gosto de um prato “que se come com os olhos”. O prato pode ser de louça, os talheres de prata ou aço inox, o bife de carne de picanha e o molho de queijo, ou a moqueca pode ser de peixe e o molho de camarão, mas o sabor, o cheiro, hum, isso é totalmente intangível. Aliás, tanto a fome quanto a saciedade são intangíveis!
E nada é mais intangível do que a crença no Ser Supremo. E se mais importante do que viver é viver bem, querer ser feliz, buscar a tal felicidade, convém citar que diversos estudos e pesquisas já demonstraram que aqueles que possuem fé se sentem mais felizes do que os agnósticos.
Mas, talvez de tudo que há na intangibilidade do mundo atual, nada tenha mais presença do que ele, o dinheiro. É claro que têm aqueles que, na dúvida, carregam malas cheias de notas, mas o certo é que isso, principalmente no mundo atual dominado por bytes, não possui materialidade física.
Que o digam os megainvestidores do mercado financeiro, que ficam ainda mais ricos em poucos minutos e sequer sem sair do lugar, apenas por causa do humor (ou seria do mau humor?) de alguns políticos que esquecem que o poder também é intangível, além de temporário.
Ah, falemos de coisas mais fruídas. A música, por exemplo. Seria “Águas de Março” ou “Yesterday” mais tangíveis do que um unicórnio?
E no caso do cinema, o que é mais real, um filme com atores de verdade ou um de animação digital? Ora, o que nos interessa nada mais é do que a narrativa visual que se desenvolve na tela em imagens sequenciais. Então, para quem vê um filme, não faz diferença como se chega à obra cinematográfica.
Voltemos à questão do byte. É claro que desde sua criação na segunda metade do século XX, o mundo digital vem crescendo exponencialmente, a ponto de se tornar um mundo paralelo ao mundo real tangível. Uma vez, porém, que somos seres corpóreos, o físico ganha uma importância tremenda. Não obstante, cada vez mais dependemos da virtualidade proporcionada pelo digital que transforma o espaço físico no qual existimos, dando-lhe novo significado ao longo do tempo.
Estamos, portanto, tentando de modo (simplório) afirmar que nem tudo que não vemos, que não podemos pegar ou tocar, existe. Está aí, lá fora, mesmo que a gente não o veja.
Mas poderíamos fazer o caminho inverso. Será que tudo que hipoteticamente é real existe?
Bem, se fôssemos considerar muitas canções que tocam nas rádios e plataformas no Brasil, eu diria que nada daquilo existe, pois sequer dá pra chamar tais sons (ou seriam ruídos?) de música.
Do mesmo modo, nem todo aquele que se diz político é um estadista, possui autoridade, se comporta como um líder e se mostra preocupado com o povo.