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Sociedade

Vivemos na irracionalidade ou conscientes do projeto de destruição?

Mesmo que “a vida não se resuma em festivais”, ainda assim, muito bom seria se tivéssemos hoje um hino com discurso capaz de levantar a multidão para cantar contra a enganação que estão tentando nos enfiar goela abaixo

Públicado em 

24 set 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

O presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento gravado para a assembleia da ONU
Presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento gravado para a assembleia da ONU Crédito: Marcos Corrêa/PR
“Pelos campos, há fome em grandes plantações / Pelas ruas marchando indecisos cordões (...) Nos quartéis, lhes ensinam uma antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão” (Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré)
Considerando que “a vida não se resume em festivais”, ainda assim, muito bom seria se tivéssemos hoje um hino com discurso capaz de levantar a multidão para cantar contra a enganação que estão tentando nos enfiar goela abaixo.
Quem viu, ouviu ou leu o discurso proferido na abertura da Assembleia da ONU, mesmo que não tenha sido na totalidade, se sente envergonhado com a quantidade de inverdades ditas e que beira a um delírio, tal como se fosse uma obra de ficção literária ou cinematográfica, ou uma música provocadora, feita para agitar e nos tirar da pasmaceira. Ora, a “campanha de desinformação” é uma ação do próprio governante e de seus apoiadores.
Vejamos, por exemplo, o caso do auxílio emergencial.
O governo que tinha decidido dar R$ 200 ao povo, teve que ceder ao Congresso que votou por R$ 600, e agora, já se apropriando dos ganhos políticos em popularidade, ainda tá dizendo que pagou US$ 1 mil! E nesse disse-me-disse, uma parte da população se vê sem direção, perdida, e sequer se dá conta de que o dinheiro não é do governo, mas dela própria, a população trabalhadora, sacrificada, que assiste passivamente um monte de políticos e tecnocratas discutindo quanto uma família precisa para viver, pra não passar fome. Um dinheiro que sai do bolso do trabalhador, vai pra Brasília e lá fica, pagando a mordomia de uns, em detrimento do sacrifício de muitos.
Enfim, não foram 200, não serão mais 600 e jamais seria 1.000 (neste caso ele mencionou dólares, que no câmbio no dia do discurso, representaria R$ 5.470,60!). O fato é que agora serão R$ 300, um lobo-guará e meio!
A sorte do lobo-guará é que ele vive no cerrado, e não no Pantanal ou na Amazônia, senão ele já estaria frito, ou melhor, queimado, dizimado pelos incêndios que este mesmo governo insiste em dizer que não existe ou é coisa de índio.
E pelo jeito, o lobo-guará veio mesmo para primar, circulando nas altas rodas, facilitando a vida de um Geddel Vieira, que não precisará de tantas malas daqui pra frente para malocar seu dinheiro, ou daqueles que compram imóveis com dinheiro vivo, praticam a rachadinha...
Já o povo... Ah, certamente que não foi pra ele que a nota de R$ 200 foi pensada!
O Brasil, como em muitos outros assuntos, vai na contramão da maioria dos países, que estão tirando de circulação notas de alto valor. E por que há nações eliminando notas de alto valor? Porque isso só interessa, na maioria das vezes, àqueles que fazem transações ilegais. Fica mais fácil carregar um montante razoável de dinheiro numa cueca, por exemplo.
Foi assim que órgãos como a Europol e o Banco Central Europeu se deram conta que quem faz uso das notas altas são traficantes e mafiosos (e políticos desonestos), razão pela qual recomendaram a eliminação delas.
Num mundo cada vez mais digital, mesmo num país em desenvolvimento como é o Brasil, já é comum encontrarmos até feirante e camelô aceitando pagamento via aplicativo de celular, afinal, é realmente algo muito prático e que veio pra ficar. Isso sem falar nos pagamentos com cartão de débito ou de crédito.
Daí que até se entende (apesar de não concordarmos, haja vista a enorme carga tributária brasileira) com a ideia da equipe econômica em retomar algum tipo de imposto para transações eletrônicas, pois o pagamento em dinheiro tornar-se-á algo mais raro ao longo do tempo, ficando, portanto, difícil dar uma “mordida” nas movimentações financeiras tal como elas vêm ocorrendo hoje, uma vez que elas deixam de ser baseadas em modelos convencionais facilmente tributáveis.
Mas é certo que muita gente (honesta) ainda há de preferir usar bilhetes para pagar suas despesas. Na condição de um cidadão comum, porém, e que é a grande maioria do povo brasileiro, a última coisa que ele vai querer ter na mão é uma nota de R$ 200, difícil de trocar no comércio e cujo valor é um percentual significativo das suas despesas mensais.
Nunca houve tanto conhecimento técnico científico acumulado produzido pela razão humana. O disparate é nos darmos conta que, contraditoriamente, parece estarmos vivendo uma total irracionalidade, a despeito da facilidade de acesso à informação, aos fatos que estão aí, diante dos nossos olhos.
Ou será que estamos todos enganados? Seria, então, tudo isso um projeto consciente, insano e “racional”, visando a destruição deliberada das bases civilizatórias que viemos construindo ao longo da história?

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

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